Um ombro mais alto que o outro, a cintura desalinhada, uma costela mais evidente de um lado do corpo ou até mesmo uma camiseta que parece vestir de forma desigual podem ser sinais de escoliose, uma condição que afeta milhões de pessoas em todo o mundo.
Muitas vezes silenciosa e sem provocar dor nos estágios iniciais, a alteração na coluna pode passar despercebida durante anos e ser descoberta apenas quando a curvatura já está mais acentuada.
O tema ganha destaque durante o Junho Verde, campanha internacional de conscientização sobre a escoliose, que tem o dia 27 de junho como marco mundial, para ampliar a informação sobre a doença e reforçar a importância do diagnóstico precoce.
Muito além da questão estética, a escoliose pode trazer impactos significativos para a saúde. Dependendo da gravidade, a condição pode provocar dores, fadiga muscular, limitações de movimento e, em casos mais severos, comprometer a capacidade respiratória.
Em crianças e adolescentes, as alterações visíveis no corpo também podem afetar a autoestima, as relações sociais e o bem-estar emocional.
O QUE É?
A escoliose é caracterizada por uma curvatura lateral anormal da coluna vertebral, geralmente acompanhada da rotação das vértebras. Na prática, isso significa que a coluna não apresenta apenas um desvio para os lados, mas sofre alterações tridimensionais que afetam todo o alinhamento corporal.
Essa mudança pode influenciar a posição dos ombros, da cintura, das costelas e até mesmo a forma como o corpo distribui peso e equilíbrio durante atividades simples do cotidiano.
Por ser uma condição que nem sempre causa sintomas evidentes no início, especialistas alertam para a necessidade de observação constante, principalmente durante a infância e a adolescência.
PERÍODO CRÍTICO
Embora a escoliose possa surgir em qualquer fase da vida, a adolescência é considerada o período de maior risco para o aparecimento e a progressão da doença. A chamada escoliose idiopática do adolescente é a forma mais comum da condição, representando cerca de 80% dos casos diagnosticados.
Ela costuma se manifestar entre os 10 anos e os 16 anos, justamente durante o estirão de crescimento, quando o corpo passa por mudanças aceleradas. As meninas são as mais afetadas e apresentam maior risco de evolução da curvatura.
Dados citados pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) indicam que a escoliose idiopática do adolescente atinge entre 2% e 4% da população.
A boa notícia é que, quando identificada precocemente, grande parte dos casos pode ser estabilizada por meio de tratamentos conservadores específicos, evitando a necessidade de procedimentos cirúrgicos.
Daniely Rosa, fisioterapeuta - Foto: DivulgaçãoPara a fisioterapeuta Daniely Rosa, que atua há duas décadas nas áreas de postura, ortopedia e pilates, detectar a alteração nos estágios iniciais faz toda a diferença.
“Quando a alteração é identificada no início, é possível acompanhar a evolução da curvatura, orientar a família e indicar a melhor conduta para cada caso. Nem toda escoliose exige o mesmo tratamento, mas toda suspeita precisa ser avaliada”, afirma.
SINAIS
Um dos principais desafios relacionados à escoliose é justamente o fato de que ela pode evoluir sem causar dor. Por isso, pais, responsáveis e educadores desempenham papel fundamental na identificação dos primeiros sinais.
Entre os indícios mais comuns estão: ombros em alturas diferentes; cintura assimétrica; inclinação do tronco para um dos lados; escápulas em posições diferentes; costela mais saliente de um lado do corpo; quadris desalinhados; alterações no caimento das roupas; sensação frequente de cansaço muscular.
A fisioterapeuta Stéfany Vanin destaca que a ausência de desconforto não significa que a coluna esteja saudável.
“Em muitos casos, a escoliose começa de forma silenciosa. Por isso, os pais devem observar a postura no dia a dia, no caimento das roupas, na posição dos ombros e até na forma como a criança ou o adolescente se inclina. Pequenas assimetrias podem ser o primeiro sinal de que a coluna precisa ser avaliada”, explica.
Segundo especialistas, exames simples realizados por profissionais de saúde podem identificar alterações precocemente e indicar a necessidade de avaliações complementares.
DIAGNÓSTICO
Após a suspeita clínica, exames de imagem são utilizados para confirmar o diagnóstico e medir a gravidade da curvatura. O principal parâmetro utilizado pelos especialistas é o chamado ângulo de Cobb, que permite classificar a escoliose em diferentes níveis de severidade.
De forma geral, as curvaturas podem ser classificadas como leves, moderadas, graves ou muito graves. No entanto, a definição do tratamento não depende apenas desse número.
A idade do paciente, o estágio de crescimento, a presença de sintomas, o impacto na rotina diária e o risco de progressão da curva também são fatores considerados pelos profissionais de saúde.
“É preciso avaliar a idade, o potencial de crescimento, os sintomas, a limitação funcional, o impacto na rotina e o risco de progressão. Cada paciente precisa ser olhado de forma individual”, ressalta Daniely Rosa.
TRATAMENTO
Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, não existe um tratamento único para todos os pacientes com escoliose. A conduta é personalizada e depende das características de cada quadro.
Nos casos leves, o acompanhamento periódico e a realização de exercícios específicos costumam ser suficientes para monitorar a evolução da curvatura. Quando a escoliose apresenta risco de progressão, podem ser indicados programas de fisioterapia especializados.
Já os casos moderados podem exigir a combinação de exercícios terapêuticos com o uso de coletes ortopédicos, especialmente durante a fase de crescimento.
Em situações mais graves, quando há comprometimento importante da coluna ou risco para outras funções do organismo, a cirurgia pode ser considerada como alternativa.
Os especialistas reforçam que o objetivo principal do tratamento não é apenas corrigir a curvatura, mas preservar a funcionalidade, reduzir desconfortos e garantir melhor qualidade de vida ao paciente.

Maria Cristina Alcantara de Carvalho, Maria Helena Coutinho Pimentel e Maria Carmen Pitaluga Duailibi. Foto: Arquivo Pessoal
Adriana De Fazio. Foto: Arquivo Pessoal
"Tapete rosa" de folhas de ipê rosa na avenida Afonso Pena, em Campo Grande. Foto: Gerson Oliveira/arquivo
"Tapete rosa" de folhas de ipê rosa na avenida Afonso Pena, em Campo Grande. Foto: Gerson Oliveira/arquivo
Flores do ipê rosa. Foto: Marcelo Victor/arquivo

