Artigos e Opinião

EDITORIAL

Malha Oeste: de volta à cena do "crime"

Não se trata de atribuir crime, mas permitir a participação na licitação de quem deixou a ferrovia chegar ao atual estado de degradação enfraquece a lógica da responsabilização

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A Rumo quer participar da licitação da nova concessão da Malha Oeste. A notícia, por si só, não seria motivo de espanto: o problema é a memória curta com que a empresa tenta se apresentar como candidata “nova” a um contrato que ela mesma abandonou.

Foi a própria Rumo quem solicitou, em 2020, a devolução da concessão da Malha Oeste, alegando desequilíbrio econômico do contrato e a necessidade de uma nova modelagem capaz de atrair investimentos privados.

A concessionária já havia sido autuada em R$ 105,3 milhões por abandonar a linha férrea ao longo dos anos, segundo avaliação do próprio Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit): anos de descaso, de infraestrutura deteriorada, de trens que praticamente pararam de circular numa via que liga Corumbá a São Paulo e é vital para o escoamento de minério, celulose e grãos de MS.

Mesmo assim, quando o contrato de 30 anos finalmente chegou ao fim, a Rumo não saiu de cena.

A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) já havia dado um passo controverso ao conceder à empresa o direito de administrar a malha por tempo indeterminado, mesmo após o fim do contrato, sem exigir novos investimentos, decisão que os próprios técnicos da agência reguladora apontaram como juridicamente frágil.

Na sequência, um acordo assinado horas antes do vencimento prorrogou a concessão por mais 180 dias, com a empresa recebendo R$ 26,9 milhões só para cuidar da vigilância patrimonial, sem retomada de operação ferroviária.

Agora, no processo de relicitação, a história se repete em nova roupagem. A RumoLog e a MRS solicitaram acesso ao processo na ANTT dias depois da aprovação do plano de outorga, obtendo as minutas do certame.

Ou seja: a empresa que devolveu a ferrovia por não conseguir – ou não querer – operá-la lucrativamente é a mesma que hoje larga na frente para disputar o mesmo ativo, podendo ter informação privilegiada sobre ele.

Diante desse histórico, cabe à bancada federal de MS e ao governo estadual cobrar explicações formais da ANTT sobre a participação da Rumo no certame. O silêncio dos representantes só vai favorecer quem já demonstrou, na prática, o custo de administrar a ferrovia sem compromisso com o Estado.

Não se trata de questionar o direito da Rumo de participar da licitação, trata-se de cobrar coerência regulatória.

Uma empresa que abandonou trilhos, acumulou multas, devolveu a concessão alegando prejuízo e, ainda assim, seguiu sendo beneficiada com prazo indeterminado e prorrogações sob medida não deveria ter vantagem de largada num processo que, em tese, deveria abrir espaço para novos operadores comprometidos com investimento real.

MS já pagou caro pela inércia na Malha Oeste. Se a Rumo volta à disputa, que volte com os investimentos e sob escrutínio redobrado da ANTT e do Tribunal de Contas da União.

Cabe à bancada sul-mato-grossense fazer essa exigência ainda nesta fase do processo. O Estado não pode se dar ao luxo de repetir o mesmo erro com a mesma empresa.

ARTIGOS

A rigidez religiosa e a busca da felicidade

O homem vive na expectativa de felicidade plena em outra dimensão na companhia de Deus

13/07/2026 07h45

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As religiões, cada uma a seu modo, prometem felicidade ao homem. Entretanto, esta felicidade ele não a alcançará aqui na Terra, pois aqui, neste plano da existência, ela é inatingível. Para alcançá-la, o homem deve conduzir sua vida dentro de certos preceitos e normas rígidas.

A felicidade plena, ele só a terá em outra dimensão, na companhia de Deus, o seu criador. O homem, assim, aqui vive na expectativa desta outra vida, preparando-se, controlando desejos, reprimindo impulsos, esmagando vontades.

Nesta linha doutrinária, o homem busca satisfazer a sua sede pelo divino, acreditando ser o caminho possível para a comunhão com Deus, quando, por meio da fé, ele terá respostas às suas indagações angustiantes sobre a razão da existência.

Aqui, neste plano de compreensão finita, ele se vê impotente diante da absoluta grandeza do universo, no embate entre a sua pequenez, frente à plenitude do infinito.

