Política

JULGAMENTO

Juristas dizem que é quase nula a chance de reverter a condenação de Bolsonaro

Com os votos dos ministros Cármen Lúcia e Cristiano Zanin, a 1ª Turma do STF condenou o ex-presidente da República

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Com os votos de ontem dos ministros Cármen Lúcia e Cristiano Zanin, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) condenou, por 4 a 1, o ex-presidente da República Jair Messias Bolsonaro (PL) e os outros sete réus do núcleo crucial da trama golpista, por todos os cinco crimes imputados a eles na denúncia da Procuradoria Geral da República (PGR).

São eles Walter Braga Netto (ex-ministro da Defesa e Casa Civil), Augusto Heleno (ex-ministro do GSI), Alexandre Ramagem (deputado federal e ex-diretor da Abin), Anderson Torres (ex-ministro da Justiça), Paulo Sérgio Nogueira (ex-ministro da Defesa), Almir Garnier (ex-comandante da Marinha) e Mauro Cid (ex-ajudante de ordens de Bolsonaro).

Diante disso, o Correio do Estado procurou os renomados juristas sul-mato-grossenses André Borges e Benedicto Arthur de Figueiredo Neto para analisar o que acontece agora com Bolsonaro e seus aliados sobre futuros recursos, penas e prisão dos culpados.

O advogado André Borges explicou à reportagem que cabe apenas um recurso chamado embargos de declaração, porém, tal apelação não muda a decisão. “Esse tipo de recurso, em geral, não reverte uma condenação, é voltado para esclarecer contradições ou imprecisões nos votos”, detalhou.

Depois disso, conforme o jurista, Bolsonaro e os demais réus serão presos. “Aí surgirá a discussão sobre o local em que será recolhido um ex-presidente. A saúde dele pode recomendar prisão domiciliar”, ponderou.

Caso Bolsonaro seja preso, no entendimento dele, cabe ao STF determinar o local de cumprimento da pena. “Por ser ex-presidente, ele pode ser destinado a uma sala na Superintendência da Polícia Federal em Brasília, a um batalhão da Polícia Militar ou a uma unidade das Forças Armadas”, detalhou.

Entretanto, de acordo com o advogado, “assim como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não teve um julgamento justo, tanto que foi anulado, Bolsonaro – que andou aprontando bastante durante a pandemia da Covid-19 – também não teve”.

Para André Borges, o ex-presidente da República “não deveria ter sido julgado pelo STF, mas em primeiro grau do Judiciário, além de outros problemas, revelados no voto do ministro Luiz Fux”.

O voto do ministro Luiz Fux pela absolvição de Bolsonaro por todos os crimes imputados na denúncia só poderia ser usado para recorrer da sentença condenatória caso outro integrante da Primeira Turma o acompanhasse, o que não aconteceu.

Por isso, a decisão de Fux de absolver réus integralmente, como nos casos de Bolsonaro e do almirante Almir Garnier, ou parcialmente, como o ex-ajudante de ordens Mauro Cid e Walter Braga Netto, tampouco altera o tamanho das penas às quais eles foram submetidos na condenação.

André Borges explicou que os embargos infringentes, principal cartada vislumbrada pelas defesas, só seriam permitidos em caso de dois votos pela absolvição. 

“Esse tipo de recurso levaria a análise do caso para o plenário do STF, composto por 11 ministros, mas apenas em relação aos crimes e aos réus sobre os quais houve divergência na Primeira Turma”, detalhou.

IMPARCIALIDADE

Já Benedicto de Figueiredo Neto explicou que a “abertura de divergência do voto do ministro Luiz Fux significa muito para a democracia, isto porque ele é muito claro em dizer que um julgamento dessa magnitude, deveria ser julgado pelo plenário do Supremo e nunca por uma turma”.

