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Capa B+: Entrevista exclusiva com o Chef Paulo Machado

Cultura e gastronomia mundial

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Paulo Machado é plural. É mestre em hospitalidade, chef do Instituto Paulo Machado, apresentador de TV do canal Modo Viagem da Rede Globo e colunista de gastronomia da CBN, além de ministrar aulas sobre gastronomia pelo Brasil e pelo mundo.

Apresentador do "reality show" gastronômico "Sabor a Prova", na TV Record MS.

Desde 2013, ele realiza Food Safaris, expedições gastronômicas  por vários destinos no Brasil e pelo mundo, que promovem profunda imersão na cultura alimentar das regiões por que passa.

No currículo de Paulo ainda estão estudos e períodos de trabalho em restaurantes da Europa e do Brasil, onde assina o menu dos passeios: Recanto Ecológico Rio da Prata e Estância Mimosa na região de Bonito, um dos principais destinos do ecoturismo no mundo.

Já promoveu Festivais de Cozinha Brasileira em mais de 15 países com destaque para: Tailândia, Quênia, Itália, Peru, China, Singapura e Japão.

Em 2015, o cozinheiro e pesquisador recebeu o Prêmio Dólmã de melhor chef de cozinha na categoria nacional e é "Embaixador da Gastronomia Pantaneira"

para o mundo. Em 2018, ganhou o concurso do programa Fantástico com o melhor estrogonofe do Brasil, feito com carne de jacaré.

Coidealizador da Rota Gastronômica Pantaneira, promove o Pantanal nas maiores feiras de Turismo do mundo. Em 2019 recebeu o Colar do Mérito Pantaneiro, do governo de Mato Grosso do Sul, e a comenda no grau de Cavaleiro da Ordem do Rio Branco, do governo federal brasileiro por seu trabalho como embaixador das cozinhas: pantaneira e brasileira, respectivamente.

Atualmente reside em Barcelona, ponto de partida para suas expedições gastronômicas pelo planeta.

"LA COCINA DEL PANTANAL”

O chef Paulo Machado anunciou um grande passo na sua trajetória como autor e estudioso. Embaixador da gastronomia pantaneira para o mundo, Paulo realizou em 12 de dezembro de 2024, evento de lançamento do livro “La cocina del Pantanal”, na Embaixada do Brasil, em Madri. O evento foi uma parceria com a Embaixada do Brasil na Espanha e a obra editada pela Documenta Pantanal.

“La Cocina del Pantanal: Los Sabores de la Transhumancia” possui textos de Cristina Couto e fotografia de Luna Garcia.

“Transmitir saberes e reforçar a identidade cultural latino-americana é o que busca a versão em espanhol do meu livro. Estou muito feliz em poder lançá-lo na residência brasileira na Espanha, e quero também agradecer todo o empenho do Sr. Embaixador Orlando Leite Ribeiro, que inclusive contribui com um texto de apresentação neste projeto.”, comemora o chef.

A noite foi um momento único, uma experiência pelos sabores, cores e perfumes do Pantanal, com degustações de quitutes regionais assinados por Paulo, apresentações e a oportunidade de encontrar o autor em uma sessão de autógrafos.

"É com grande alegria que recebemos o chef Paulo Machado para a apresentação aqui em Madri de seu livro sobre receitas pantaneiras. Já tive oportunidade de visitar o Pantanal inúmeras vezes, e não cansei de me surpreender com sua impressionante riqueza de fauna, flora, gastronomia e cultura. Celebraremos esse patrimônio brasileiro junto ao público espanhol, trazendo uma perspectiva única sobre um de nossos ecossistemas mais fascinantes.", comenta Orlando Ribeiro, embaixador do Brasil na Espanha.

O Chef Paulo Machado é Capa exclusiva do Correio B+ desta semana. Em entrevista ao Caderno que exibe a sua nova diagramação ele fala sobre seu início de carreira, gastronomia e viagens internacionais, participações no Masterchef e novidades para 2025.

O chef Paulo Machado é Capa exclusiva do Correio B+ - Foto: Luna Garcia - Diagramação: Denis Felipe - Entrevista: Flávia Viana

CE - Paulo, em que momento descobriu a gastronomia?
PM -
 Descobri minha aptidão para a gastronomia de forma mais intensa quando me mudei de Campo Grande, onde nasci, para São Paulo em 1998.

