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Gastronomia

Confira uma receita de espaguete à carbonara fácil de preparar

Não resista ao espaguete à carbonara fácil de preparar, muito saboroso e cheio de história, envolvendo os dois lados do Atlântico e sem perder a forte identidade da tradição italiana

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Veja se consegue resistir? Na receita básica de uma casa italiana respeitável, o espaguete à carbonara é um tipo de massa que leva pancetta (pode ser bacon para os menos radicais), queijo, gemas de ovos 
e pimenta. É um clássico servido em qualquer restaurante de culinária internacional e que também faz sucesso nos vídeos e nos programas das quituteiras que brilham na internet e nos canais de TV, como Rita Lobo e Paola Carosella.

Algumas versões levam creme de leite, mas essa parte já foi invenção, pois o carbonara original não tem molho branco nenhum. Antes de um mergulho na história do renomado prato, anote a recomendação dos especialistas: o segredo da receita é saber acertar o ponto da massa e do molho para garantir a cremosidade e a suculência que deve ter qualquer macarrão à carbonara.

A tradicional versão leva apenas alguns ingredientes. A água do cozimento – muitas vezes esquecida na hora do preparo – é que vai dar o ponto correto para o molho cremoso, que todo carbonara deve ter. Um pouco de bacon desfiado por cima do macarrão vai bem para a finalização do prato ou então uns chips de parmesão.

CARVÃO

Há quem diga que é um prato feito por quem trabalhava no preparo do carvão vegetal, produzido no alto Lácio italiano, região central do país.

Outros dizem que é um prato preparado pelos revolucionários carbonários, que existiam na Itália nos primeiros anos do século 19. Mais uma versão é a de que o nome deriva de carbonaro (pessoa que limpava as chaminés).

Um carbonaro, quando parou de trabalhar, abriu uma osteria em Roma e começou 
a servir um prato parecido com o da receita atual, chamando-o de carbonara em homenagem ao trabalho que exercia.

Utilizavam-se ingredientes que podiam ser conservados por um longo tempo fora da geladeira, além de um modo de fazer que pedisse somente uma panela para cozinhar a massa, já que o molho era servido frio sobre os spaghetti superquentes.

Ippolito Cavalcanti, nobre napolitano, no seu livro “La Cucina Teorico Pratica”, de 1837, fala de uma receita popular, a pasta cacio e uova, mas que não leva nem guanciale (algo próximo a um bacon produzido com as bochechas do porco) nem pancetta, sem falar que os ovos são muito cozidos.

Pois bem, a receita carbonara só teria nascido somente em 1944, quando os americanos estavam em Napoli. As tropas enchiam a cidade e os americanos, além de apreciarem as segnorine (moças), apreciavam também o cibo da strada (comida de rua) napolitano.

Foi no século 19 que fez surgir a figura do vendedor de spaghetti pelas ruas – primeiro exemplo de fast food italiano –, o restaurante dos pobres e dos trabalhadores. Com o fogão atrás de um balcão, 
o vendedor de spaghetti puxava a massa com um garfão e a colocava em um prato, acrescentava pecorino ralado e bastante pimenta do reino.

O cliente pegava os spaghetti com as mãos e os comia assim. O quadro clássico do célebre Totò (1898-1967) retrata essa época, em que a pasta é pega com as mãos e jogada na boca, conforme ressalta um portal dedicado à comida italiana. Isso significava abundância e alegria e mostrava a Napoli popular.

Certo dia, um americano pediu esse prato e o achou pouco proteico e muito rico para o seu gosto. Porém, em vez de jogar tudo fora, colocou no prato junto com a massa tudo o que ele achava que devia: ovos em pó, bacon e creme de leite. Experimentou e achou que não ficou ruim. Os napolitanos também, decidindo que podia ser uma boa ideia, mas acharam que era preciso combinar melhor os ingredientes.