“De fato, uma situação dessas em que se discute internacionalmente a imparcialidade do relator, em que é ponderado pelo ministro Fux que houve bilhões de dados de aparelhos telefônicos para ser analisados, e que a defesa técnica se viu totalmente impotente diante do tempo exíguo para analisar, seria desumano para qualquer operador do direito, seja julgador, acusador ou defesa para se fazer uma análise mais acurada das provas”, declarou.

O jurista acrescentou que a mensagem que o ministro Luiz Fux deu à democracia é que Justiça é feita caso a caso e não a toque de caixa. “Ainda mais em um julgamento desse quilate, que o comparou com o julgamento do mensalão, em que foram resguardados todos os direitos dos réus e das defesas técnicas”, afirmou.

*SAIBA

A Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu condenar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) a 27 anos e 3 meses no julgamento da trama golpista. Desses 27 anos e 3 meses, 24 anos e 9 meses são de reclusão (ou seja, pena para crimes que preveem regime fechado), e 2 anos e 9 meses são de detenção (pena para crimes de regime semiaberto ou aberto).

Como a pena total é superior a 8 anos, Bolsonaro terá que começar a cumpri-la em regime fechado. Mesmo depois disso, os advogados podem apresentar recursos, que precisam ser analisados pelo STF antes do cumprimento das penas. Ou seja, mesmo com a condenação, a prisão não é imediata: a pena só passa a valer quando o processo estiver concluído e não houver mais possibilidade de recurso.

Por ordem do ministro Alexandre de Moraes, Bolsonaro está atualmente em prisão domiciliar. Ou seja, proibido de sair de casa, além de estar sendo monitorado por tornozeleira eletrônica e por policiais dentro de seu condomínio, em Brasília (DF). Moraes viu risco de fuga do ex-presidente.

Declaração

'Narrativa política não pode gerar desinformação', diz Nunes Marques às vésperas do 2º turno

Ministro ressaltou, ainda, que a difusão de informações falsas no período eleitoral pode ser danosa ao regime democrático

19/10/2026 22h00

Ministro Kassio Nunes Marques

Ministro Kassio Nunes Marques Foto: Divulgação / X

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A seis dias do segundo turno, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques, cobrou responsabilidade de "agentes do sistema eleitoral" - ou seja, instituições, candidatos, políticos, juízes e cidadãos. "Narrativa política não pode gerar desinformação", alertou o ministro.

Nunes Marques ressaltou, ainda, que a difusão de informações falsas no período eleitoral pode ser danosa ao regime democrático. E que a Justiça Eleitoral seguirá disponibilizando informações confiáveis aos brasileiros.

"|A Justiça Eleitoral trabalha, de forma transparente, visando sempre à informação de qualidade ao eleitor. Esse trabalho não pode ser capturado pela narrativa política. A desinformação pode gerar danos irreparáveis à democracia. Os agentes do sistema eleitoral, em todas as suas esferas, precisam ter responsabilidade", disse ao Estadão.

O ministro deu a declaração no dia seguinte ao debate da Band, em que Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro trocaram acusações e destrincharam dados relativos à administração pública e a investigações criminais. O Estadão Verifica checou as afirmações dos dois candidatos.

A conclusão é que a maioria das declarações de Flávio que foram alvo da checagem era descontextualizada, enganosa ou falsa. Na comparação com o concorrente, Lula disse mais verdades, mas também falou frases enganosas, exageradas ou imprecisas. Os dois concorrentes voltarão a se enfrentar na Globo, em debate agendado para sexta-feira, 23.

O apelo de Nunes Marques chega em um momento de ataques ao TSE devido a mudanças em locais de votações em todo o país. O tribunal esclarece que essas medidas são esperadas entre o primeiro e o segundo turno e são coordenadas pelos Tribunal Regionais Eleitorais (TREs) a partir de demandas locais.

Entre as causas de mudança nos locais de votação estão previsões de chuvas fortes com potencial para alagamento de determinadas zonas eleitorais, ou outras condições adversas verificadas no local de votação no primeiro turno.

