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BRASIL

Bolsonaro e Moro atribuem tensão a 'rede de intrigas'

Bolsonaro e Moro atribuem tensão a 'rede de intrigas'

ESTADÃO CONTEÚDO

28/08/2019 - 13h33
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Após duas semanas de confronto, o presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, tiveram nesta terça-feira, 27, uma conversa reservada no Palácio do Planalto. Interlocutores relataram que no encontro falou-se numa "rede de intrigas" que teria o objetivo de desgastar a relação dos dois. Bolsonaro costuma ser municiado por grupos de WhatsApp e, muitas vezes, age de acordo com as informações que recebe pelo aplicativo.

Bolsonaro e Moro não fizeram comentários públicos sobre a reunião. Mas, poucas horas após o encontro reservado, o ministro afirmou e tuitou que o presidente tem compromisso com o combate à corrupção. Bolsonaro respondeu na rede social: "Vamos, Moro!". Recebeu de volta: "Estamos juntos, Sr. Presidente. Pelo Brasil e pelo futuro". Interlocutores viram na troca de declarações o resultado do que teriam combinado a portas fechadas.

Bolsonaro está incomodado com as críticas de interferência na Receita Federal e na Polícia Federal, o que afeta sua imagem, inclusive entre seus seguidores nas redes sociais. Até esta terça, Moro, a quem a PF é subordinada, não havia saído em defesa do presidente. No Planalto, não falta quem lembre que, num dos momentos mais delicados para o ministro, quando vazaram conversas com membros da Lava Jato, Bolsonaro o apoiou publicamente.

Na semana passada, o presidente chegou a responder irritado a um comentário de internauta de que ele não poderia abandonar Moro. A mensagem dizia: "Jair Bolsonaro, cuide bem do ministro Moro. Você sabe que votamos em um governo composto por você, ele e o Paulo Guedes". Em resposta, escreveu: "Todo respeito a ele, mas o mesmo não esteve comigo durante a campanha, até que, como juiz, não poderia". 

Enquanto Bolsonaro é acusado de interferir nos órgãos de controle que de alguma forma esbarraram em integrantes de sua família, o ministro aparece como o grande defensor do trabalho de investigação. No domingo, o contraponto entre os dois se acentuou. Moro recebeu demonstrações de apoio em várias cidades do País durante manifestação contra corrupção. Já Bolsonaro foi cobrado a vetar integralmente a Lei de Abuso de Autoridade, movimento que o colocará em confronto com o Congresso.

Na sexta-feira passada, um antigo aliado de Moro, o procurador da República Deltan Dallagnol, coordenador da força-tarefa da Lava Jato, disse em entrevista à Gazeta do Povo que o presidente está se distanciando da pauta de combate à corrupção. Mais uma vez, o ministro não saiu em defesa de Bolsonaro. 

Além do silêncio e da popularidade de Moro nas redes sociais, medida em relatórios de inteligência elaborados pelo Ministério da Justiça, interlocutores do presidente dizem que ele se incomoda com a resistência do ministro a atender algumas de suas sugestões. Uma delas foi a nomeação do delegado Alexandre Saraiva para a Superintendência da PF no Rio, rejeitada pela cúpula do órgão com apoio de Moro. 

Um interlocutor frequente de Bolsonaro resumiu: "O diálogo do presidente com todos os ministros é muito direto e muito franco. Alguns têm mais resistência a atender as suas solicitações do que outros. Moro está um pouco mais nessa fase, mas não tem desgaste capital".

Os dois lados negam, contudo, que a relação esteja próxima de uma ruptura e admitem que a saída de Moro seria ruim para o governo e para o próprio ministro. Nesta quinta-feira, 29, eles estarão lado a lado num evento em Brasília para lançar um dos programas-vitrine da Justiça. Denominado de "Em frente Brasil", prevê a união das forças de segurança municipal, estadual e federal para atacar o problema de violência urbana inicialmente em cinco cidades de médio porte.

