Correio B

GIBA UM

"Foi Bolsonaro que saneou estatais, não aceitou acordos políticos, levou água para o Nordeste"

[...] concluiu obras paradas, criou o Pix e salvou empresas. Dois anos e sete meses jogaram tudo na lata de lixo", de Tarcísio de Freitas, na Avenida Paulista, esperando apoio em 2026

Continue lendo...

Aos 95 anos, o ex-presidente da República, José Sarney, oficializou seu perfil no Instagram, rede social online de compartilhamento de fotos e vídeos entre seus usuários. O político maranhense e imortal da Academia Brasileira de Letras cogita oferecer debates e opiniões para reflexão de seus seguidores. E com bom humor.

Mais: recitará uma de suas poesias, “mesmo parecendo uma coisa que não combina muito”. Em seus tempos de poder, Sarney era um homem elegante, com seus paletós estilo ‘jaquetão’. Agora, apareceu com um outro,  3 botões, lapela mais estreita e – surpresa – uma colossal gravata colorida, com 11 centímetros de largura (século passado). 

Medo inusitado

A atriz Uma Thurmann está no filme Old Guard 2, que marca a sua volta a um filme de ação e luta. Em entrevista ela confessou que apesar de não estar presa a nenhum gênero de filme, por ter tido um bom retorno no filme Kill Bill, não pensava em voltar ao estilo, mas que se rendeu a solicitação, em parte por conta da atuação de Charlize Theron. E confessou que não teve a preparação de luta, mas que contou com uma equipe maravilhosa de dubles.

“A personagem que interpreto está tendo mais influência na narrativa do que seu tempo de tela sugere. Se a história continuar, veremos mais sobre como ela é. Gosto de interpretar personagens complicadas. Ela foi a primeira escolhida para alguma coisa e certamente desistiu da raça humana. Ainda não foi totalmente explorado, mas essa sensação de futilidade é mais forte nela do que nas outras”.  Mais em  entrevista ao The Tonight Show com Jimmy Fallon ela revelou um medo “inusitado que tem” mas que precisa superá-lo para risca-lo da lista.

Seu medo é fazer cenas comendo: “Você sabia que comer na frente de estranhos é uma das questões do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais? Você sabe o que é o DSM? É como uma daquelas verificações que os psiquiatras fazem para descobrir quais são as suas neuroses". E completou “Em primeiro lugar, você tem que fazer muitas tomadas. Em segundo lugar, você não escolhe o que está no cardápio e às vezes tem que falar e engolir, e então começa a se preocupar em engasgar porque não quer mastigar ao dizer essa frase. Nunca fiz uma boa cena em que como. Preciso riscar isso da minha lista de desejos”. 

“Gilmarpalooza”: farra do poder

Começa hoje e termina no próximo dia 4 o Fórum Jurídico de Lisboa, realizado em Lisboa, que chega a sua 13ª edição e conhecido como “Gilmarpalooza”, apelido que une o nome do festival “Lollapalooza” ao nome do ministro do STF, Gilmar Mendes, que é quem promove o evento. O tema deste ano é “O mundo em transformação – Direito, Democracia e Sustentabilidade na Era Inteligente”.

Por conta das ‘férias’ no Congresso, o fórum contará com a presença de um festival de autoridades, muitas com processos enrolados no Supremo. Alguns farão minipalestras, outro aproveitarão os ares de Portugal. Muitos terão suas despesas pagas pela organização, outros usarão o dinheiro do contribuinte. Ninguém colocará a mão no bolso.

Entre tantos, estarão lá Hugo Motta, Tabata Amaral, Orlando Silva, Arthur Lira, Flávio Dono, Alexandre de Moraes, Ciro Nogueira, Rodrigo Pacheco, Luís Roberto Barroso, André Mendonça, Alexandre Silveira, Camilo Santana, Jader Filho, Jorge Messias, Ricardo Lewandowski, Claudio Castro, Tarcísio de Freitas, Mauro Mendes, Helder Barbalho, Ronaldo Caiado, Eduardo Leite, Rafael Fonteles, Paulo Gonet e Andrei Rodrigues. O leitor poderá se divertir jogando um “quem é quem” acertando os cargos dos participantes. 