A experiência de viver em uma grande metrópole trouxe novos desafios e oportunidades, eu era ainda estudante e me via maravilhado com a diversidade de ingredientes exóticos que encontrava no bairro da Liberdade, com as cores do mercadão municipal, com as receitas italianas do bairro do Bixiga, eu era estudante e foi nesse período que comecei a cozinhar para mim mesmo, e posteriormente resolvi me dedicar profissionalmente na área de gastronomia. 

Me formei em Direito e depois fui trabalhar em cozinha, pode parecer bizarro mas segui o meu instinto, tinha em mim essa paixão por criar pratos, descobrir como as coisas eram feitas, essa transformação que a culinária trás, de ingredientes a obras primas que são obras de Chefs mais respeitados do mundo, enfim, quando me debrucei neste caminho foi imersivo. Sem volta atrás e continuo nele até hoje, aprendendo, trocando, ensinando e me realizando cada vez mais nesse tema. 

CE - Saiu de Campo Grande há quanto tempo e porquê?
PM -
 Eu me mudei pra São Paulo em 1998, desde então, até hoje, já morei em diferentes cidades, conheci um grande número de paises, 60 no total, até hoje, mas retornei pro meu ninho que é Campo Grande, onde está minha família, meu Instituto de Pesquisas em Alimentação e a base do meu trabalho central que é a Cozinha Pantaneira.

Hoje vivo na ponte aérea: Campo Grande - Barcelona, pois a Espanha é central para a minha marca de viagens, os FoodSafaris, que sou responsável desde 2021 pelas expedições internacionais e a pesquisa sobre novos destinos.

CE - Sente falta do estado? Vem de quanto em quanto tempo?
PM -
 Como eu falei pra você, eu praticamente não sinto falta de Mato Grosso do Sul por que ele está comigo todos os dias. Tudo o que eu faço é levar este estado comigo, pra onde quer que eu ponha minha alma. Seja para ensinar uma escola de gastronomia como fazer um arroz carreteiro ou um caldinho de peixe e a chipa, até pra servir o doce de leite mais gostoso do Brasil, feito no Recanto Ecológico Rio da Prata, para também, os paladares mais exigentes das feiras de turismo e gastronomia ou embaixadas do Brasil pelo mundo.

Viajo muito, mas algumas vezes do ano estou em Campo Grande. 2025 mesmo, que mal começou já estive na Capital Morena duas vezes.

Foto: Luna Garcia

CE - Que projetos você tem em MS e como funcionam, conta pra gente?
PM - 
São vários projetos em Mato Grosso do Sul, e o mais importante é que tenho muita gente boa comigo nesse balaio. A Fundação de Turismo de Mato aGrosso do Sul aliada ao Sebrae MS são grandes parceiros quando apresento projetos pioneiros que visam pesquisar, estudar e apresentar a nossa gastronomia ara o mundo.

As secretarias de cultura, tanto da capital quanto do estado também elevam a gastronomia ao patamar cultural. Isso é muito importante. Ao longo destes meus anos pesquisando a cozinha pantaneira já desenvolvi dois projetos com apoio do Fundo de Investimentos Culturais de MS. Em 2008, realizei um mapeamento e levantamento de dados da cozinha pantaneira que embasou posteriormente meu trabalho no Mestrado em

Hospitalidade e depois o meu primeiro livro: “Cozinha Pantaneira: comitiva de sabores”, pela editora BEĪ e Documenta Pantanal, sobre a cozinha pantaneira com 65 receitas regionais e o segundo projeto foi o livro: “Rota Gastronômica Pantaneira, por Paulo Machado”, com 20 receitas dentre elas, 10 autorais e outras dez encontradas nas pousadas e estabelecimentos turísticos da região do Pantanal Sul, e que publiquei e lancei ano passado no Instituto Histórico e Geográfico de Campo Grande. 

Novos projetos para o próximo biênio também estão se desenvolvendo, um deles, e que estou buscando apoio, pois já foi aprovado a nível federal é o livro: Cozinha da Zizi, as receitas da casa da minha avó Zilá Machado. 