Defesa

As primeiras palavras de Moro em defesa de Bolsonaro vieram horas depois do encontro a sós que tiveram na terça. Moro abriu um evento da PF no qual reiterou o compromisso do presidente da República com o combate à corrupção e, ao mesmo tempo, qualificou como "extraordinário" o trabalho do diretor-geral da corporação, Maurício Valeixo. Nas últimas semanas, Bolsonaro ameaçou demitir Valeixo com o discurso de que é ele "quem manda" na PF.

"O presidente Jair Bolsonaro tem um compromisso com prevenção e combate à corrupção. Esse foi um dos temas centrais que me levaram a aceitar esse convite, e eu creio que o governo tem avançado nessa área", disse. "Claro que às vezes há alguns reveses, mas nós temos avançado no enfrentamento da corrupção", complementou.

Desde que assumiu o cargo, Moro sofreu algumas derrotas, como a retirada do antigo Conselho de Controle de Administração Financeira (Coaf) da pasta da Justiça e Segurança Pública. Também enfrenta dificuldades para conseguir a aprovação do seu pacote anticrime, que não recebeu o respaldo do governo para ser votada com celeridade.

Verba

Também após o encontro com o presidente, o ministro, que havia reclamado de forma contundente do corte de verba em ofício ao ministro Paulo Guedes (Economia), manifestou resignação. A interlocutores, disse que todos os ministérios serão afetados com redução no orçamento em 2020.

Produtividade

O delegado Ricardo Saadi, superintendente da Polícia Federal no Rio de Janeiro - cuja substituição foi anunciada no dia 15 pelo presidente Jair Bolsonaro, que alegou "questão de produtividade" - é um dos mais bem avaliados no Índice de Produtividade Operacional (IPO), que mede o desempenho das superintendências em todo o País.

Nesse índice, produzido a partir de dados sobre operações deflagradas, inquéritos resolvidos e atividades administrativas, entre outras variáveis, a Superintendência do Rio de Janeiro, sob a chefia do delegado Saadi, passou neste ano de 24.º para 4 º no ranking de desempenho. 

O índice compara os meses de agosto de 2018 a este mês. O dado é sigiloso para não expor os últimos da lista.

A produtividade da Superintendência da PF no Rio era uma das mais baixas do País há alguns anos. Sob o comando do delegado Saadi, contudo, houve um salto de eficiência. Ele assumiu o posto em fevereiro do ano passado e comandou a divisão em diversas operações de grande impacto, como a que levou à prisão o doleiro Dario Messer.

Além disso, a PF do Rio deflagrou a Operação Furna da Onça, que apura, entre outros fatos, a chamada "rachadinha" entre servidores e deputados na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

Por causa da polêmica, a mudança na superintendência do Rio vai aguardar mais um pouco. O jornal O Estado de S. Paulo apurou que a estratégia é evitar mexer neste assunto até esfriar o clima. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo

 

IMBRÓGLIO

Brasil nega visto a oficiais dos Estados Unidos que pretendiam questionar urnas eleitorais

As medidas ocorrem em meio a atritos diplomáticos entre os governos do Brasil e dos Estados Unidos, envolvendo especialmente as tarifas impostas por Trump aos produtos brasileiros

25/07/2026 19h00

O Itamaraty negou os vistos de dois secretários americanos

O Itamaraty negou os vistos de dois secretários americanos Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

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O Brasil negou o visto de dois oficiais dos Estados Unidos que pretendiam vir ao País para questionar o sistema eleitoral brasileiro após identificar tentativas do governo do presidente norte-americano, Donald Trump, de lançar desinformação sobre as eleições de outubro.

O governo de Donald Trump pretendia enviar dois oficiais norte-americanos ao Brasil para lançar dúvidas sobre a lisura e a integridade do sistema eleitoral brasileiro, de acordo com informações divulgadas pelo jornal americano The Washington Post na sexta-feira, 24.

Conforme o Estadão apurou, o Brasil já havia identificado a tentativa norte-americana antes da publicação. No dia 20 de julho, o governo brasileiro teve conhecimento da intenção após o Departamento de Estado norte-americano solicitar os vistos ao Consulado do Brasil em Washington.

