Artigos e Opinião

EDITORIAL

Campanha com poucas propostas

O eleitor terá de decidir em meio ao caos, com pouca clareza sobre aquilo que deveria orientar uma escolha eleitoral: a capacidade de cada candidato e seus planos para governar

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Lamentavelmente, a campanha eleitoral deste ano é, até agora, uma das menos propositivas dos últimos anos.

Esta é a constatação possível neste momento, quando tanto no plano federal quanto nos planos regionais pouco se debatem propostas concretas para os problemas que o País e os Estados terão de enfrentar nos próximos anos.

Os escândalos estão aí, ocupando espaço no noticiário e no debate político. O eleitor, aparentemente, terá de decidir em meio ao caos, com excesso de conflitos e pouca clareza sobre aquilo que deveria orientar uma escolha eleitoral: a capacidade de cada candidato e seus planos para governar.

Em meio a esse ambiente, conhece-se muito pouco sobre a capacidade de cada um. E mesmo quando se trata de alguém já conhecido pelo eleitorado, ainda é difícil saber quais são seus planos para os próximos anos.

Experiência, popularidade ou capacidade de comunicação podem ser importantes, mas não substituem propostas e compromissos claros.

O rumo que a campanha está tomando é perigoso para a sociedade. A pessoalização da disputa, assim como o uso de figuras que não integram a disputa político-eleitoral como fator decisivo para a definição do voto, representa uma fuga ao tema principal. O eleitor precisa escolher entre projetos, e não apenas entre personagens.

É compreensível que fatos envolvendo instituições importantes despertem atenção. A crise no Supremo Tribunal Federal (STF), por exemplo, tem enorme repercussão política e institucional. Mas ela não tem relação direta com aquilo que cabe ao Poder Executivo apresentar ao eleitor.

O debate eleitoral deveria avançar para outra pergunta: quais são os planos para os próximos anos?

Essa pergunta vale para todos os níveis da disputa. Como os candidatos pretendem melhorar a segurança pública? O que farão para ampliar investimentos, gerar empregos, melhorar a saúde e a educação? Como pretendem equilibrar as contas públicas e tornar o Estado mais eficiente?

Quais são as prioridades e como serão financiadas? São questões que precisam estar no centro da campanha.

Não é possível que uma eleição seja decidida apenas pela capacidade de cada grupo de produzir conflitos, explorar escândalos ou mobilizar apoiadores em torno de personalidades.

A política precisa voltar a discutir o futuro. O eleitor tem o direito de conhecer as propostas, comparar alternativas e avaliar quem demonstra preparo para transformar promessas em ações.

Seria bom que todos falassem sobre isso. Que os candidatos apresentassem seus planos, explicassem suas prioridades e mostrassem como pretendem executá-las.

Quanto mais a campanha fugir desse debate, mais pobre será a escolha do eleitor. Uma democracia se fortalece quando a sociedade escolhe não apenas em quem confiar, mas também qual caminho deseja seguir.

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É preciso devolver tempo à leitura

Entre 35 países da organização com resultados comparáveis, a média de leitura no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) caiu 25 pontos entre 2018 e 2025: de 486 para 461 pontos

08/10/2026 08h15

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Nunca tivemos tanto acesso a textos e informações. Ainda assim, os resultados de proficiência em leitura vêm piorando consistentemente.

Os dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) são um alerta. Entre 35 países da organização com resultados comparáveis, a média de leitura no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) caiu 25 pontos entre 2018 e 2025: de 486 para 461 pontos.

No Brasil, o desempenho ficou praticamente estável em relação a 2022 e próximo do patamar observado desde 2015. Mas estabilidade está longe de ser motivo para conforto: em 2025, os estudantes brasileiros alcançaram 408 pontos, 53 abaixo da média da OCDE.

Nossa mente tende a buscar explicações simples. O problema seriam as telas? A pandemia? A escola? A família? A inteligência artificial? Provavelmente há vários fenômenos sobrepostos. Identificar causas plausíveis é importante, mas isso, por si só, não resolve o problema.

Há uma pergunta mais incômoda: quanto tempo estamos reservando para que crianças e jovens leiam? E nós mesmos, adultos?

Não tempo para estudar para uma prova, ler o livro obrigatório do bimestre ou produzir um resumo. Tempo para curtir uma boa história, descobrir um autor, escolher o que ler. Formar um leitor exige prática. E prática exige tempo.

A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, de 2024, ajuda a dimensionar a questão. Dos entrevistados, 53% não haviam lido sequer parte de um livro nos três meses anteriores. Entre os leitores que gostariam de ter lido mais, 46% citaram a falta de tempo.