OUTRA VERSÃO

Em novembro de 2005, na capa da revista Vie del Gusto, foi apresentada uma outra hipótese: “Polesine, a carbonara nasceu aqui há 107 anos!”.

Parece que em Fratta, na província de Rovigo (Veneto), um grupo de carbonari, durante os poucos momentos de tranquilidade que tinham, estavam acostumados a comer a carbonara na casa de uma nobre chamada Cecilia Monti.

Também na Osteria delle Tre Corone, havia algumas reuniões secretas dos carbonari. A revista publica a receita proposta naquela osteria, mas os romanos notam de imediato que a carbonara do norte leva menos ovos e creme de leite, além de menos quantidade de pasta do que a receita romana.

Contudo, a hipótese segundo a qual a origem do nome carbonara vem de carbone – carvão – acaba prevalecendo. Talvez até mesmo por guardar mais apelo para a alma italiana.

Outra versão da lenda diz que o método de cozimento da pasta era muito popular entre os carbonai romanos, ou seja, os homens que trabalhavam nos bosques carbonizando a madeira para produzir carvão. 

Mas essa história não é muito convincente. Primeiro porque não tinha muitos bosques em volta de Roma e, em segundo lugar, porque os carbonari produtores de carvão trabalhavam só em algumas épocas do ano e viviam longe de casa por vários meses, com pouco acesso a ovos frescos. Encontrar outros ingredientes também era uma dificuldade. 

Por isso, não se acredita que haja uma ligação entre eles, isto é, os carbonai e a carbonara.

Uma variação famosa romana e pouca difundida fora de Lazio foi elaborada para estômagos mais sensíveis e menos acostumados com o rude pecorino, com a pancetta e com a pimenta. Ou melhor, foi feita para os sumos sacerdotes do Vaticano, para os cardinais e, em primeiríssimo lugar, para o Papa.

A receita chamada de fettuccine alla Papalina é feita com presunto cozido (algumas vezes cru no lugar da pancetta), cebola, creme de leite e parmesão no lugar do pecorino.

EM INGLÊS

Outra variação dessa história é exclusivamente italiana/napolitana, ou seja, uma pessoa recebeu dos americanos certos ingredientes e tentou juntar tudo em um spaghetti cacio e pepe, mesmo sem saber o que tinha misturado, já que ele não sabia ler as etiquetas em inglês. E um milagre aconteceu: nasceu a carbonara.
Em 1946, já se começa a encontrar a pasta alla carbonara em algumas osterias do porto napolitano e nas regiões mais populares de Napoli. Essa hipótese foi tirada da “Grande Enciclopedia Della Gastronomia”, de Marco Guarnaschelli Gotti: quando Roma foi liberada da guerra, a penúria alimentar era enorme e um dos poucos recursos que se tinha eram as rações militares distribuídas pelas tropas aliadas.

Essas rações eram compostas por ovos (em pó) e bacon (pancetta defumada) que algum desconhecido teve 
a ideia de misturar e colocar na pasta. E é isso, então, que justifica o que os italianos chamam de heresia, ou seja, colocar o bacon no lugar da pancetta, o ovo cru colocado por último em alguns restaurantes romanos e o creme de leite usado também como ingrediente.

ESPAGUETE À CARBONARA

Ingredientes:
> 400g de espaguete 
(ou massa fresca);
> 4 gemas;
> 150g de pancetta (guanciale ou bacon não defumado) cortada em cubos pequenos;
> 50g de queijo pecorino ralado na hora;
> 100g de queijo parmesão ralado na hora;
> 1 colher de salsinha 
fresca bem picada;
> 2 colheres (sopa) 
de azeite extravirgem;
> 50g manteiga;
> 6 colheres (sopa) 
de vinho branco seco;
> Pimenta-do-reino moída 
na hora a gosto;
> Sal a gosto.