Aqui abro um parênteses: minha avó Zizi, uma exímia cozinheira, e minha mãe, Lúcia Martins Coelho Barbosa, artista plástica, sul-mato-grossense, muito visionária e criativa. Foram basilares para o que hoje sou profissionalmente, o que torna o meu olhar para essa cozinha que temos tão feminina, muito mais apurado.

Com o trabalho delas percebi que a culinária poderia ser uma forma de expressar minha identidade e minhas raízes. As memórias das refeições familiares e as técnicas aprendidas com minha avó se tornaram a base da minha cozinha, enquanto a visão artística da minha mãe inspirou minha abordagem estética e criativa na apresentação dos pratos.

Essa combinação de tradição e inovação, somada à experiência urbana, permitiu que eu desenvolvesse meu próprio estilo e, assim, a verdadeira descoberta da gastronomia se concretizou, levando-me a explorar e celebrar a rica cultura do Pantanal em meus projetos e na minha vida. 

CE - Quais os seus programas de culinária preferidos?
PM - 
Sinceramente, eu não tenho paciência pra assistir programas relacionados a gastronomia, eu prefiro vivê-la, gasto esse tempo de ficar na frente da telinha pra ir diretamente ao mercado ou feira de rua mais próximo de onde eu estiver, visitar pequenos restaurantes ou comida de rua da cidade ou localidade que eu estiver é claro, através dos FoodSafaris que são as expedições de gastronomia que eu criei junto com minha sócia Pollianna Thomé, há 12 anos, eu faço essa imersão de “programa de tv” na prática. 

Quando tenho tempo pro entretenimento meu ócio é no Cinema ou busco filmes de arte, séries cômicas ou dramáticas e um e outro documentário sobre temas relacionados a meio ambiente, diversidade e sustentabilidade que são assuntos que me preocupam e me interesso cada vez mais. 

CE - Você gosta de apresentar programas, conta sobre os que apresenta.
PM -
 Eu sinto que todo esse aprendizado na prática, além de dar aulas há muito tempo, seja nas universidades por onde passei ou nas aulas shows e treinamentos em cozinha que dou, toda essa bagagem me dá o embasamento para apresentar programas de tv, meu podcast viagem de sabores e minha coluna semanal na rádio CBN.

Eu amo o que faço e sinto que consigo transmitir isso nos programas de TV que participo, seja no Master Chef, o qual já participei como convidado de algumas edições até o meu programa de TV, o sabor à prova, que está indo para a 5ª temporada e é apresentado na TV MS Record. 

No Masterchef - Divulgação

CE - Como foi participar do Masterchef Brasil? Como surgiu o convite?
PM - 
Foram três participações ao longo dos anos, sempre como convidado para mostrar a cozinha pantaneira, uma das ocasiões apareci falando um pouco do trabalho com um dos competidores, o Daniel Barbosa, chef que trabalhou comigo nas olimpíadas do Rio.

Outra vez fui representado a região Centro Oeste, num programa lindo onde os competidores, separados por grupos tiveram que trabalhar com frutos do Cerrado como o pequi e aprenderam as técnicas do macarrão de comitiva e da linguiça de Maracaju.

Agora minha grande participação e que pra mim foi um divisor de águas na emancipação do meu trabalho em consolidar a cozinha pantaneira no rol de cozinhas mais importantes do Brasil foi montar uma mesa com inúmeros elementos, pratos, ingredientes e combinações encontradas no Pantanal.

Esse programa foi lindo, na 10ª edição do master chef, inteiro dedicado ao nosso tema e os competidores trabalharam com maestria inspirados na minha aula. Foi emocionante. E ainda divido o palco naquela edição com o Chef Rodrigo Oliveira, amigo de profissão que conheço bem e admiro demais. 

CE - Como são os Festivais de Comida Brasileira que você promove?
PM -
 Geralmente apresento um projeto ou entram em contato comigo dada a minha vasta experiência em promover este tipo de evento, para uma participação ou curadoria de um festival de cozinha brasileira. Eu com toda minha vasta expertise na área vou moldando o evento de acordo com o cenário, e muitas vezes com apoio da iniciativa pública ou privada. 