“Impopular no Brasil”

A revista ‘The Economist’ publicou dura análise do movimento político vivido por Lula tanto no cenário internacional quando no Brasil onde é “impopular”. Lembra que o Brasil é a maior economia cujo chefe de Estado não teve reunião até agora com Donald Trump

. A publicação acha que Bolsonaro deverá ser preso em breve por supostamente planejar um golpe e, caso o ex-presidente consiga indicar um sucessor, “a direita terá caminho aberto para retornar ao poder”. E decreta: “O Brasil simplesmente não importa quando se trata de Ucrânia o Oriente Médio”.

Subindo a temperatura

Se preparando para um novo personagem na novela “Três Graças”, (que substituirá Vale Tudo) sua terceira novela e a terceira em horário nobre Alanis Guillen fez a temperatura da internet subir ao postar uma foto onde aparece de topless sem dar muitos detalhe sobre a foto que foi publicada com outras fotos e vídeos aleatorios.

Mais: recentemente Alanis, que foi super aplaudida por sua atuação como Juma, no remake de Pantanal assumiu seu namoro com a produtora Giovanna Reis, com quem está junto há 4 anos. Alanis não gosta de definir ou rotular sua opção como lésbica, bissexual, panssexual ou qualquer outra definição. “Eu me interesso pela troca, pelos diálogos. Eu me relaciono com pessoas com quem me conecto e fazem sentido. O bom que podemos amar de diversas formas”.

Marina ajudou

O ex-presidente da Câmara, Aldo Rebelo, vê a situação da ministra Marina Silva como um dos motivos de perda de apoio do governo Lula no Congresso, especialmente no Senado. O presidente da Casa Davi Alcolumbre, é do Amapá, um dos estados que mais perdem com o boicote do Ibama à exploração de reservas estimadas em 11 bilhões de barris de petróleo na Margem equatorial. O próprio Lula já reclamou do “lenga-lenga” para a autorização da pesquisa, mas não fez nada. Senadores reclamaram com Lula, mas não adiantou nada.

Rejeição complica

A relação do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB) azedou antes da votação que aprovou a derrubada do aumento do IOF, há dias. Para Motta, o ministro andou falando mal e quer empurrar para os parlamentares o desgaste com o IOF.

Para deputados, o presidente da Câmara diz que nem mesmo deu os 10 dias para que a Fazenda aparecesse com alternativa ao aumento do IOF, que “isso é coisa da cabeça de Haddad”. Deputados dizem que Haddad está para Hugo Motta, assim como Alexandre Padilha estava com Arthur Lira. Para piorar, Haddad é entusiasta da ideia de levar ao STF a crise do IOF.

Pérola

“Foi Bolsonaro que saneou estatais, não aceitou acordos políticos, levou água para o Nordeste, concluiu obras paradas, criou o Pix e salvou empresas. Dois anos e sete meses jogaram tudo na lata de lixo”, 
de Tarcísio de Freitas, na Avenida Paulista, esperando apoio em 2026.

Olho nas redes

A Advocacia-Geral da União celebrou decisão do STF que formou a maioria na votação que visa regulamentar as redes sociais, responsabilizando as big techs pelos conteúdos com teor criminoso e inapropriado de seus usuários. Jorge Messias, advogado-geral do governo Lula, disse que o deferido “coloca o país em sintonia com outros países democráticos”.

E acentuou ser “um verdadeiro marco civilizatório”. À propósito: sem seu voto, a ministra Carmem Lúcia afirmou que a censura é proibida, mas que “não se pode, também permitir que nós estejamos numa praça pública em que haja 213 milhões de pequenos tiranos soberanos” – a repercussão foi colossal. 

