Baruch Spinoza refletiu sobre um paradoxo político que persiste há séculos: as sociedades conseguem derrotar seus governantes, mas raramente eliminam a tirania como estrutura.
O pensador neerlandês do século XVII registrou essa observação no capítulo XVIII do Tratado Teológico-Político, publicado em 1670. Spinoza afirmou que o povo conseguiu trocar de tirano muitas vezes, mas nunca o suprimiu nem transformou um Estado monárquico em outro de estrutura diferente.
A história oferece exemplos dessa dinâmica: revoluções derrubam reis e generais, mas outras formas de autoridade ocupam o vazio deixado. Spinoza não buscava culpar os indivíduos por isso, mas examinar as condições que permitem que a opressão persista mesmo após a queda de um tirano específico.
O mecanismo que perpetua a submissão
Nascido em Amsterdã em 1632, Spinoza desenvolveu uma filosofia baseada no racionalismo, segundo o qual a razão é fundamental para compreender a realidade. Para ele, a verdadeira liberdade não consiste em agir sem condicionamentos, mas em compreender as causas que determinam nossas ações, e essa lógica também se estende ao plano político.
Uma sociedade que expulsa um déspota permanece prisioneira se continua submetida aos mesmos mecanismos de medo e obediência que legitimavam aquele governo. No Tratado Teológico-Político, ele analisou como o medo e a superstição funcionam como ferramentas de poder. Esses sentimentos levam as pessoas a aceitar decisões contrárias a seus próprios interesses.
A esperança também molda essa dinâmica: promessas de futuro melhor impulsionam mudanças, mas criam dependência quando a confiança se concentra em um líder salvador.
Liberdade verdadeira além da troca de governantes
Para Spinoza, um Estado deveria garantir a convivência e permitir que as pessoas desenvolvessem sua capacidade de raciocínio. No Tratado Teológico-Político, sustentava que o fim do Estado é a liberdade, sem que isso significasse rejeitar qualquer forma de autoridade.
O filósofo reconhecia a necessidade de instituições e leis, e criticava sobretudo os governos que utilizavam o medo para manter a população subjugada.
Essa distinção é essencial para entender sua tese central, e trocar um tirano por outro sem transformar as estruturas que sustentam a opressão mantém o sistema de dominação, apenas sob outro governante. A liberdade genuína exige que as pessoas compreendam suas emoções e desenvolvam a razão, caminhos para romper esse ciclo.