CE - Fale pra gente do "LA COCINA DEL PANTANAL”
PM - 
Há dois anos fui recebido pelo embaixador do Brasil em Madri, Orlando Leite Ribeiro, para apresentar meu livro: Cozinha  Pantaneira e dali surge a ideia de fazermos a publicação em espanhol e lançarmos o livro no salão nobre da embaixada, o que aconteceu no último dezembro. 

A versão do livro em espanhol nasceu por conta da minha parceria com a Documenta Pantanal, que é uma iniciativa que conecta profissionais de áreas diversas, para sensibilizar as pessoas da importância de defender o bioma. A Monica Guimarães, diretora da Documenta, abraçou a ideia, e hoje o livro está disponível para toda a comunidade hispanófona no site da “Casa del Libro”, editora mais importante da Espanha. 

Foto: Luna Garcia

CE - Como funciona o seu trabalho em Bonito?
PM -
 Há doze anos assino o cardápio e o treinamento em gastronomia das equipes de cozinha da Estância Mimosa em Bonito e do Recanto Ecológico Rio da Prata em Jardim. É um trabalho de formiguinha mas que graças a visão dos proprietários é o empenho da equipe, a cada visita eu noto a evolução do cenário para a gastronomia na região.

Em termos de bioma, Bonito é mais Cerrado e Mata Atlântica que Pantanal, mas ocorre que a cultura gastronômica é pantaneira, salvo algum traço ou outro. A cultura pantaneira traspassa fronteiras. 

Hoje temos dois menus bem diferentes para cada passeio, servimos doarem 150 a 250 turistas/dia. O doce de leite conseguiu o selo arte, abolimos produtos industrializamos. O laticínio, bem como o horti-fruti granjeiro vem todo da fazenda. Temos uma agrofloresta e horta de manejo orgânico que oferece frutas, ervas, pimentas e hortaliças o ano todo, respeitando a sazonalidade. Enfim, um mundo que se abriu pro meu trabalho e que posso na prática aplicar o que eu vou aprendo em relação a cozinha regional pantaneira. É lá que você encontra a minha essência gastronômica. 

CE - Paulo você é um chef premiado, como é levar a cultura do MS para o mundo?
PM - 
Eu sinto que boa parte do que colhi hoje tem a ver com a minha persistência em mostrar e demonstrar para as pessoas o potencial gastronômico e cultural que temos em nossa região. Mato Grosso do Sul prima por suas influências. 

O desenvolvimento gastronômico de MS é de extrema importância, pois reflete a riqueza cultural e a diversidade de influências que moldam a região. As tradições paraguaias, bolivianas, japonesas, libanesas, entre outras, se entrelaçam com as práticas locais, resultando em pratos únicos que são verdadeiras expressões da identidade sul-mato-grossense. 

Essa fusão de sabores e técnicas não apenas enriquecem os restaurantes locais, mas também a destaca no cenário nacional, oferecendo experiências que não podem ser encontradas em nenhum outro lugar do Brasil. Assim, a gastronomia de MS se torna patrimônio cultural, celebrando a sua singularidade e promovendo a valorização das tradições, técnicas e ingredientes locais, e eu tenho a obrigação de divulgar isso tudo nos quatro cantos do mundo.

E sabe o que é o mais legal? Não estou sozinho nessa. Estou alinhado com tantos Chefs que temos na região, posso citar nomes e certeza que deixarei muitos de fora, então é melhor nem mencionar, porque cada vez mais admiro as pessoas da minha área, principalmente os mais jovens debruçados no olhar pantaneiro. 

CE - O que o Paulo mais gosta de comer? E o que mais gosta de cozinhar?
PM - 
Feijoada é meu prato favorito, e pra onde viajo no Brasil ou mesmo em Portugal e alguns outros países que cozinham com feijão, aprendo algo novo, adoro também cozinhar pratos como a feijoada e guisados, ensopados, gosto de comida com molho sabe? Na feijoada mesmo ando colocando toques de especiarias como uma pitadinha de cravo, cominho ou noz moscada. Combina demais, fica uma delícia, mas isso é só um segredinho tá? Tem que ser usado com parcimônia.