Fora do orçamento

Parou no Tribunal de Contas da União a cobrança de auditoria no Fundo de Desenvolvimento Industrial e Tecnológico, relacionado ao Ministério da Indústria, comandado pelo vice-presidente Geraldo Alckmin. O fundo que movimenta enorme volume de dinheiro, recolheu cerca de R$ 11 milhões só em fevereiro e março, diz o BNDES, que gera o fundo.

Provocada pela deputada Carol de Toni (PL-SC), o Ministério admitiu: a execução dos recursos do fundo não realizada via orçamento público. A parlamentar, que cobrou auditoria, não deixou por menos: “É a confissão escancarada da farra fiscal”.

“Para de me cantar”

Jair Bolsonaro ironizou o presidente Lula, depois de Lula citar o ex-presidente. “Lula, pare de me cantar todos os dias. Nada do que você tem a oferecer me interessa”. Depois, suas críticas seguiram com a sugestão de que o presidente pudesse estar senil: “Qualquer ser humano de bom senso desconfia de sua saúde mental”.  

E encerrou, citando indiretamente até a primeira-dama Janja da Silva: “Nem sua parceira deve aguentar mais meu nome em sua boca”. Aconselhado pela própria Janja, o presidente petista resolveu não retrucar.

Usurpação de competência

Provoca reações que variam da indignação à ironia a ação direta da inconstitucionalidade contra a decisão do Congresso que jogou na cesta do lixo o decreto de Lula aumentando o IOF. Há quem diga que, pelo menos, os brasileiros “terão diversão garantida” com os ministros do STF (alguns fora do país), deliberando sobre “usurpação de competência”. A alegação governista é a mesma dos críticos do Supremo, acusado de atropelar prerrogativas exclusivas de outros poderes. 

Carregando energias

A primeira-dama Janja da Silva publicou no Instagram um vídeo, deitada na grama ao lado do presidente Lula numa foto. Ao lado, outra foto aparecia um beija-flor num ipê rosa. O casal observava os pássaros nos jardins do Palácio da Alvorada, residência oficial da Presidência. Na legenda, Janja escreveu que o chefe do Executivo carregava as energias “para seguir cuidando do Brasil”.

O vídeo publicado pela primeira-dama (agora em fase mais comportada, depois de aparecer numa festa junina dançando um xaxado com o maridão, os dois com chapéus de palha) tem como trilha sonora a canção “Ai, que saudade d’ocê”.

Picanha mais cara

Novo levantamento do Paraná Pesquisas (o instituto é criativo) revela que as compras do supermercado ficaram mais caras com a volta de Lula ao poder: 71% dizem que os preços aumentaram. Só 9,4% avaliam que os preços diminuíram e para 17,2% os valores ficaram como estavam.

Mais: para 50% dos entrevistados, a picanha ficou mais cara no governo Lula e 17,9% dizem que ficou mais barata. O instituto também perguntou se até o final do governo Lula as pessoas terão maior facilidade para comprar picanha e cerveja. Para 67,1% a resposta é não. Outros 26,3% acham que sim.