Modo de Preparo
Frite a pancetta (guanciale ou bacon não defumado) sem óleo. Após, tire do fogo e reserve. Na panela que você usou para fritar a pancetta, coloque o vinho e deixe o líquido evaporar. Dessa forma, você aproveitará o sabor que a pancetta deixou na panela. Misture as gemas, o queijo ralado, a salsinha e a pimenta-do-reino em um recipiente separado. Coloque a massa para cozinhar e verifique o tempo correto de cocção. Escorra a massa, ponha na panela da pancetta com fogo baixo e coloque a manteiga. Junte a pancetta aquecida. Desligue o fogo do macarrão. Coloque uma ou duas conchas de água fervente que anteriormente cozinhou o macarrão na mistura das gemas. Misture tudo na panela até incorporar.

Diálogo

Doze mil e duzentas autuações por descumprimento de horários, outras... Leia na coluna de hoje

Leia a coluna desta terça-feira (9)

09/06/2026 00h02

Diálogo

Diálogo Foto: Arquivo / Correio do Estado

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Davi Roballo - escritor brasileiro

"Quem quiser encontrar o sentido da vida, deve preparar-se para nunca o encontrar, pois ele tem mil faces e muda constantemente".

 

FELPUDA

Doze mil e duzentas autuações por descumprimento de horários, outras 3,4 mil por omissão de viagens e 197 ônibus circulando acima da idade permitida pelo contrato. Os números ajudam a explicar a crise enfrentada pelo Consórcio Guaicurus. Durante audiência pública, foram reforçadas as conclusões já apontadas pela CPI da Câmara. O relatório dos vereadores recomendou a substituição imediata dos veículos irregulares e até intervenção na empresa. Os levantamentos da comissão confirmaram falhas operacionais recorrentes e outros problemas.Mas nadica de nada foi feito!...

Ampliando

A Câmara dos Deputados aprovou projeto que amplia direitos de pessoas com diabetes tipo1, além de reforçar o acesso a medicamentos pelo SUS. O texto passou pelo Senado, sem alterações.

Mais

O enquadramento como pessoa deficiente irá dependerdos critérios do Estatuto da Pessoa com Deficiência. Concessão do Benefício de Prestação Continuada também exigirá avaliação. 

DiálogoFoto: Divulgação/Alems

O maior tatu do mundo poderá ganhar uma data especial em Mato Grosso do Sul. Tramita na Assembleia Legislativa projeto de lei que institui o Dia Estadual do Tatu-Canastra, a ser celebrado em 13 de agosto. A proposta busca fortalecer ações de preservação da espécie, considerada vulnerável devido à perda de habitat, incêndios florestais e degradação ambiental. O tatu-canastra pode atingir até 1,5 metro de comprimento, pesar cerca de 50 quilos. Ele tem hábitos noturnos, baixa população e reprodução lenta, fatores que aumentam seu risco de extinção. A data escolhida coincide com o Dia Internacional do Tatu e conta com respaldo técnico do Instituto de Conservação de Animais Silvestres. A proposta é do deputado Rinaldo Modesto.

Diálogo Geraldo Maiolino - Foto: Arquivo Pessoal 

 

DiálogoDra. Fabiane Parizotto - Foto: Arquivo Pessoal

Mexidão

Ainda repercute o vídeo de Fábio Trad, pré-candidato ao governo, no qual dispara críticas contra lideranças evangélicas e senadores alinhados ao bolsonarismo. Na defesa de Lula e da indicação (rejeitada) de Jorge Messias ao STF, misturou religião, política e até referências bíblicas. Sobrou para os parlamentares, chamados de "fariseus". Nem as Escrituras escaparam da sua artilharia verbal. Quando alhos, bugalhos e ideologia dividem o mesmo discurso...

Vitrine

A audiência pública promovida pelo deputado Pedro Kemp, em Corumbá, transformou-se numa vitrine de críticas ao projeto de concessão da Hidrovia do Rio Paraguai. Foi feito o alerta que dragagens permanentes e até explosões de formações rochosas podem alterar a dinâmica natural do rio. O receio é que o ciclo  de cheias e vazantes do Pantanal seja afetado diretamente. Para os participantes, falta transparência e sobram dúvidas. 

