Artigos e Opinião

ARTIGOS

A sabedoria que envelhece em silêncio

Ouvir um idoso não significa apenas revisitar o passado, é compreender melhor a natureza humana

Continue lendo...

O Brasil está envelhecendo. Em poucas décadas, teremos uma das maiores populações idosas do mundo. A medicina ampliou nossa expectativa de vida, mas a sociedade ainda não aprendeu a cuidar de uma das maiores necessidades da terceira idade: a atenção, a escuta e o acolhimento emocional.

Desde muito jovem, sempre gostei da companhia dos mais velhos. Enquanto muitos da minha idade preferiam conversar apenas entre si, eu passava horas ouvindo meus avós.

Meu avô materno, Vicente, coronel do Exército e educador, e meu avô Nico, ferroviário da antiga Noroeste do Brasil, foram duas das maiores fontes de aprendizado que tive na vida.

Hoje percebo que, sem saber, eles me ensinaram muito mais do que fatos históricos. Ensinaram-me a ouvir, a refletir e a compreender que a experiência de vida é uma das formas mais valiosas de sabedoria.

Nossas conversas eram longas e sempre fascinantes. Falávamos sobre a política na época de Getúlio Vargas, sobre o regime militar, os desafios do Brasil contemporâneo, histórias da família, futebol, esporte e os inúmeros “causos” que apenas quem atravessou tantas décadas consegue narrar com riqueza de detalhes e autenticidade.

É verdade que muitas histórias se repetiam. Mas nunca enxerguei isso como repetição. Via, na verdade, a alegria estampada no rosto deles ao reviver momentos que ajudaram a construir quem eram.

E percebia que, mesmo conhecendo o desfecho de cada história, quase sempre surgia um detalhe novo, uma interpretação diferente ou uma reflexão que eu ainda não havia sido capaz de enxergar.

Com o tempo, compreendi que ouvir um idoso não significa apenas revisitar o passado. É compreender melhor a natureza humana e perceber que a história, embora nunca se repita exatamente da mesma forma, costuma seguir ciclos que atravessam gerações.

Vivemos, porém, em uma sociedade que valoriza a velocidade. Temos tempo para responder a mensagens, acompanhar redes sociais e consumir informações durante horas, mas cada vez menos disposição para simplesmente sentar ao lado de quem envelheceu e ouvir suas histórias sem olhar para o relógio.

Esse é um dos maiores desafios de uma população que envelhece rapidamente. Garantir longevidade não é suficiente, é preciso garantir pertencimento.

Nenhum exame substitui uma boa conversa. Nenhum medicamento combate a sensação de invisibilidade que muitos idosos experimentam quando deixam de ser ouvidos.

Os mais velhos carregam muito mais do que lembranças. Carregam experiências que nenhum livro ensina e que nenhuma inteligência artificial é capaz de reproduzir. São testemunhas do seu tempo e, muitas vezes, os últimos guardiões da memória de uma família, de uma comunidade e até de uma geração inteira.

Falta-nos mais paciência para ouvir e mais reconhecimento por tudo aquilo que essas pessoas construíram antes de nós. Afinal, se Deus nos conceder esse privilégio, um dia também seremos nós contando as mesmas histórias.

E, quando esse momento chegar, o que mais desejaremos provavelmente não será alguém que nos corrija ou nos apresse, mas simplesmente alguém disposto a nos ouvir.

Os jovens não imaginam o quanto podem aprender simplesmente reservando alguns minutos para conversar com seus pais, avós e familiares idosos. A assistência material é importante e, muitas vezes, indispensável.

Mas nenhuma ajuda financeira substitui a presença, a escuta atenta, o respeito e o carinho. Quem dedica alguns minutos para ouvir um idoso não está apenas oferecendo afeto, mas também recebendo uma herança invisível de experiências, valores e sabedoria construída ao longo de uma vida inteira.

Se o Brasil envelhece, é preciso que amadureça também a nossa forma de enxergar a velhice. Envelhecer é um privilégio. Garantir que cada idoso seja tratado com respeito, afeto, escuta e dignidade não é apenas um dever das famílias, mas um compromisso permanente de toda a sociedade.

ARTIGOS

Como o El Niño e as barreiras protecionistas interferem na pecuária moderna

Intensificar a expansão sem o suporte de uma gestão financeira cirúrgica é o caminho mais rápido para o prejuízo na pecuária

09/09/2026 07h25

Continue Lendo...

Estamos prestes a iniciar uma das estações de monta mais desafiadoras da nossa história. O pecuarista que encarar esse momento apenas como mais um ciclo reprodutivo corre o risco de ver sua margem operacional evaporar nos próximos dois anos.

Em Mato Grosso do Sul, a pecuária tem sofrido forte pressão de outras culturas: a rápida expansão da soja, das florestas plantadas e da citricultura reduz as áreas de pastagens disponíveis, forçando-nos a intensificar cada vez mais a produção.

Porém, intensificar sem o suporte de uma gestão financeira cirúrgica é o caminho mais rápido para o prejuízo.

Para enfrentar esse cenário complexo, agravado pelas previsões de calor severo e chuvas irregulares ocasionados pelo El Niño, apresentamos três quebras de paradigma imprescindíveis para o sucesso da safra 2026/2027:

Primeiramente, a matriz vazia não é necessariamente apenas um indicativo de falha reprodutiva, lembre-se que ela é uma importante fonte de receita para o criador de bezerros.