Mistura Fina

  • Enquanto os roubos de aposentados e pensionistas não sinalizam qualquer ação de devolução dos valores surrupiados, o INSS realizará uma revisão extensiva de benefícios por incapacidade permanente em 2025. Esta revisão, apelidada de “pente fino” tem como alvo 802 mil beneficiários que não passaram por perícias nos últimos dois anos. A medida visa garantir a correta aplicação de recursos públicos evitando pagamentos inadequados.
  • O governo pretende mobilizar o que restou de apoio na Câmara para tentar barrar o projeto que libera a concessão simultânea de salário e aposentadoria aos parlamentares. A tendência é de nova derrota do governo. O projeto é de Hugo Motta e a equipe econômica alega “estar com a faca no pescoço para cortar gastos”. Haddad chama o projeto de “inoportuno”. Para os parlamentares é um presente e tanto. Além de turbinar vencimentos cria até uma espécie de 13º para os aposentados. 
  • Pequeno grupo de piedosos deputados que participaram da derrubada do decreto do IOF e que ficaram penalizados com Fernando Haddad (Fazenda) trataram de lhe dizer que o episódio não era sua culpa, mas sim obra “de um trio que se orgulha e não cumprir acordos do governo”. E enumeraram: Rui Costa (o que não chega se novidade), Miriam Belchior, veterana que já participou de outro governo e Esther Dweck, ministra da Gestão e Inovação.
  • A derrota de Lula e Fernando Haddad no episódio do IOF, também marcou mais uma derrota para Gleisi Hoffmann, que completa quatro meses no Ministério das Relações Institucionais, responsável pela “articulação política” de Lula. Da posse em fevereiro até agora só derrotas: anistia de 8 de janeiro, Dia da Amizade Brasil-Israel, CPMI do INSS, 11 vetos de Lula em sessão conjunta Câmara Senado, mais decreto do IOF por 383 votos contra 98. 
  • Enquanto conversa com a Record, Boninho já acertou com o SBT que o próximo ‘The Voice Brasil’ será exibido nas noites de segunda-feira, logo após o ‘Programa do Ratinho’, ou seja, depois de 23h30. Tiago Leifert, que apresentou temporadas da atração na Globo, foi escolhido novamente para comandar o programa. Sua proximidade com o departamento de esportes teria facilitado o acordo. E Lulu Santos também está praticamente acertado para participar do júri.

In – Contra olheiras: luz intensa pulsada
Out – Contra olheiras: carboxiterapia

Feira literária

Pedro Bial reúne maior público da história do Palco Literário da FLIB

Jornalista e escritor lançou obra sobre a ex-jogadora Isabel Salgado e defendeu a leitura como espaço de encontro em tempos de excesso de informação

13/07/2026 12h00

Pedro Bial

Pedro Bial Mariana Piell

Continue Lendo...

Em uma época marcada pela velocidade das redes sociais e pelo consumo fragmentado de informação, Pedro Bial encontrou na 10ª Feira Literária de Bonito (FLIB) um cenário que considera cada vez mais raro: centenas de pessoas reunidas para conversar sobre livros.

Convidado do Palco Literário da feira, o jornalista, apresentador e escritor lançou "Isabel do vôlei da vida: A onda mais alta de Ipanema", biografia da ex-jogadora de vôlei Isabel Salgado, em um bate-papo mediado pela jornalista e escritora Cláudia Gaigher. O encontro reuniu mais de 200 pessoas na Praça da Liberdade, estabelecendo o maior público já registrado em uma conversa literária da FLIB.

Antes de subir ao palco, durante entrevista coletiva à imprensa, Bial explicou que participar de uma feira literária significa encontrar um público diferente daquele que costuma acompanhá-lo na televisão.

"É um público sempre com quem a gente vai falar com muita alegria", afirmou.

Segundo ele, quem frequenta uma feira de livros já chega disposto ao diálogo, movido pela curiosidade e pelo desejo de compartilhar experiências de leitura.

"Quando alguém se dispõe a vir conversar comigo numa feira literária, eu sei que é um público que já está a fim de uma conversa boa, que já chega com boa vontade. Isso é um tremendo estímulo e incentivo para conversar", destacou.

Livro como tecnologia

Ao refletir sobre o papel da literatura na sociedade contemporânea, Bial definiu o livro de uma maneira pouco convencional: como uma das tecnologias mais bem-sucedidas já criadas.

"Somos poucos nós, leitores, nós que curtimos esse objeto, essa tecnologia tão espetacular que é o livro", defendeu.

Para o escritor, apesar das transformações provocadas pelo ambiente digital, poucas invenções conseguiram atravessar tantos séculos mantendo a capacidade de preservar histórias, transmitir conhecimento e aproximar pessoas.