Questionando

Outro ponto que provocou reação foi o avanço dos investimentos antes mesmo da conclusão do licenciamento ambiental. Durante o debate, lembraram que bilhões de reais já foram destinados à estrutura logística ligada à hidrovia, enquanto estudos seguem em discussão. Também surgiram questionamentos sobre a baixa geração de empregos do modelo proposto e a ausência de representantes da sociedade civil nos órgãos de acompanhamento. Kemp defendeu mais estudos e pediu a suspensão da obra até que os impactos sejam esclarecidos. 

ANIVERSARIANTES 

Geraldo Palhano Maiolino;
Paulo Roberto Álvares Ferreira;
Rejane Amorim Monteiro Mishima;
Fabiana Martins Jallad;
Ludmila Guimarães de Almeida;
Aluízio de Albuquerque;
Nicolas Godoy;
Valentina Toshiko Nomura Oyadomari;
Adão Nerez Marques;
Ieda de Oliveira Freitas;
João Carlos Nocera;
Dra. Maristela Harume Ogatha;
Armando Eijo Oshiro;
Roger Azevedo Introvini;
Sergio Romero Bezerra Sampaio;
Sivalte Carvalho da Silva;
Ricardo Arguelho de Queiroz;
Raulindo dos Santos;
Roney Hudson Valentim Fagundes Moreira;
Nilza Batista Siqueira;
Emilio Chehade Ibrahim Elosta;
Dr. Waldemar Casuo Abe;
Eduardo Rafael Fregatto;
Ademir Dias;
Thais Alfonso Matos;
Lauro Takeshi Miyasato;
Manoel Barbosa;
Antonio Claudio Duarte Mendes;
João Batista da Silva;
Roberta Somensi;
Eulina Espíndola;
André Luiz de Souza Anzoategui;
Maria Rodrigues Correa;
Marcos Assunção de Freitas;
Henrique Pires de Freitas;
Marina Giacomini;
Regis Lamas de Morais;
Generoso Pereira de Arruda;
Elcy Figueiredo Nunes de Barros;
Paulo Batista;
Antonio Lucas Brito Lustosa;
Jair da Conceição;
Valeria Alves Leão;
Wilson Rosilho;
Dr. Claudio Vinicius Sorrilha;
Luiza Kanashiro;
Gilson Perrupato de Souza;
Joaquim Olegário Almeida;
Antonio Firmino Ferreira Melo;
Cícero Gomes Coimbra;
Jessé Duarte Passos;
Nilda Rodrigues Cubel;
Alexandra Vilalba Duarte;
Maria Tagliari;
Oldemar Sanches;
Erone Amaral Chaves;
Meire Takimoto;
Regina de Souza;
Jofeli Paes de Carvalho;
Márcia do Vale Fernandes;
Wanderley Barros de Almeida;
Noemia Barbosa Navas;
Dr. Patrick Costa Vieira;
Vera Rute Pereira;
Maria Antonia Oliveira de Souza;
Varlene Rodrigues da Silva;
Paulo Márcio Silveira;
Paolla Menezes Moreira;
Neide Furquim de Oliveira;
Fábio Portela Machinsky;
Ademar Trelha;
João Henrique Maia;
Helena Florípedes Assunção;
Mário Sérgio da Costa;
Dra. Luciana Ramires;
João Vieira de Almeida Neto;
Reynaldo Passanezi;
Cleide Aparecida de Souza Leão;
Mariana Bernardy;
Carlos Alberto Avalos Cabanha;
Suzy Margareth Guilherme Rosalino;
Silvio Bueno Pereira;
Neuzinete Aparecida Montalvão;
Elton de Campos Galindo;
Carla Roa de Medeiros Guimarães;
Aleixo Fernandes Brugeff;
Eduardo Humberto Fernandes Brugeff;
Paula Barcellos Rodrigues;
Dra. Cibelle Olarte Dittimar;
Dr. Lucio Rogério Costa de Paula;
Hélio Sacht;
Márcia Cristina Chita do Espirito Santo;
Luiz Aranha de Albuquerque Júnior;
Cleide Barbosa de Araujo Adania;
Eduardo Cação;
Daniel Hidalgo Dantas;
Karla Danielle de Albuquerque Arruda;
Wolney Sandim Borges;
Délcio Ruiz Barbosa;
Márcia Mariko Asano;
Eusa Helena Medina Yano;
Guilherme Kaiper Cruz de Faria;
Anapaula Souza Moreira Stagliano;
João Marcos Arruda Dassoler;
Mário Massahide Goto Junior;
Rosana Paradeira Satti Donega. 

