Nenhuma favela de Campo Grande tem acesso à rede de esgoto, de acordo com a concessionária Águas Guariroba. Atualmente, Campo Grande possui 39 ocupações, que correspondem a mais de 4.516 moradias ocupadas de forma irregular, e outras estão se formando.
A concessionária informou que a disponibilização da rede de esgoto segue os critérios de regularização de imóvel exigidos pela Prefeitura de Campo Grande. Com isso, é necessário que o morador tenha em mãos documentos que comprovem a posse e a propriedade do imóvel, seguindo as determinações de habitação.
Os moradores da segunda maior favela de Campo Grande sofrem com falta de saneamento básico, a comunidade do Samambaia fica localizada no Bairro Los Angeles e conta com 434 famílias, entre elas, a da auxiliar de cozinha Silvana Gomes da Silva, 41 anos.
Silvana mora em uma das casas da comunidade há quatro anos com seu filho e marido. Ela relata que nunca conseguiu ter acesso a esgoto e água tratada, pois a sua residência não foi regularizada por parte da prefeitura da Capital.
“Já veio gente da prefeitura aqui ver e nunca resolveu nada. Eu tenho acesso à água porque meu marido furou um poço, mas esgoto, não, demos o nosso jeito aqui. Eu torço para que isso daqui melhore e regularize, eu não tenho outra opção, vou levando do jeito que dá”, relatou.
A falta de saneamento básico foi responsável pela internação de 6.319 pessoas em Mato Grosso do Sul em 2019, segundo pesquisa realizada pelo Instituto Trata Brasil divulgada neste mês. Entre as doenças estão as diarreicas, dengue, leptospirose, esquistossomose e malária.
De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), o acesso ao saneamento básico é um direito de todos, assim como determina a Constituição Federal de 1988.
NOVA OCUPAÇÃO
Em outra região da cidade, a realidade também é semelhante. Há pouco menos de dois anos, formou-se a comunidade Filhos de Israel, no bairro Jardim Centro-Oeste. O local abriga 85 famílias e todos os lotes já foram ocupados.
O local, inclusive, não consta em levantamento da Central Única das Favelas (Cufa), divulgado na segunda-feira em matéria do Correio do Estado. A comunidade foi encontrada pela reportagem, durante a apuração desta matéria.
O líder e idealizador da ocupação, Israel de Moura Silveira, 21 anos, disse que está aguardando um parecer da prefeitura sobre a regularidade da ocupação. Na comunidade, muitos afirmaram que estão dispostos a pagar pelos serviços, desde que tenham acesso ao esgotamento sanitário – a maioria lança os dejetos em fossas improvisadas.
“Aqui era só matagal, sendo que tinha famílias quase indo para debaixo da ponte, por isso que ocupamos. Entramos em contato com a prefeitura, mas até agora não tivemos nenhuma resposta. Aqui está tudo no improviso, não tem esgoto, água tratada, saneamento, por isso a gente quer que regularize, aí podemos organizar tudo certinho”, apontou o líder.
O engenheiro sanitarista Aroldo Ferreira Galvão explica que quando as pessoas não têm acesso à rede de esgoto jogam seus dejetos a céu aberto, o que gera problemas ambientais, como a contaminação de rios e de água subterrânea, além do aumento de risco de doenças, como diarreias, verminoses, doenças de pele, entre outras.
Quem quiser ajudar as famílias das comunidades pode entrar em contato por meio dos telefones (67) 99208-5043 e (67) 99200-4877 ou ir pessoalmente à comunidade Samambaia, que fica na Avenida Cafezais, no Bairro Los Angeles. Já a comunidade Filhos de Israel fica na Rua Cícero Fernando Pereira, número 55, no bairro Jardim Centro-Oeste.
DIREITO
De acordo com o engenheiro sanitarista, o conceito de saneamento básico no Brasil, segundo a Lei 11.445/2007, engloba abastecimento de água, esgotamento sanitário e manejo das águas pluviais e dos resíduos sólidos.
“A água e o esgoto tratado são essenciais para que haja uma sociedade saudável, equilibrada e com uma expectativa de vida melhor. Com a universalização do esgoto, a população pode ter melhor qualidade de vida, com impacto direto na redução de doenças epidemiológicas. Esse é um direito de todos”, avaliou.
Para que se tenha a universalização do saneamento básico, é necessário que a cobertura da área urbana com o serviço de esgoto em execução seja de 92% a 95%. De acordo com a Águas Guariroba, Campo Grande possui cobertura de esgoto de 82,6%.
Segundo o especialista, o tratamento de esgoto, que faz parte do saneamento básico, auxilia tanto o ser humano quanto o meio ambiente, visto que sua má destinação pode contaminar rios, mares, lagos e represas e, consequentemente, causar doenças em toda a população.
“São vários os benefícios de quando se melhora o tratamento da água: teremos melhora na qualidade de vida e redução de doenças infecciosas, além de aumentar a expectativa de vida de toda a população. Esperamos vivenciar isso, porém, esperamos que a população consiga ter acesso a esse serviço de maneira igual, não apenas uma parcela da sociedade, e por um preço justo”, alegou o engenheiro sanitarista.


José Augusto Borges e Vanessa / Foto: Reprodução / Redes Sociais