Essa permanência ficou evidente na própria FLIB. Em meio à programação da feira, leitores de diferentes idades lotaram o espaço para ouvir o autor, fazer perguntas e, ao final, enfrentar uma longa fila para conseguir um autógrafo.

Paradoxo literário

Bial também refletiu sobre um paradoxo brasileiro. Embora pesquisas indiquem queda nos índices de leitura, feiras literárias continuam atraindo milhares de visitantes em diferentes regiões do país.

"Você tem uma maioria absoluta, segundo todas as pesquisas, de brasileiros que não leem. No entanto, você faz feiras literárias como essa de Bonito e enche de gente. Então fica a pergunta: que país é esse? É aquele que não lê ou é aquele que lota feiras de literatura?", indagou.

Na avaliação do jornalista, a internet ocupa hoje uma parte significativa do tempo das pessoas, mas isso não significa necessariamente o desaparecimento da leitura.

"O tempo dedicado à internet e às redes sociais também é um tempo de leitura. Verdade que hoje há muitos vídeos, mas ainda se lê muito e se escreve muito", afirmou.

Ainda assim, ele acredita que leitores e escritores formarão um grupo cada vez mais específico dentro da sociedade.

"Nós, leitores e escritores, somos um nicho. Acho que devemos nos organizar para afirmar nossa identidade. Se somos poucos, seremos poucos, mas seremos", defendeu.

Eterno debate interno

Ao responder sobre a convivência entre o jornalista e o escritor que existem em sua trajetória, Bial descreveu uma relação marcada por conflitos constantes.

Segundo ele, o escritor busca profundidade, liberdade criativa e interpretação artística do mundo, enquanto o jornalista exige clareza, objetividade e compromisso com os fatos.

"O escritor briga com o jornalista", afirmou.

Na sequência, explicou que essa tensão acaba funcionando como um equilíbrio permanente.

"O jornalista humilha o ego do escritor e pergunta: 'Mas qual é a notícia? Do que você está falando?'. Aí o escritor responde lembrando que jornalista também é muito vaidoso, se acha poderoso", concluiu.

Para Bial, esse diálogo interno acompanha toda sua produção, seja nos livros, nos documentários, nas entrevistas ou nos programas de televisão.

O tempo 

Questionado sobre a passagem do tempo, tema recorrente em seus textos, Bial preferiu destacar aquilo que os anos lhe trouxeram, em vez das perdas inevitáveis.

"Eu acho que o tempo me deu muito mais do que me tirou", disse.

Ele reconheceu sentir falta da juventude, da vitalidade física e de amigos que já partiram, mas afirmou que a experiência adquirida ao longo da vida pesa mais na balança.

"O que eu ganho tendo vivido mais é, sem dúvida, mais presente na minha cabeça do que aquilo que eu não tenho mais", pontuou.

Protagonismo feminino

A obra lançada em Bonito homenageia Isabel Salgado, um dos maiores nomes da história do voleibol brasileiro e referência na luta pela emancipação feminina.

Segundo Bial, Isabel sempre esteve à frente de seu tempo.

"Ela, durante toda a vida, não fez outra coisa senão lutar pela afirmação da força da mulher", afirmou.

O autor destacou ainda a influência da família na formação da atleta, especialmente da mãe e da avó, mulheres que já rompiam padrões muito antes das transformações sociais mais recentes.
 

Tempos modernos

Artista propõe diálogo entre a arte e a inteligência artificial

Primeira exposição individual do artista visual Renan Reis em Campo Grande reúne obras em diferentes linguagens artísticas, produzidas ao longo de mais de uma década

13/07/2026 08h30

Renan Reis trabalha a subjetividade em suas obras, deixando muitas delas abertas à interpretação do público

Renan Reis trabalha a subjetividade em suas obras, deixando muitas delas abertas à interpretação do público Divulgação

Continue Lendo...

A Casa de Cultura recebe até o dia 21 de agosto a exposição “Cartografias do Atravessamento”, primeira mostra individual do artista visual Renan Reis realizada na Capital.