CE - Em que lugar do mundo está agora?
PM - 
Respondo estas perguntas aqui de Madri na Espanha onde estou para cozinhar em dois grandes eventos de turismo e gastronomia dos mais importantes do mundo. A FITUR (feira internacional de Turismo) é o Madrid Fusión (evento de gastronomia e negócios mais movimentado da Espanha). Daqui vou para a Catslunya levar um grupo de clientes e pesquisadores para caçar trufas e participar do Trufforum na cidade medieval de Vic. Evento realizado pelo Instituto Europeu de Micologia. 

CE - A gastronomia está na moda ou sempre esteve?
PM - 
Mais do que na moda hoje vivemos o tempo do que comer importa. Queremos saber de onde vem a origem dos alimentos e isso é importante para o ser humano, para o meio ambiente e para o futuro. Acredito que cada vez mais a gastronomia estará entrelaçada com o turismo, com os regionalismos e com a sustentabilidade que liga os produtos do campo a mesa e ingredientes de proximidade. 

CE - Quais os seus planos para 2025?
PM -
 São muitos eventos, jantares, aulas e viagens a trabalho. Estou indo mês que vem pra Berlim e depois Los Angeles, em ações de turismo e gastronomia para a Fundtur MS e Itamaraty. 

Farei um FoodSafaris pra Bordeaux onde levo dois grupos, 25 clientes para conhecer a fundo esse sistema alimentar que envolve as mais importantes vinícolas do mundo, Foie Gras, caviar e trufas do Périgord. Em junho participo de um congresso de cozinhas regionais latino americanas em Mérida, provincia de Yucatan no Golfo do México.

E em algum momento retorno para Mato Grosso do Sul ainda este semestre pra gravar a 5ª temporada do Sabor à Prova. E em julho ainda estou nas tratativas de uma colaboração com o Itamaraty para apresentação de sabores pantaneiros no contexto do BRICS para as missões estrangeiras que visitarão Brasília.

No segundo semestre, continuar meu treinamento de cozinha para as equipes da Estância Mimosa e Recanto Ecológico Rio da Prata em Bonito e Jardim, respectivamente. Também  pretendo dirigir uma série para um canal da TV brasileira e documentário sobre a cozinha pantaneira, mas ainda não posso revelar o veículo, terminar dois livros de cozinha e turismo regional.

Participar de ação da Embratur em NYC, levar o grupo dos FoodSafaris para o México para desfrutar de toda a cultura alimentar que envolve o Día de Muertos (aproveitem que esta expedição ainda não está completa)! E em novembro apresentar a Rota Gastronômica Pantaneira na WTM Londres. 

Bem, parafraseando Manoel de Barros, “meu quintal é maior que o mundo”, estes são alguns dos gols para 2025. Sei que vou viajar e trabalhar bastante e quando dá, voltar pro meu rincão, pois afinal é onde mora meu coração e mente. Viva meu Mato Grosso do Sul.

 

Cinema Correio B+

Paulina García e as mulheres que o cinema demorou a enxergar

A atriz chilena, homenageada da quarta edição do Bonito CineSur, que começa nesta sexta-feira, 24 de julho, em Mato Grosso do Sul, construiu boa parte de sua carreira justamente interpretando mulheres que o cinema durante décadas teria colocado na lateral

25/07/2026 13h00

Paulina García e as mulheres que o cinema demorou a enxergar

Paulina García e as mulheres que o cinema demorou a enxergar Foto: Divulgação

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Não é nenhuma novidade ou segredo que o cinema sempre soube envelhecer seus homens. Eles ganham rugas, passado, autoridade, novos amores e, muitas vezes, mulheres bem mais jovens. Continuam heróis, amantes, homens em crise, homens em busca de uma segunda oportunidade. Com as mulheres, a história foi durante muito tempo bastante diferente.

Envelhecer significava, com frequência, deixar de ser desejada, deixar de desejar e, aos poucos, sair do centro da narrativa. Atrizes acima dos 40, inclusive, não tinham muitas ofertas de trabalho. Paulina García ajudou a bagunçar essa lógica.

A atriz chilena, homenageada da quarta edição do Bonito CineSur, que começa nesta sexta-feira, 24 de julho, em Mato Grosso do Sul, construiu boa parte de sua carreira justamente interpretando mulheres que o cinema durante décadas teria colocado na lateral da história.