Ainda segundo o TSE, houve 444 alterações em locais de votação até esta segunda-feira, 19, mas o número ainda pode sofrer alterações até o próximo domingo. Entre o primeiro e o segundo turno de 2022, essas mudanças atingiram cerca de 5.800 locais de votação.

Comprova Explica

Clubes e torcidas organizadas: como se posicionam politicamente

Entenda a diferença entre manifestações de integrantes, posicionamentos de torcidas organizadas e decisões oficiais dos clubes na disputa eleitoral.

19/10/2026 20h19

Clubes de futebol e torcidas organizadas têm diferentes formas de atuação e posicionamento político no Brasil, tema analisado pelo Projeto Comprova.

Clubes de futebol e torcidas organizadas têm diferentes formas de atuação e posicionamento político no Brasil, tema analisado pelo Projeto Comprova. Foto: Projeto Comprova.

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Conteúdo analisado: Posts com fotos de torcedores do Corinthians e do Palmeiras juntos em ato pró-Lula (PT) afirmam que times teriam declarado apoio a ele na eleição presidencial. 

Comprova Explica: A proximidade entre futebol e política costuma gerar debates intensos nas redes sociais. Em manifestação a favor do presidente Lula (PT) em 11 de outubro, em São Paulo, viralizou uma foto de dois torcedores, um do Corinthians e o outro do Palmeiras. Alguns posts usaram a imagem para afirmar, erroneamente, que os times teriam declarado apoio ao candidato petista. 

Algumas postagens enganosas apontaram ainda que os dois homens seriam diretores da Gaviões da Fiel e da Mancha Alviverde, sugerindo que ambas as agremiações teriam formalizado apoio conjunto a Lula.

A seguir, entenda a relação dos times e torcidas com políticos na época das eleições. 

O que dizem os dez maiores clubes do Brasil

O Comprova consultou os dez primeiros colocados no Ranking Nacional de Clubes de futebol masculino da Confederação Brasileira de Futebol (CBF): Flamengo, Corinthians, Palmeiras, Atlético Mineiro, São Paulo, Fluminense, Botafogo, Athletico Paranaense, Bahia e Vasco da Gama.

Três agremiações responderam aos pedidos de esclarecimento: Corinthians, Palmeiras e Atlético Mineiro. Todas informaram que não apoiam nenhum candidato e que mantêm estrita neutralidade partidária.

A postura reflete a praxe e as normas estatutárias dos clubes brasileiros pesquisados pelo Comprova. A maioria dos estatutos sociais dos clubes prevê expressamente que as agremiações são laicas, apartidárias e impedidas de ceder suas instalações, marcas ou símbolos para campanhas políticas, resguardando o caráter plural de suas massas torcedoras.

Os demais sete clubes consultados não retornaram os pedidos de informação até a publicação desta checagem. Uma pesquisa nos canais oficiais de comunicação e redes sociais das agremiações indicou que nenhum clube publicou manifestações de endosso eleitoral a Luiz Inácio Lula da Silva ou a Flávio Bolsonaro (PL).

Postagens de cunho social — como a veiculada pelo Esporte Clube Bahia com referências à democracia e à música latino-americana — não fazem menção a postulantes a cargos públicos.

Clubes de futebol e torcidas organizadas têm diferentes formas de atuação e posicionamento político no Brasil, tema analisado pelo Projeto Comprova.Capturas de tela das respostas do Corinthians, Palmeiras e Atlético Mineiro

O Comprova também contatou a CBF, mas não houve retorno até a publicação deste texto. 

Como se posicionam as diretorias das torcidas organizadas

O termo “torcida organizada” abriga agremiações civis com perfis, tradições e dinâmicas internas muito distintas.

De acordo com Felipe Tavares Paes Lopes, professor e pesquisador da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), as diretorias das torcidas organizadas tradicionalmente evitam vincular suas entidades formalmente a campanhas partidárias.