Um sinal de alerta foi a reunião do senador Flávio Bolsonaro (RJ), candidato do PL à Presidência, com embaixadores, no dia seguinte. No encontro, o senador citou suspeitas já negadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre as urnas eletrônicas.

A visita iria ocorrer após o encontro de Flávio com embaixadores. Formalmente, o pedido dos Estados Unidos era para debater "liberdade de expressão relacionada às eleições". As autoridades brasileiras identificaram tentativa de tumultuar o processo eleitoral por meio da missão diplomática.

O Itamaraty confirmou ao Estadão que os vistos de Riley Barnes, secretário-assistente, e Samuel Samson, secretário-assistente adjunto do Departamento de Estado, foram negados na sexta-feira, 24.

As medidas ocorrem em meio a atritos diplomáticos entre os governos do Brasil e dos Estados Unidos, diante do tarifaço do presidente Donald Trump imposto aos produtos brasileiros e às ameaças do Brasil de retaliar com tarifas aos norte-americanos. No campo político, as iniciativas ocorrem na largada da campanha eleitoral, em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enfrenta Flávio Bolsonaro.

'Esse país é nosso e ninguém aqui mete o bedelho', diz Lula

O governo brasileiro reagiu neste sábado, 25. "Ninguém, muito menos Trump vai se meter no processo eleitoral brasileiro", disse o ministro da Secretaria de Relações Institucionais da Presidência, José Guimarães, ao Estadão.

Durante a convenção do PT que oficializou a candidatura de Fernando Haddad ao governo de São Paulo, Lula falou sobre tentativas de inferências nas eleições do Brasil, sem citar diretamente os Estados Unidos.

"Quem quiser de fora vir se meter nas eleições brasileiras, já vou avisando logo: vão apanhar muito aqui nas eleições", disse o presidente.

Lula reforçou que o destino do Brasil será decidido por 157 milhões de eleitores e que o Brasil é soberano e quer manter relações com todos os países sem guerra, mas com paz. "Esse país é nosso e ninguém aqui mete o bedelho".

ELEIÇÕES 2026

Lula usa convenção de Haddad para mandar recado: 'não meta o dedo nas nossas eleições'

Neste sábado, o Partido dos Trabalhadores oficializou a candidatura do ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad ao governo de São Paulo

25/07/2026 16h00

O presidente Lula discursou durante lançamento da candidatura de Fernando Haddad ao Governo de São Paulo

O presidente Lula discursou durante lançamento da candidatura de Fernando Haddad ao Governo de São Paulo Foto: Divulgação

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aproveitou o palco do evento que oficializou a candidatura do ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT) ao governo de São Paulo neste sábado, 25, para rejeitar interferências externas nas eleições brasileiras.

"Que não venha ninguém de fora querer meter o dedo nas nossas eleições", afirmou Lula, em Campinas (SP). "Quem quiser, de fora, vir se meter nas eleições brasileiras, já vou avisando logo: vão apanhar muito aqui nas eleições. Quem vai decidir o destino desse país são os 157 milhões de eleitores."

Sem mencionar o nome de Donald Trump, o petista chegou a mandar recados ao presidente americano. Dizendo não ser afeito a bravatas, afirmou que o "aviso está dado" e que o Brasil é soberano e deseja manter relações com todos os países.

O ato ainda contou com elogios à "qualidade" da chapa paulista, formada por quatro ex-ministros. Lula pediu que os eleitores comparem as "biografias" dos candidatos e elencou críticas ao senador Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência pelo PL, e ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que busca a reeleição.

Prestes a disputar sua sétima eleição, o presidente chamou a atenção dos militantes para a importância da eleição ao Senado e disse que precisará das candidatas Simone Tebet (PSB), ex-ministra do Planejamento, e Marina Silva (Rede), ex-ministra do Meio Ambiente, para ajudar a governar o País. "Porque a gente vai ter muito problema. A política está apodrecida", declarou.

Haddad enfrenta favoritismo de Tarcísio e busca garantir palanque a Lula

Embora os petistas reconheçam o favoritismo de Tarcísio em São Paulo, eles incentivaram a militância a se engajar na campanha para desconstruir a atual gestão estadual e divulgar as realizações do governo Lula.