Reunindo trabalhos produzidos ao longo de mais de 10 anos de pesquisa, a exposição apresenta um panorama da trajetória do artista por meio de diferentes linguagens e suportes, propondo ao visitante uma experiência que atravessa memória, território, espiritualidade, tecnologia e relações humanas.

A exposição funciona como um inventário afetivo da produção de Renan Reis, revelando como suas investigações foram se transformando ao longo do tempo.

Em vez de seguir uma linha cronológica, o percurso evidencia encontros, rupturas e sobreposições entre técnicas, materiais e conceitos, fazendo da própria galeria um espaço de travessia.

Artista visual, curador, educador e arteterapeuta, Renan construiu uma trajetória marcada pela experimentação. Em suas obras, convivem desenho, pintura, bordado, colagem, escultura, instalação e impressão digital.

O resultado é uma produção que coloca em diálogo o artesanal e o tecnológico, o íntimo e o coletivo, o corpo e a memória.

CONTRASTES

O ponto de partida da exposição remonta ao projeto Galáctica, criado em 2013 durante sua formação em Artes Visuais na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).

Na época, Renan desenvolveu um universo visual marcado por grafismos de inspiração pop e referências cósmicas, linguagem que permanece presente em parte de sua produção.

Anos depois, em 2019, um novo elemento passou a ocupar lugar central em sua pesquisa: o bordado. O contato com a prática manual abriu caminhos para investigações sobre tempo, cuidado, memória e afeto, incorporando novas texturas às obras.

Esses dois universos – o gráfico e o têxtil – se encontraram em 2021 na série “Afloramento”, um dos núcleos da exposição. Formado por polípticos em formato A3, o conjunto reúne desenho, pintura, bordado e colagem para construir autorretratos simbólicos, onde o coração aparece como elemento recorrente.

A série nasceu a partir de reflexões inspiradas nas ideias do psiquiatra Carl Gustav Jung sobre os chamados “lugares do divino”, entendidos como manifestações profundas da alma humana.

Em vez de representar uma religiosidade institucional, as obras procuram despertar a percepção da divindade presente em cada indivíduo.

EXPERIMENTAÇÃO

Logo na primeira sala da exposição, o visitante encontra um diálogo entre dois extremos aparentemente opostos.

De um lado está “Galáctica Oráculo”, trabalho composto por imagens geradas por inteligência artificial (IA).

Para produzi-las, o artista utilizou prompts capazes de simular as pinturas desenvolvidas por ele ainda em 2013. O experimento não pretende substituir a criação artística, mas refletir sobre as novas relações estabelecidas entre os seres humanos e a tecnologia.

Ao tratar a IA como uma espécie de oráculo contemporâneo, Renan propõe uma discussão sobre como esses sistemas vêm influenciando decisões, interpretações e processos criativos na sociedade atual.

Em contraste direto, surge “Os Rios que Atravessam Meu Coração”, uma colcha de retalhos que valoriza o trabalho manual, a memória compartilhada e a construção coletiva.

Enquanto uma obra nasce de algoritmos, a outra evidencia o tempo, a costura e os gestos humanos, estabelecendo uma tensão que passa por toda a exposição.

OBRA PARTICIPATIVA

No centro da primeira sala está uma das obras mais interativas da mostra: a instalação “Alógeno – Peça (me ensine algo)”.

A obra faz referência direta à performance “Alógeno”, realizada por Renan em 2017, quando investigou sensações de isolamento, imobilidade e aprisionamento utilizando papel filme e fita adesiva envolvendo o seu corpo.

Agora, esses mesmos materiais reaparecem em uma instalação formada por um grande coração confeccionado com plástico bolha e fita adesiva.

A proposta rompe a distância tradicional entre obra e espectador. Cada visitante é convidado a revestir o coração utilizando fita crepe vermelha, tornando-se parte da criação.

A ação transforma a instalação continuamente e reforça a ideia central da exposição: ninguém atravessa a vida sozinho. O contato com o outro modifica pessoas, memórias e afetos, tornando inevitável o processo de transformação coletiva.