Colaborou com Tatyane Gameiro

Lançamento literário

Suicídio indígena é tema do novo livro do poeta e teatrólogo Américo Calheiros

Obra do poeta e teatrólogo transforma em versos a dor provocada pelos altos índices de suicídio entre os povos originários e propõe reflexão sobre uma das mais graves questões sociais de Mato Grosso do Sul

08/06/2026 08h30

O título

O título "Suicígena" é um neologismo criado por Américo Calheiros que traduz a essência da obra Foto: RAQUEL DE SOUZA

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Amanhã será lançada uma obra que promete provocar reflexão e ampliar o debate sobre uma das mais delicadas questões sociais do Estado. O poeta, escritor e teatrólogo Américo Calheiros lança o livro “Suicígena”, publicação que reúne poemas inspirados na realidade enfrentada pelos povos indígenas de Mato Grosso do Sul, especialmente diante dos elevados índices de suicídio registrados entre essas populações.

O evento acontece a partir das 19h, na sede da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras (ASL), em Campo Grande, com entrada gratuita e aberta ao público.

Publicado pela Life Editora, o livro surge como um manifesto poético diante de uma realidade que há décadas desafia autoridades, pesquisadores, lideranças indígenas e organizações de direitos humanos.

A motivação para a criação da obra nasceu do impacto causado pelos números divulgados pelo Relatório de Violência contra os Povos Indígenas no Brasil, elaborado pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi).

Conforme os dados referentes a 2022, Mato Grosso do Sul registrou, em média, 24 casos de suicídio para cada 100 mil habitantes indígenas.

O índice é três vezes superior à taxa observada na população brasileira em geral, que no mesmo período foi de 8 casos a cada 100 mil habitantes, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública.

Foi diante dessa realidade que Américo Calheiros encontrou na poesia uma forma de expressar sua inquietação e contribuir para que a temática alcance novos espaços de discussão.

O próprio título do livro sintetiza essa proposta. “Suicígena” é um neologismo criado pelo autor a partir da fusão parcial das palavras “suicídio” e “indígena”, dando origem a um conceito que traduz a essência da obra.

“É a síntese perfeita do espírito do livro, cuja ideia surgiu sob a égide dos suicídios indígenas em Mato Grosso do Sul, à medida que fui tomando contato, pela imprensa, desse fato e também das precárias condições de vida dos indígenas, que são o imediato pano de fundo dessa situação e fator determinante para a perda da vontade de viver das populações indígenas”, resume o autor.

Embora o tema central seja o suicídio indígena, Calheiros explica que o livro também se debruça sobre elementos que envolvem a cultura, a identidade e a resistência dos povos originários. Segundo ele, trata-se da primeira vez que sua produção literária aborda diretamente essa temática, motivada pela necessidade de ampliar a conscientização da sociedade.

“Foco de preconceitos dos mais diversos, de assoladora discriminação, do desinteresse e da desconsideração dos poderes constituídos, a população indígena foi, no decorrer da história, alvo dos maiores genocídios, que quase a exterminaram. Movido pelo sentimento que tudo isso me provocou, recorri à manifestação poética para tocar mentes e corações alheios à essa questão”, afirma.