Neste apregoado “vale de lágrimas”, imerso na rigidez das crenças, o homem se curva, ele mais se entrega, ele mais procura se conter aqui na Terra, para merecer a glória da eternidade.

Conclui-se que a rigidez das normas religiosas de conduta oprime a liberdade do homem, inibe a satisfação de sua vontade, impõe limites aos seus desejos, enfim, leva-o a uma espécie de aniquilamento de si mesmo, de sua existência.

A religiosidade exacerbada é um instrumento de dominação poderoso, que encarcera o homem dentro de si mesmo, extraindo quase sempre, senão a expectativa da felicidade terrena, a simples possibilidade de fugazes momentos felizes. 

ARTIGOS

O que comunicamos quando falamos de integridade?

Durante muito tempo, falamos de integridade quase sempre a partir do que não deve ser feito

13/07/2026 07h30

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A comunicação dos departamentos de integridade precisa fazer uma pergunta simples e incômoda: o que estamos comunicando quando comunicamos integridade?

Durante muito tempo, falamos de integridade quase sempre a partir do que não deve ser feito: “não aceite vantagem indevida”, “não pratique assédio”, “não se envolva em conflito de interesses”, “não use bens da organização para fins particulares”, “não fraude”, “não corrompa”, “denuncie”.

Tudo isso é necessário. Organizações precisam ter regras claras, canais seguros, controles efetivos e responsabilização. Nenhuma cultura de integridade se sustenta quando o erro é ignorado.

Mas há uma questão: quando falamos de integridade apenas pela linguagem do erro, do medo e da punição, que imagem estamos formando na mente das pessoas?

Talvez estejamos tentando construir confiança usando uma linguagem que reforça a desconfiança.

A comunicação não é neutra. Ela educa, direciona atenção e ajuda as pessoas a entenderem o que é valorizado, esperado ou rejeitado.

No livro “O Jeito Harvard de Ser Feliz”, Shawn Achor menciona a chamada Síndrome da Faculdade de Medicina. Segundo ele, “no primeiro ano de faculdade de medicina, quando os alunos aprendem todas as doenças e sintomas que podem acometer uma pessoa, muitos médicos aspirantes de repente se convencem de que são vítimas de todas elas”.

A provocação é simples: aquilo que recebe a atenção repetida passa a ocupar mais espaço no nosso imaginário e, pouco a pouco, molda a forma como interpretamos a realidade.

O próprio Achor resume essa ideia ao afirmar que “o objeto ao qual dedicamos nosso tempo e focamos nossa energia mental pode de fato se transformar na nossa realidade”.

Esse raciocínio ilumina um desafio dos programas de integridade.

Quando uma organização fala o tempo todo de corrupção, fraude, assédio, punição e denúncia, pode transmitir uma mensagem não intencional: a de que aquele ambiente é naturalmente perigoso, moralmente frágil e suspeito.

Não se trata de deixar de falar sobre esses temas. Fraudes existem. Assédios existem. Conflitos de interesse e corrupção existem. E precisam ser enfrentados com seriedade.

O ponto é outro: esses temas não podem ser o único centro simbólico da comunicação de integridade.

Integridade também precisa comunicar o que se espera das pessoas: confiança, respeito, cuidado, responsabilidade, transparência, justiça, cooperação e serviço bem-feito. Precisa mostrar a conduta desejada, não apenas a proibida.

Há diferença entre dizer “não pratique conflito de interesses” e dizer “tome decisões colocando o interesse coletivo acima do interesse pessoal”. A primeira forma comunica proibição. A segunda comunica padrão de conduta.

Culturas fortes não são construídas apenas pelo medo do que não pode ser feito. São construídas também pela clareza do que deve ser vivido.

Talvez, por isso, tantas pessoas não se engajem. Ninguém se engaja profundamente com uma cultura que só aparece para proibir, ameaçar e punir.

A comunicação de integridade precisa deixar de ser apenas uma campanha contra o erro e passar a ser uma campanha a favor do acerto e da confiança.

No fim, a integridade não se consolida apenas quando as pessoas temem errar. Ela se consolida quando as pessoas compreendem, desejam e praticam o certo.

Por isso, antes da próxima campanha, vale perguntar: estamos comunicando apenas o que queremos evitar ou também a organização que queremos construir?

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