Mulheres maduras, comuns, às vezes solitárias, sem qualquer vocação para heroínas, mas que ainda desejam, erram, se apaixonam, sentem medo e, principalmente, continuam mudando. O festival abre com Querido Trópico, seu trabalho mais recente a chegar ao Brasil, e coloca Paulina também no centro de uma conversa sobre protagonismo e resistência feminina no cinema sul-americano.

Claro que até por isso é inevitável falar dela sem voltar à Glória.

Em 2013, muito antes da discussão sobre a invisibilidade das mulheres maduras ganhar a dimensão que tem hoje, Paulina apareceu na tela como uma divorciada de meia-idade que frequentava bailes para solteiros, bebia, dançava, fazia sexo, se apaixonava pelo homem errado e continuava procurando alguma coisa que talvez nem ela soubesse exatamente definir.

Não havia transformação milagrosa, cirurgia, rejuvenescimento ou aquele velho roteiro em que uma mulher precisa ser salva por um novo amor para provar que sua vida ainda vale a pena.

Glória simplesmente queria viver. Pode parecer pouco, mas não era. Paulina ganhou o Urso de Prata de melhor atriz no Festival de Berlim por uma personagem cuja grande revolução estava justamente em não pedir desculpas por ainda desejar alguma coisa da vida. Recomendo que revejam ou vejam o filme: é lindo.

Porque existe uma diferença importante entre contar histórias sobre envelhecer e permitir que uma mulher envelhecida continue sendo uma personagem completa. Gloria não é admirável o tempo inteiro.

Também é carente, impulsiva, vulnerável e capaz de insistir numa relação que claramente lhe oferece menos do que deseja. Talvez seja justamente por isso que permanece tão viva. O filme não precisa transformá-la numa inspiração para justificar sua existência.

Quatro anos depois, em A Noiva do Deserto, Paulina voltou a ocupar um território parecido, embora por outro caminho. Teresa tem 54 anos e passou décadas trabalhando como empregada doméstica para a mesma família até ser obrigada a deixar aquela casa e atravessar o deserto argentino em busca de um novo emprego.

Depois de uma vida organizada em torno das necessidades dos outros, ela se vê literalmente deslocada, sem saber muito bem o que fazer com uma liberdade que não pediu.

O filme, exibido na mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes em 2017, transforma uma viagem aparentemente banal numa possibilidade tardia de descobrir que ainda existe vida fora do papel que lhe foi atribuído.

Há algo que aproxima Teresa de Glória sem que elas sejam a mesma mulher ou tenham o rosto de Paulina. Nenhuma das duas está começando a vida, mas nenhuma aceita que tudo o que importa já tenha acontecido. É uma ideia aparentemente simples que o cinema demorou surpreendentemente muito para compreender.

Quando a mulher que cuidou começa a precisar de cuidado

Agora, em Querido Trópico, essa questão ganha uma camada ainda mais delicada. Paulina interpreta Mercedes, uma mulher de classe alta que começa a enfrentar a demência e recebe os cuidados de Ana María, uma imigrante colombiana.

Entre duas mulheres separadas por classe, origem e circunstâncias, nasce uma relação construída justamente quando as identidades que cada uma sustentava começam a se mostrar frágeis.

E talvez esteja aí uma das perguntas mais dolorosas do filme: o que acontece quando a mulher que passou a vida ocupando determinados lugares — mãe, profissional, dona de casa, chefe, esposa, cuidadora de todos — começa a perder aquilo que usava para reconhecer a si mesma?

A memória é uma parte fundamental dessa identidade, mas não a única. Somos também aquilo que os outros lembram de nós, os vínculos que construímos, as funções que desempenhamos e até os papéis dos quais passamos anos tentando nos libertar.

Quando tudo isso começa a escapar, não desaparece apenas o passado. Fica ameaçada também a narrativa que construímos para explicar quem somos.

Em Querido Trópico, essa perda acontece diante de outra mulher cuja existência também é marcada pela precariedade. Ana María cuida, mas também precisa de cuidado.