“Em geral, as torcidas organizadas tendem a não se vincular institucionalmente a manifestações políticas, a fim de blindar a própria instituição”, pontua o pesquisador.

Segundo ele, pesam nessa decisão o receio de retaliações por parte de órgãos públicos e o risco de acirrar divergências internas, já que o corpo de associados de uma torcida é politicamente heterogêneo.

A Associação Nacional das Torcidas Organizadas (Anatorg) foi contatada pelo Comprova para comentar a participação de torcedores uniformizados em atos públicos, mas não encaminhou resposta até o fechamento desta apuração.

Quem são os dois torcedores  

A foto que viralizou é verdadeira e foi confirmada por ambos os torcedores.

“A foto foi feita de forma espontânea” afirmou o Coletivo Democracia Corinthiana (CDC) ao Comprova. 

No entanto, os torcedores não são diretores da Gaviões da Fiel e da Mancha Alviverde, diferentemente do que sugere o post analisado pelo Comprova.

O corintiano Weverton Cruz disse à reportagem que seu comparecimento ao ato pró-Lula se deu por iniciativa própria:

“Eu faço parte da Gaviões, sou membro associado, mas não sou liderança nem da diretoria.”

Segundo ele, sua participação no ato foi motivada pela defesa da democracia e pelo histórico de mobilização da torcida corintiana.

Cruz também afirma que a mobilização ocorreu em sintonia com movimentos independentes, como o Coletivo Democracia Corinthiana. 

O palmeirense Bruno Azevedo também confirmou a autenticidade do registro e relatou que decidiu ir ao ato de forma individual. Membro de torcida organizada desde a adolescência, ele enfatizou que sua presença buscou ressaltar pautas democráticas e combater a desinformação.

“A rivalidade precisa ser justa, respeitosa e, mais do que isso, democrática”, afirmou à reportagem.

Coletivos independentes e movimentos antifascistas

Embora as diretorias das torcidas evitem consolidar posições institucionais em pleitos, a presença de bandeiras, camisas de clubes e faixas em manifestações políticas é frequente no Brasil.

Esse fenômeno se dá, sobretudo, pela atuação de coletivos ativistas e frentes antifascistas formadas nas arquibancadas.

Conforme explica o professor Felipe Lopes, nos últimos anos multiplicaram-se grupos autônomos que atuam paralelamente às torcidas organizadas tradicionais.

Esses agrupamentos levam pautas de direitos sociais, defesa da democracia e combate a preconceitos aos estádios e às ruas. 

Quando integrantes dessas frentes ou torcedores avulsos comparecem a comícios empunhando vestimentas e bandeiras com as cores de seus times, expressam suas convicções políticas individuais ou de seus coletivos, sem que isso represente deliberação oficial ou chancela das agremiações esportivas e das diretorias das torcidas uniformizadas.

Fontes consultadas: O Comprova entrevistou os torcedores retratados na imagem, Weverton Cruz e Bruno, e Felipe Tavares Paes Lopes, professor e pesquisador da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp. Além disso, contatou representantes do CDC.

Foram procurados os dez primeiros colocados do Ranking Nacional de Clubes da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) de 2026, bem como aa Anatorg e a CBF. Também foi realizada uma análise  de estatutos sociais e monitoramento de redes institucionais dos clubes de futebol.

Por que o Comprova explicou este assunto: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, eleições e temas de interesse público.

A circulação descontextualizada de imagens de torcedores rivais em manifestações políticas foi utilizada para criar falsas noções de aliança formal entre agremiações desportivas e candidaturas presidenciais.

O Comprova Explica atua para esclarecer a verdade dos fatos, o papel institucional dos clubes e os limites da atuação de coletivos e torcedores organizados. Sugestões de verificação podem ser enviadas WhatsApp +55 11 97045-4984.

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