O Brasil fechou o ano passado registrando um consumo de quase três litros de vinho por habitante, um cenário que o sommelier Charles Carvalho considera “bem positivo”. Mas o especialista aposta que as coisas ainda podem ser bem mais simples, tanto para quem está começando quanto para os já iniciados na bebida consagrada, na mitologia romana, ao deus Baco.
Mesmo sem ter fé em qualquer divindade, você pode se dar bem na hora de comprar a próxima garrafa com as explicações e dicas de Carvalho, que, além de carregar, no sobrenome, o nome da melhor madeira para envelhecimento da bebida, tem 24 anos de experiência no assunto e há sete atua no Grupo Pereira.
É ele quem dá a palavra final para a escolha das centenas de opções – são mais de 800 – disponíveis na maior rede varejista do Estado. “Hoje, a gente tem que descomplicar o vinho. Já teve muita complicação. O vinho já foi uma bebida mais elitizada, e hoje o brasileiro está consumindo muito”, afirma o sommelier, que nasceu no Piauí e descobriu o mundo de Baco quando morava em São Paulo.
PARA COMEÇAR
“Recomendamos, para quem não conhece e é adepto mais aos vinhos doces, um vinho de estilo mais adocicado, um vinho mais suave ou alguns espumantes com a uva moscatel. Para os que querem fugir um pouco do doce, mas não gostam daqueles vinhos muito secos, tânicos, com a acidez um pouco mais presente, a gente vai para os estilos reservados, que são estilos meio secos, que agradam muito o paladar de quem está iniciando no mundo do vinho”.
RÓTULOS
“Sempre prestar atenção no rótulo. Ele sempre te entrega a região, a sub-região, o produtor, a característica da uva. Hoje, encontramos rótulos bem modernos, com desenhos, figuras. E tem aqueles consumidores adeptos aos rótulos mais tradicionais, com nomes, por exemplo, de châteaux na França ou vinhos italianos que preservam muito a imagem do vinhedo. Escolha bons rótulos animados e principalmente aqueles que trazem muita informação, se é reserva, gran reserva ou reserva especial… O rótulo e o contrarrótulo te entregam tudo”.
COMO ARMAZENAR
“O vinho requer um ambiente com umidade relativa [do ar] variando em torno de 85%. Não pode estar muito gelado nem muito quente. Pouca luz solar e ter aquele cuidado de deixá-lo na posição horizontal para a rolha estar em contato com o líquido. Porque, se deixarmos a garrafa em pé, a rolha não tem contato com o líquido e, com o passar do tempo e as diferentes temperaturas, o vinho esquenta, a rolha murcha, entra oxigênio para dentro e o vinho começa a oxigenar até oxidar. Em uma linguagem popular, ele vai ficar avinagrado”.
COMO SERVIR
“Para servir, normalmente a gente tem que deixar o vinho na temperatura ideal. Brancos, espumantes e vinhos rosé, com temperatura um pouco mais baixa. Não gelado, porque aí a gente vai sentir só o gelo. Os tintos, não tão gelados, mas em uma temperatura ali variando entre 12 e 15 graus, que a gente aconselha aqui no Brasil. Porque, se a gente esquentar muito, vai aparecer só o álcool.
Quando está na temperatura ideal, o vinho tem aquela entrega bem interessante. Uma boa taça de vinho, um bom decanter para decantar o vinho e quebrar um pouco mais o álcool. É um momento realmente de a gente apreciar aquela obra de arte que o enólogo preparou com tanto carinho durante muitos meses e envelheceu durante alguns anos para a gente ter todo o preparo possível, tanto na temperatura, como uma ótima taça, e principalmente um excelente ambiente e uma ótima companhia”.
PARA HARMONIZAR
“Os vinhos tintos são mais gastronômicos, têm taninos, polifenóis, muitos são passados por barricas. São muito gastronômicos, principalmente harmonizando com carnes e pratos mais complexos. Os brancos e os vinhos verdes, recomendamos muito para entradas, pratos leves, saladas, queijos mais leves. São vinhos bem mais fáceis de apreciar, principalmente os brancos, rosés e espumantes em regiões muito quentes, a gente consegue aproveitar e apreciar melhor pela acidez, que é mais presente e dá uma refrescância melhor no corpo.
Para uma boa degustação, iniciamos com branco e podemos ir para uma taça de rosé. Vamos ao prato principal com o vinho tinto, dependendo de qual é o prato e o estilo do vinho. Podemos também harmonizar uma excelente sobremesa doce ou frutas cítricas com vinhos próprios para sobremesa, que são late harvest (colheita tardia), e podemos encerrar com vinho do porto.
É um vinho fortificado que pode-se servir antes das refeições, por exemplo, o estilo tawny, para a gente abrir realmente o apetite. Ou encerrar com a sobremesa, um café ou charuto, com o estilo ruby, entre outros, que são mais adocicados, para finalizar as nossas refeições”.
QUEM É QUEM
O vinho mais consumido no Brasil é o vinho de mesa, mas só que tem uma alta gradação de açúcar. Tirando isso, o brasileiro também gosta muito de um vinho de estilo reservado. O que é um vinho reservado? Principalmente aquele reservado da Concha y Toro, que foi pioneiro nesse estilo. É um vinho que tem um açúcar residual e vai para um estilo meio seco. É um vinho mais macio no paladar, bem mais agradável, e muitos gostam porque sai um pouco daquele doce e vai para um estilo meio seco.
Algumas uvas características: a cabernet sauvignon, que é muito conhecida e dá vinhos mais intensos, a pinot noir, uma uva que consideramos feminina, que dá um vinho mais delicado, uma coloração não tão forte e uma acidez um pouco mais presente. E a malbec, que é bem floral, lembra muito frutas maduras, rosas… São vinhos mais delicados. Nós temos aí o oposto, que é a uva tannat, que tem muitos amantes hoje. É a uva que tem a maior concentração de resveratrol, que é um antioxidante que faz muito bem à nossa saúde, e por aí vai.
Das uvas brancas, temos a chardonnay, que é bem mais gastronômica, mais intensa. Há bons chardonnays passados por barrica, lembrando muito baunilha. A sauvignon blanc, outra uva branca, é bem refrescante e recomendável, principalmente, para as regiões quentes, como Mato Grosso do Sul e o Nordeste. Ela tem uma acidez bem agradável e refresca o corpo.
E o espumante, que deixou de ser consumido só em épocas festivas e hoje em dia a gente a consome nos 12 meses do ano. E não só o espumante moscatel, que é doce, mas também os outros estilos de espumante, o brut, que é o seco, ou demi sec, entre outros.
INOVE
“A principal dica para evitar as furadas é verificar se no ambiente tem alguém que possa indicar. Se não tiver, é ir naqueles rótulos mais conhecidos, mais tradicionais, que aí não tem erro. Mas aconselho muito a gente sempre inovar, ir provando e conhecendo, principalmente por países, regiões e uvas. Cada uva tem uma entrega bem diferente. Algumas têm mais açúcar residual, são mais macias no paladar. Outras são mais ásperas, tânicas, ácidas. E outras, mais encorpadas”, finaliza o especialista.


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Gerson Cullmann e Mônica Fernandes Cullmann - Foto: Studio Vollkopf
Paula Bezerra de Mello - Foto: Miguel Sá
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