Mercedes aparentemente tem poder, dinheiro e uma vida estabelecida, mas começa a perder o controle sobre aquilo que parecia mais íntimo e inalienável: a própria história. O encontro entre elas desmonta, aos poucos, a ideia simples de que uma é forte e a outra vulnerável.

Talvez esse seja também um dos fios invisíveis da trajetória de Paulina García. Suas personagens raramente são mulheres que “vencem” no sentido convencional. Elas não rejuvenescem, não recuperam magicamente tudo o que perderam e não terminam necessariamente com a vida organizada. O que conquistam é algo menos espetacular e, por isso mesmo, mais interessante: o direito de continuar existindo como sujeitos de suas próprias histórias.

Paulina em Querido Trópico e em Gloria

Envelhecer não deveria significar desaparecer

É curioso que ainda seja necessário chamar de revolucionário aquilo que deveria ser banal: uma mulher de 50, 60 ou mais anos ter desejo, medo, sexualidade, egoísmo, ambição, solidão e futuro. Até porque, o problema nunca foi apenas a falta de mulheres maduras nas telas, mas também porque sempre estiveram lá como mães, avós, esposas abandonadas, vizinhas ou cuidadoras.

Personagens que ajudavam alguém mais jovem a atravessar sua própria história. E a verdadeira mudança acontece quando a câmera permanece com elas depois que os outros vão embora.

Quando queremos saber o que Gloria fará depois daquele relacionamento. O que Teresa encontrará depois de atravessar o deserto. Quem Mercedes continuará sendo quando suas lembranças começarem a falhar.

Ao homenagear Paulina García, o CineSur acaba celebrando também uma atriz que passou anos fazendo uma coisa aparentemente pequena e profundamente política: recusando a ideia de que a vida feminina tem um ponto a partir do qual só resta olhar para trás.

Suas personagens olham para trás, naturalmente. Há perdas, arrependimentos, relações que deram errado e escolhas que talvez fizesse diferente. Mas ainda existe alguma coisa adiante. Justamente a parte que o cinema tem levado mais tempo para enxergar.

GASTRONOMIA

No Dia dos Avós, veja receitas cheias de afeto que mantêm vivas as memórias de família

Veja receitas cheias de afeto que mantêm vivas as memórias de família e transformam ingredientes simples em lembranças inesquecíveis

25/07/2026 10h00

Dia dos Avós é uma oportunidade para desacelerar e retomar tradições familiares

Dia dos Avós é uma oportunidade para desacelerar e retomar tradições familiares Pexels

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Poucas lembranças despertam tanta nostalgia quanto o aroma de um bolo recém-saído do forno, o cheiro do café passado na hora ou o sabor daquele doce preparado pela avó em tardes de domingo.

Em muitas famílias brasileiras, a cozinha sempre foi um espaço de encontros, de conversas e de transmissão de histórias, onde receitas escritas em cadernos antigos ou guardadas apenas na memória passam de geração em geração.

Celebrado no dia 26, o Dia dos Avós homenageia aqueles que ocupam um lugar especial na formação das famílias. Mais do que figuras de carinho e de acolhimento, avôs e avós são guardiões de tradições, costumes e sabores que ajudam a construir a identidade de cada família.

A data também convida filhos, netos e bisnetos a desacelerarem a rotina para compartilhar momentos juntos. E poucas formas simbolizam tão bem esse encontro quanto preparar ou saborear uma receita tradicional.

ORIGEM DA DATA

A celebração do Dia dos Avós tem origem na tradição cristã. O dia 26 de julho marca a homenagem a Santa Ana e São Joaquim, considerados os pais de Maria e, consequentemente, avós de Jesus Cristo.

Ao longo do tempo, a comemoração ganhou um significado mais amplo, tornando-se um momento para reconhecer a importância dos avós na educação, na transmissão de valores e no fortalecimento dos vínculos familiares.

No Brasil, a data é marcada por almoços especiais, visitas, reuniões familiares e demonstrações de carinho. Em muitos lares, também é a oportunidade perfeita para resgatar receitas antigas que contam parte da história da família.