COTIDIANO SAGRADO

Na segunda sala, a atmosfera muda completamente. O ambiente convida ao silêncio e à contemplação, reforçando a dimensão espiritual presente na pesquisa do artista.

O destaque fica por conta da série “Cabeça Coração”, composta por grandes ilustrações impressas sobre veludo.

As imagens remetem aos tradicionais azulejos portugueses e dialogam com as pesquisas desenvolvidas pela artista Adriana Varejão. Entretanto, Renan promove uma inversão simbólica ao substituir a superfície fria da cerâmica pela textura macia do veludo.

Essa escolha altera completamente a percepção da obra. O que antes evocava rigidez se torna acolhimento; o que remetia à arquitetura transforma-se em organismo vivo.

No mesmo espaço encontra-se a série “Origem”, em que o coração aparece sob diferentes perspectivas e significados.

Para o crítico de arte Oscar D’Ambrosio, as obras de Renan funcionam como verdadeiros altares contemporâneos.

Segundo ele, os trabalhos criam espaços em que o sagrado se manifesta não por meio de uma divindade distante, mas por meio da beleza, da experiência cotidiana e da possibilidade de comunhão entre as pessoas.

O crítico define ainda a série como um “útero de ideias”, capaz de oferecer múltiplas interpretações conforme o olhar de cada visitante.

INTERPRETAÇÃO ABERTA

A etapa final da exposição apresenta as aquarelas da série “Sete Chaves”, formadas por corações ciclopes, além de uma pequena escultura em madeira com apenas 15 centímetros de altura.

Na peça, uma cabeça em formato de ampulheta provoca reflexões sobre tempo, desejo, segredo e limites morais.

Ao longo de toda a exposição, Renan evita oferecer respostas prontas. Muitas obras permanecem abertas, deixando espaços vazios entre imagens, símbolos e narrativas para que cada visitante complete a experiência a partir de suas memórias, emoções e referências.

Essa opção transforma a mostra em um percurso profundamente subjetivo, em que o significado não está apenas nas obras, mas também na forma como cada pessoa se relaciona com elas.

Renan Reis trabalha a subjetividade em suas obras, deixando muitas delas abertas à interpretação do públicoRenan Reis trabalha a subjetividade em suas obras, deixando muitas delas abertas à interpretação do público - Foto: Divulgação

SOBRE O ARTISTA

Nascido em 1991, Renan Reis é graduado em Artes Visuais pela UFMS e especialista em Arteterapia Analítica.

Além da atuação como artista, desenvolve trabalhos como curador, educador e gestor cultural. Atualmente ocupa o cargo de gerente de Políticas Públicas e Fomento Cultural da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul (FCMS), onde é autor do Manual Técnico de Museografia e Mediação Cultural, documento adotado como referência pelas instituições museológicas do Estado.

Também é coautor do livro “Entre Materialidades e Afetos”, publicação que reúne pesquisas sobre o uso dos materiais artísticos na construção da subjetividade.

Sua produção artística acompanha essa trajetória multidisciplinar, transitando entre diferentes técnicas – do desenho digital ao bordado, da madeira ao veludo – sempre investigando o afeto como instrumento de transformação, cura e posicionamento político.

>> Serviço

Exposição: “Cartografias do Atravessamento”, de Renan Reis
Período de visitação: até o dia 21 de agosto;
Local: Casa de Cultura, na Avenida Afonso Pena, nº 2.270, Centro, Campo Grande;
Funcionamento: segunda-feira a sexta-feira, das 9h às 18h; sábados, das 9h às 12h.

NEWSLETTER

Fique sempre bem informado com as notícias mais importantes do MS, do Brasil e do mundo.

Fique Ligado

Para evitar que a nossa resposta seja recebida como SPAM, adicione endereço de

e-mail [email protected] na lista de remetentes confiáveis do seu e-mail (whitelist).