Tradicionalmente, o produtor hesita em descartar fêmeas falhas, carregando-as na esperança de um resultado tardio. Mas a matemática é implacável, matrizes vazias inflam a taxa de lotação da fazenda, porém não ajudam a pagar as contas.

Diante de pastagens castigadas pelo estresse térmico e pela degradação hídrica do El Niño, manter essa “máquina” improdutiva consumindo recursos é insustentável.

O descarte  dessas fêmeas vazias ao fim da estação de monta deve ser inegociável, trata-se de uma estratégia para gerar receita e aliviar os pastos na seca para priorizar os animais produtivos.

Em segundo vem a “guerra silenciosa” por áreas e a armadilha inflacionária do milho.  Disputamos por áreas produtivas diretamente com a agricultura e a silvicultura. Com menos espaço para a pecuária, a resposta óbvia tem sido a transição para sistemas que adotam semiconfinamento e confinamento.

Mas surge aí uma nova competição por outro recurso: o milho. A consolidação de gigantes usinas de etanol de milho no Estado estabeleceu uma demanda contínua que inflaciona o grão. Antes de confinar, o produtor deve priorizar a produção de arrobas em pastagem.

A arroba mais barata continua sendo aquela produzida a pasto.

E em terceiro, a estação de monta como uma “máquina do tempo” para o mercado de 2028. O cerco internacional se fechou. A União Europeia barrou as importações de animais que tenham consumido antimicrobianos (promotores de crescimento químicos).

Paralelamente, as cotas da China para a carne brasileira foram atingidas e o excedente será taxado em mais 55%. No bolso do produtor, a suspensão do bônus Hilton representa uma perda direta de aproximadamente R$ 6,00 por arroba do animal abatido.

Como o MS tem seu foco na produção de animais precoces e superprecoces, abatidos entre 18 meses e 24 meses, as decisões sobre o protocolo sanitário e nutricional do bezerro concebido hoje definirão a liquidez dessa safra em 2028.

Planejar o fluxo de caixa, determinar o custo real de cada arroba produzida e antecipar-se às barreiras comerciais não são mais opcionais: são condições imprescindíveis para maximizar o resultado da operação pecuária.

EDITORIAL

Caos que não pode ser normalizado

É lamentável que um hospital tão importante para Campo Grande e Mato Grosso do Sul esteja permanentemente envolvido em problemas financeiros

09/09/2026 07h15

Continue Lendo...

Nesta edição, mais uma vez, mostramos o caos financeiro da Santa Casa de Campo Grande e suas implicações. E elas têm se agravado somadas à má gestão financeira do hospital.

Não há mais como aceitar a justificativa de que a Santa Casa é um hospital de “portas abertas” e que, por isso, os recursos públicos repassados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) nunca são suficientes para equilibrar as contas.

É evidente que pode haver insuficiência de recursos para manter uma estrutura desse porte, mas a falta de dinheiro não pode servir como explicação permanente para um cenário de desorganização financeira. Talvez faltem recursos, mas não ao ponto de justificar o caos atual.

Quando uma instituição recebe recursos públicos em valores expressivos, a sociedade tem o direito de saber como esse dinheiro é utilizado. E é justamente aí que está um dos maiores problemas da Santa Casa: falta transparência.

As contas e os contratos de terceirização não permitem compreender com clareza onde estão os custos. É preciso saber se não há situações injustas, com muita gente produzindo pouco enquanto recebe muito dinheiro.

Não se trata de acusar ninguém sem provas, mas de exigir que os números permitam afastar dúvidas. A falta de transparência abre espaço para questionamentos sobre a eficiência dos contratos e da estrutura administrativa da Santa Casa de Campo Grande. Uma gestão responsável deveria esclarecer essas questões.

Também chama atenção o peso dos juros pagos mensalmente pela instituição. São milhões de reais que deixam de ser destinados à atividade hospitalar para remunerar dívidas acumuladas. Em algum momento, é preciso atacar as causas do problema.

A Santa Casa também poderia ter mais capacidade de gerar caixa e depender menos dos repasses do SUS. Isso exigiria planejamento e revisão de despesas, processos e contratos. Aparentemente, não há um trabalho consistente nessa direção.

É lamentável que um hospital tão importante para Campo Grande e Mato Grosso do Sul esteja permanentemente envolvido em problemas financeiros. Parte dessas dificuldades pode decorrer não apenas da falta de recursos, mas também de uma gestão que não demonstra eficiência e transparência.

A Santa Casa de Campo Grande precisa de recursos, mas precisa também de gestão. Precisa do Sistema Único de Saúde, mas deve buscar reduzir sua dependência.

E precisa, principalmente, abrir suas contas para distinguir aquilo que é efetivamente falta de dinheiro daquilo que pode ser consequência de decisões administrativas equivocadas. Sem isso, o problema continuará sendo empurrado para o futuro, enquanto a conta ficará para a sociedade.

NEWSLETTER

Fique sempre bem informado com as notícias mais importantes do MS, do Brasil e do mundo.

Fique Ligado

Para evitar que a nossa resposta seja recebida como SPAM, adicione endereço de

e-mail [email protected] na lista de remetentes confiáveis do seu e-mail (whitelist).