HERANÇA AFETIVA

Muito antes da internet e dos livros de culinária modernos, eram as avós que ensinavam, na prática, os segredos da cozinha. Uma pitada “a olho”, o ponto certo da massa observado pelo toque das mãos ou o tempo de forno medido pelo aroma que se espalhava pela casa são conhecimentos que dificilmente aparecem em receitas escritas.

Esses saberes fazem parte do patrimônio cultural das famílias. Não é raro encontrar cadernos de receitas escritos à mão, muitas vezes manchados de farinha, manteiga ou café, guardados como verdadeiros tesouros.

Muito além de ensinar os pratos, os avós costumam transmitir valores como paciência, dedicação e cuidado com quem será servido. Afinal, cozinhar sempre foi uma forma de demonstrar afeto.

SABOR DA MEMÓRIA

A ciência explica que os aromas e sabores estão profundamente ligados às emoções. Isso acontece porque o olfato tem conexão direta com regiões do cérebro responsáveis pela memória e pelos sentimentos.

Por isso, experimentar novamente um arroz-doce, um bolo de fubá ou uma broa preparada como antigamente pode transportar uma pessoa imediatamente para a infância.

Essas lembranças ajudam a fortalecer o sentimento de pertencimento e mantêm vivas histórias familiares que passam de uma geração para outra.

RECEITAS SIMPLES

Apesar das mudanças nos hábitos alimentares, algumas preparações continuam presentes nas mesas brasileiras e atravessam décadas praticamente sem alterações.

Entre elas estão bolos caseiros, biscoitos amanteigados, arroz-doce, doce de leite, broas, cucas, rosquinhas, compotas e geleias feitas com frutas da estação.

São receitas que valorizam ingredientes simples, acessíveis e preparados com calma, respeitando o tempo de cada etapa.

Neste Dia dos Avós, preparar uma dessas receitas pode ser uma maneira especial de homenagear quem sempre demonstrou amor por meio da comida.

Bolo de Fubá Tradicional

Dia dos Avós é uma oportunidade para desacelerar e retomar tradições familiaresBolo de Fubá Tradicional - Foto: Pexels

Ingredientes:

  • 3 ovos;
  • 2 xícaras (chá) de açúcar;
  • 2 xícaras (chá) de fubá;
  • 1 xícara (chá) de farinha de trigo;
  • 1 xícara (chá) de leite;
  • ½ xícara (chá) de óleo;
  • 1 colher (sopa) de fermento químico;
  • Erva-doce a gosto (opcional).

Modo de Preparo:

> Bata os ovos, o açúcar, o leite e o óleo;

> Acrescente o fubá e a farinha aos poucos, misturando até obter uma massa homogênea;

> Adicione o fermento e a erva-doce;

> Despeje em forma untada e asse em forno preaquecido a 180°C por aproximadamente 40 minutos.

Broa de Milho

Dia dos Avós é uma oportunidade para desacelerar e retomar tradições familiaresBroa de Milho - Foto: Pexels

Ingredientes:

  • 2 xícaras (chá) de fubá;
  • 1 xícara (chá) de farinha de trigo;
  • 1 xícara (chá) de açúcar;
  • 100 g de manteiga;
  • 2 ovos;
  • 1 colher (sopa) de fermento químico;
  • Leite até dar ponto.

Modo de Preparo:

Misture todos os ingredientes secos;

Acrescente a manteiga e os ovos;

Vá adicionando leite aos poucos até formar uma massa macia;

Modele pequenas broas, coloque em assadeira untada e asse a 180°C por cerca de 25 minutos, até ficarem levemente douradas.

Goiabada Cascão Caseira

Dia dos Avós é uma oportunidade para desacelerar e retomar tradições familiaresGoiabada Cascão Caseira - Foto: Reprodução

Ingredientes:

  • 2 kg de goiabas maduras;
  • 1,5 kg de açúcar;
  • Suco de meio limão.

Modo de Preparo:

Lave as goiabas, corte em pedaços e retire apenas as partes muito duras;

Bata rapidamente no liquidificador e passe por uma peneira grossa para retirar sementes;

Leve a polpa ao fogo com o açúcar e o suco de limão;

Cozinhe em panela de fundo grosso, mexendo frequentemente, até adquirir consistência firme e de cor avermelhada. 
Coloque em recipiente untado e deixe esfriar completamente antes de servir.

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