Esses dados não permitem concluir que a falta de tempo explique, isoladamente, a baixa leitura no Brasil. Mostram, porém, que tempo não é uma questão abstrata.

Devemos discutir também a relação da escola com os livros. Frequentemente, lê-se para responder, resumir ou ser avaliado. Tudo isso tem importância pedagógica. Mas, se toda leitura termina em uma tarefa, o livro corre o risco de virar apenas obrigação.

Nos colégios do Grupo Positivo, reservamos 20 minutos diários para leitura por prazer no Ensino Fundamental. O estudante tem tempo, estímulo e liberdade para escolher: pode começar por quadrinhos, descobrir um autor, interessar-se por um romance ou abandonar um livro que não o conquistou.

Não partimos da premissa de que 20 minutos produzirão, isoladamente, melhora nos indicadores acadêmicos. Esse efeito precisa ser medido. A ideia é simples: é inviável criar o hábito de fazer algo para o qual nunca reservamos tempo.

Esse trabalho também passa pela família. Pais e mães não precisam transformar a casa em sala de aula. Podem tornar a leitura visível. Ver os adultos lendo e ouvir conversas sobre livros mostra à criança que ler faz parte da vida. A responsabilidade não é apenas das famílias; escolas e bibliotecas continuam fundamentais.

Ler um texto longo também exige atenção: acompanhar um argumento, recuperar algo lido páginas atrás e continuar mesmo quando compreender exige esforço. Ler um livro é também aprender a não trocar de assunto a cada poucos segundos.

A inteligência artificial reforça essa necessidade. Quanto mais fácil se torna produzir respostas, mais importante é avaliá-las criticamente, comparar fontes e distinguir uma resposta convincente de uma informação confiável.

Vinte minutos não resolverão a queda da proficiência leitora. Não é essa a proposta. Antes de exigir que uma criança ou jovem leia melhor, precisamos garantir condições para que ela se torne leitora: livros ao alcance das mãos, estímulo para ler, alguma liberdade de escolha, adultos que tornem a leitura visível e tempo para abri-los.

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Como a história de um homem comum transformou a moda no Brasil

A trajetória do alfaiate Vittorio Ficara ilustra essa determinação. Italiano nascido no Egito, ele atravessou o Atlântico e chegou ao Brasil, estabelecendo-se no Rio de Janeiro

08/10/2026 07h20

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Progredir em uma profissão exige foco, empenho e conhecimento. No entanto, não é preciso ser famoso para conquistar reconhecimento. Quando exercido com propósito e dedicação, o trabalho vai além da geração de renda e torna-se uma ferramenta essencial para transformar realidades.

A trajetória do alfaiate Vittorio Ficara ilustra essa determinação. Italiano nascido no Egito, ele atravessou o Atlântico e chegou ao Brasil, estabelecendo-se no Rio de Janeiro. É a história de um homem comum que revela como essa profissão pode contribuir para a construção de uma vida digna e para a definição de um lugar na sociedade. É uma história de vida, marcada por guerra, imigração, reconstrução e amor.

Sua caminhada teve como força principal a persistência, aliada à capacidade de enfrentar e superar situações das mais adversas, com uma habilidade laboral e inventiva extraordinária, movida por seu espírito otimista e resiliente, que o levou a enfrentar situações adversas e transformou dificuldades em possibilidade de recomeço.

Alfaiate exclusivamente masculino, Vittorio chegou ao Brasil sem referências, construiu sua trajetória até ingressar na então renomada Casa Canadá de Luxe, um estabelecimento de moda feminina, que ele ainda não conhecia.

Seu preparo técnico, aprendido e praticado no Egito, foi decisivo para esta conquista e lhe permitiu não só ingressar no estabelecimento, onde atuou na modelagem feminina, como também compartilhou seu conhecimento com a equipe, formando novos profissionais.

Com certeza, seu perfeccionismo e sua dedicação contribuíram para o desenvolvimento técnico e profissional da costura.

A trajetória de Vittorio não é apenas uma narrativa. Vai além de uma história pessoal. Ela preserva um legado, marcado por passagens históricas, sociais e emocionais do século 20, que transformam a sua caminhada em testemunho e memória a serem transmitidos.

Mas, principalmente, a sua experiência mostra a importância da profissão no Brasil e deixa uma mensagem para quem enfrenta períodos de incertezas: é preciso continuar em frente, mesmo diante das dificuldades.

Como ele dizia: “Um dos segredos para sobreviver é ter a habilidade de continuar e não de se sentir um náufrago. Sempre há uma saída”.

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