CONSCIENTIZAÇÃO

Em “Suicígena”, a poesia assume o papel de transformar estatísticas em experiências humanas, revelando as consequências do preconceito, da exclusão social e dos conflitos por terra que marcam a realidade de diversas comunidades indígenas em Mato Grosso do Sul.

O Estado concentra uma das maiores populações indígenas do País, reunindo povos como guarani, kaiowá, terena, kadiwéu, kinikinau, ofaié e atikum, entre outros.

Nas últimas décadas, a disputa por territórios tradicionais e as dificuldades relacionadas ao acesso à saúde, à educação, ao trabalho e à preservação cultural se tornaram fatores frequentemente apontados por especialistas como elementos que contribuem para o agravamento de doenças mentais.

A obra de Américo Calheiros não pretende oferecer respostas definitivas acerca desse problema, mas provocar reflexão e incentivar o diálogo sobre a necessidade de políticas públicas mais efetivas.

“A sociedade mundial tem uma dívida incomensurável com os povos originários. Claro que as vozes indígenas já estão dizendo o que precisam e o que querem, só precisam, efetivamente, ser ouvidas. Se a minha poesia contribuir, que seja um pouco, com essa causa, fico feliz”, detalha Calheiros.

A apresentação do livro ficou a cargo da escritora e ensaísta Ana Maria Bernadelli, integrante da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, que define a obra como um exercício de sensibilidade e compromisso social.

“A poesia contida na obra não busca o consolo fácil nem a metáfora ornamental. Ela é lâmina afiada e brasa sobre a pele da indiferença. O poeta Américo Calheiros, ciente da responsabilidade de sua voz, transforma em palavra o luto e a dor dos indígenas que, despojados de suas terras, de seus deuses e de sua dignidade, veem na morte seu último refúgio”, define.

O AUTOR

Professor e teatrólogo, Américo Calheiros é formado em Letras pela antiga Faculdade Dom Aquino de Filosofia, Ciências e Letras (FUCMT) e realizou especialização na Escola Martins Pena de Teatro, no Rio de Janeiro. Há décadas radicado em Campo Grande, dedicou 18 anos ao magistério em escolas de primeiro e segundo graus da Capital.

Sua atuação, entretanto, extrapola a sala de aula e a literatura. Ao longo da carreira, participou ativamente da formulação de políticas culturais e do fortalecimento das artes no Estado.

Entre suas contribuições está a coordenação da comissão executiva responsável pelos festejos do primeiro centenário de Campo Grande.

Também criou o Grupo Teatral Amador Campo-Grandense (Gutac), iniciativa que ajudou a implantar o teatro como ferramenta educativa na Rede Municipal de Ensino, despertando em inúmeros estudantes o interesse pelas artes cênicas.

Américo ainda presidiu a Fundação Municipal de Cultura, Esporte e Lazer de Campo Grande (Funcesp) e a Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul (FCMS), além de desenvolver diversos projetos culturais, entre eles, o programa Cesta Básica da Cultura, voltado à democratização do acesso às manifestações artísticas.

Sua produção literária reúne diferentes gêneros e temas, passando por poesia, contos e crônicas.

Entre os títulos publicados estão “Sem Versos”, “Memória de Jornal”, “Da Cor da Sua Pele”, “A Nuvem que Choveu”, “Poesia pra que Te Quero”, “Na Virada da Esquina” e “Campo Grande Aquarela de Luz – Patrimônio Vivo”.

O reconhecimento por sua contribuição à cultura sul-mato-grossense também veio por meio de homenagens institucionais.

Em setembro de 2010, recebeu da Assembleia Legislativa o título honorífico de cidadão sul-mato-grossense.

Em 2015, passou a integrar o Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul e, atualmente, ocupa a Cadeira nº 7 da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, anteriormente pertencente ao saudoso acadêmico padre Félix Zavattaro.

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