Ao longo do evento, sobraram críticas às mais diversas áreas da gestão Tarcísio, mas as mais frequentes disseram respeito às privatizações da Sabesp e do transporte sobre trilhos, à criminalidade no Estado, em especial à alta dos feminicídios, e à relação de Tarcísio com os prefeitos.

"Tanto a Sabesp quanto o metrô e a CPTM foram entregues a empresas sem a menor experiência nesses ramos de atividade", afirmou Haddad, acrescentando que as privatizações têm sido feitas "a toque de caixa". Segundo ele, após a privatização da Sabesp, a conta de água aumentou e passou a faltar água nos domicílios paulistas. "Quando a água chega, chega suja", declarou o petista, que disputará o governo paulista pela segunda vez.

O petista, que esteve à frente da área econômica do governo Lula até março deste ano, abriu seu discurso citando os resultados econômicos do governo federal, como o baixo índice de desemprego, e afirmando que o Estado de São Paulo cresceu abaixo da média nacional nos últimos 12 meses.

O vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), que deve ter papel ativo na campanha de Haddad, lembrou que o ex-ministro da Fazenda foi o "amálgama" da sua união com Lula, em 2022. O ex-governador do Estado referiu-se à gestão Tarcísio como "bolsonarismo envergonhado" e disse que São Paulo não quer a "prepotência e arrogância daquelas marteladas", em referência às marteladas do governador em leilões.

"Essas marteladas do atual governador trincaram as principais vitrines do Estado", disse Alckmin, que citou a venda da Sabesp e as privatizações do metrô e trens.

Tebet, que, junto com Alckmin, foi escalada para ajudar a campanha a conseguir votos no interior, disse que Tarcísio não cuida do interior e não dialoga com os prefeitos e, assim como os companheiros de chapa, criticou a política de privatização. "Olha a Sabesp hoje entregando água barrenta. Quando entrega água. Olha o que aconteceu com o trem privatizado em São Paulo, colocando em risco a vida das pessoas com incêndio em vagão que nunca havia acontecido no passado."

O candidato a vice na chapa de Haddad, Márcio França foi responsável pelo discurso mais afiado contra Tarcísio. Chamou o governador de "político ingrato" e lembrou que o atual governador ocupou cargos de confiança nas gestões petistas.

Fazendo referência ao fato de Tarcísio ter sido preterido por Jair Bolsonaro na disputa presidencial, o ex-ministro disse que "nem a família Bolsonaro" acredita nele. "Sabem que Tarcísio é traidor", acrescentou França, que governou o Estado e também criticou a relação do governador com os prefeitos.

A disputa pelo governo de São Paulo será marcada este ano pelo esvaziamento de candidaturas. Além de Tarcísio e Haddad, apenas partidos nanicos, sem representação no Congresso, devem lançar candidatos.

A cor predominante entre apoiadores de Haddad e Lula na Arena Concórdia neste sábado era o vermelho, cor da bandeira do PT. Poucos militantes usaram roupas com as cores verde e amarela, da bandeira do Brasil, que nos últimos anos ficaram associadas ao bolsonarismo, mas passaram a ser usadas recentemente por políticos do campo progressista.

Placas distribuídas logo no acesso ao ginásio estampavam a frase "o governador da segurança", indicando que a pauta da Segurança Pública terá papel central na campanha de Haddad ao Palácio dos Bandeirantes.

A missão de Haddad na campanha estadual vai além de vencer o atual governador Tarcísio de Freitas - o que mesmo os petistas acreditam ser pouco provável. O ex-ministro foi escalado principalmente para garantir que Lula tenha um bom desempenho no maior colégio eleitoral do País.

Em 2018, quando Jair Bolsonaro foi eleito presidente, o então candidato do PT, Fernando Haddad, foi derrotado em São Paulo por 67,97% a 32,03% no segundo turno, uma diferença de 35,94 pontos porcentuais. Quatro anos depois, Bolsonaro voltou a vencer no Estado, mas por uma margem bem menor: de 10,48 pontos porcentuais sobre Lula, que acabou eleito presidente da República.

A escolha por oficializar a candidatura de Haddad em Campinas simboliza uma das prioridades do ex-ministro: avançar sobre o eleitorado do interior paulista, historicamente refratário ao PT

No período da pré-campanha, Haddad cumpriu agendas em diferentes cidades do interior, como Sorocaba e Araraquara.

Discursos miram Flávio por articulação com os EUA e ataques às urnas

Com hino nacional na abertura e discurso de Lula direcionado à soberania do País, o evento teve tom nacional em muitos momentos, com críticas à articulação do senador Flávio Bolsonaro nos Estados Unidos e à taxação americana sobre o Brasil.

"Não é possível ter um presidente da República que trama contra o Brasil e vai atrás de taxação para destruir a indústria", afirmou a ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva, que foi confirmada neste sábado candidata ao Senado pela Rede.

Os recentes ataques de Flávio ao sistema eleitoral brasileiro também não passaram despercebidos. A ex-ministra do Planejamento Simone Tebet (PSB), que mudou seu domicílio eleitoral do Mato Grosso do Sul para São Paulo para disputar o Senado na chapa de Lula, disse que o petista enfrentará um "golpista de plantão", pois "tal pai, tal filho".

Tebet fez apelo aos militantes para que dialoguem com a "direita democrática", com o centro e os indecisos e pregou que "não há eleição ganha". "Não tem eleição ganha como não tem eleição perdida. E, no caso aqui de São Paulo, não adianta eleger o presidente Lula e não dar uma maioria esmagadora na Câmara e no Senado. Não adianta eleger o presidente Lula e não eleger o Haddad governador."

Organização explora encontro de Lula com Trump e impacto do tarifaço sobre paulistas

Vídeos do último encontro entre Lula e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, foram exibidos antes da convenção começar, e um jornal distribuído na entrada do evento chamava o governador Tarcísio de Freitas de "capacho" do Republicano e do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu. O material impresso cita o impacto do tarifaço americano sobre o Estado e lembra que o governador comemorou a vitória de Trump posando com um boné escrito "Make America Great Again".

Peças exibidas antes do início da convenção antecipam alguns dos temas que devem ser explorados pela campanha petista em São Paulo. Um deles critica a privatização da Sabesp e mostra imagens de água suja saindo de torneiras. "Tarcísio privatizou, o serviço piorou", diz a campanha publicitária. Outra destaca o aumento dos casos de feminicídio no Estado.

Ao longo dos últimos meses, Tarcísio conseguiu reunir em torno de sua candidatura todos os partidos que apoiaram o então governador tucano Rodrigo Garcia em 2022, incluindo o próprio PSDB, que ensaiou lançar o ex-prefeito de Santo André, Paulo Serra, mas depois desistiu. Haddad, por sua vez, tentou abrir diálogo com os tucanos e com o PSD - cujo presidente nacional, Gilberto Kassab, foi preterido na escolha da vice de Tarcísio -, mas não teve sucesso em nenhuma das articulações.

Algumas pesquisas já apontam cenários de vitória do atual governador no primeiro turno, desfecho que tende a prejudicar Lula. "[Se Tarcísio liquidar a eleição no primeiro turno e a disputa presidencial avançar para o segundo], Lula ficará sem um palanque em São Paulo e Tarcísio, com a eleição ganha, poderá se envolver intensamente na campanha do Flávio Bolsonaro", avalia Renato Dorgan, CEO do instituto Travessia. "Nesse sentido, a missão do Haddad, que é o nome mais forte eleitoralmente do PT, é ajudar o Lula a ter um bom desempenho em São Paulo e evitar que Tarcísio ganhe no primeiro turno."

Interior paulista é principal desafio de Haddad

A escolha por oficializar a candidatura de Haddad em Campinas simboliza uma das prioridades do ex-ministro: avançar sobre o eleitorado do interior paulista, historicamente refratário ao PT Sem uma guinada nessa região, a avaliação interna é que o petista terá poucas chances de encurtar a distância em relação a Tarcísio.

"Nas urnas, em 2022, o interior foi a região onde encontramos maior resistência. Se dependesse apenas da capital e da Grande São Paulo, Haddad teria sido eleito governador", afirma o presidente do PT paulista e deputado federal Kiko Celeguim.

Segundo ele, a militância petista nunca encontrou um ambiente favorável para pedir votos na região. "Queremos reverter esse cenário eleitoral. Vamos percorrer o interior mostrando que temos uma agenda para a região."

Na capital e na Região Metropolitana, o PT avalia que Haddad tem boas chances de superar o atual governador. Em 2022, o petista venceu Tarcísio na cidade de São Paulo por 54,5% a 45,5%. Para não repetir o placar desfavorável, o governador vai reeditar da dobradinha com o prefeito Ricardo Nunes (MDB) que marcou a eleição municipal de 2024. Desta vez, porém, com os papéis invertidos: agora é Nunes quem vai atuar como cabo eleitoral do governador.

O cálculo dos petistas combina duas frentes: diminuir a vantagem de Tarcísio no interior e preservar a força eleitoral da esquerda na Grande São Paulo. Para isso, a principal aposta é na atuação da ex-ministra do Planejamento e pré-candidata ao Senado por São Paulo, Simone Tebet (PSB), que tem bom trânsito junto ao agronegócio, e do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), que governou o Estado por quatro mandatos.

Segundo Celeguim, Tebet e Alckmin devem cumprir parte da agenda de campanha em separado de Haddad, numa tentativa de ampliar o alcance da campanha e percorrer o maior número possível de municípios.

Renato Dorgan avalia que, se o interior paulista historicamente vem representando o maior obstáculo para a campanha petista, a capital e a Região Metropolitana são territórios mais favoráveis à esquerda. "Na minha avaliação, é aí que está a chave para saber se haverá ou não segundo turno", afirma o cientista político.

Segundo ele, a Grande São Paulo é a região onde Tarcísio enfrenta mais insatisfações atualmente. "Há graves problemas ligados ao transporte metropolitano, à segurança pública, à privatização da Sabesp e à qualidade da educação estadual. O principal risco para o governador é registrar um desempenho regular ou mesmo ruim na capital e na Grande São Paulo e a disputa evoluir para o segundo turno. Ainda assim, dificilmente deixará de vencer a eleição, já que o interior paulista desequilibra a balança e é muito mais conservador e antipetista "

PT quer explorar pontos fracos da gestão paulista e divulgar ações de Lula no Estado

Embora reconheçam o favoritismo de Tarcísio, aliados de Haddad têm dito que o governador não é "imbatível" e que há vulnerabilidades da gestão que podem ser exploradas ao longo da campanha eleitoral.

Pesquisas qualitativas encomendadas pelo PT identificaram que a privatização da Sabesp e as concessões do transporte sobre trilhos estão entre os pontos mais sensíveis. Os problemas registrados em linhas da CPTM na última semana, que levaram o governo a anunciar a retomada da operação pela estatal, já foram transformados em munição pelo partido.

A segurança pública deve ser outro tema central. Como mostrou o Estadão, para construir seu plano para a área, Haddad tem conversado com especialistas historicamente ligados ao PSDB, além de partidos aliados e coronéis e delegados críticos à gestão Tarcísio.

Outros temas que devem ser trazidos à tona por Haddad envolvem a relação de Tarcísio com os prefeitos, o chamado "custo Tarcísio" - expressão usada para se referir à alta de tarifas e serviços administrados pelo governo paulista - e o fato de o governador ter sido cotado para disputar a Presidência.

Aliados de Haddad têm dito que Tarcísio estava se preparando para disputar o Planalto e usou São Paulo para alçar voos mais altos. O argumento, no entanto, esbarra na própria trajetória de Haddad, que resistia à ideia de disputar o governo paulista e só aceitou a missão após pedido de Lula.

Além de tentar desconstruir a gestão de seu adversário, Haddad também terá a missão de dar visibilidade às ações do governo Lula em São Paulo. Nos últimos meses, os governos federal e estadual travaram uma batalha pela paternidade de obras estratégicas do Estado, como o Túnel Santos-Guarujá e o Trem Intercidades.

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