Capital estreia sistema de patinetes elétricos compartilhados enquanto usuários ainda enfrentam ciclovias desconectadas, trechos deteriorados e desafios para uma mobilidade urbana segura.
A chegada dos patinetes elétricos compartilhados a Campo Grande marca uma nova etapa da mobilidade urbana na Capital.
Anunciada pela Prefeitura na última semana como alternativa para deslocamentos de curta distância e complemento ao transporte coletivo, a iniciativa reacendeu um debate antigo: a cidade está preparada para receber um número maior de veículos leves circulando diariamente?
O sistema será operado pela empresa JET, que atua em mais de 35 cidades brasileiras e em oito países. Nesta fase inicial, serão disponibilizados 200 patinetes elétricos compartilhados, distribuídos em pontos estratégicos da região central e de bairros como Vila do Polonês, Parque dos Poderes e Jardim dos Estados.
Para utilizar o serviço, basta baixar o aplicativo da empresa, escanear o QR Code do veículo e contratar um dos planos disponíveis, sendo possível também consultar pelo celular a localização e a disponibilidade dos patinetes mais próximos.
O custo do serviço também deverá influenciar a adesão da população. Para desbloquear o patinete, o usuário pagará uma taxa fixa de R$ 0,99, além de uma cobrança por minuto de uso, que começa em R$ 0,33 e pode chegar a R$ 0,59 nos fins de semana e em horários de maior demanda.
Como o modelo foi concebido para deslocamentos curtos, o valor final da viagem varia conforme o tempo de utilização, o que coloca em discussão se o serviço será financeiramente acessível para diferentes perfis de usuários.
Embora Campo Grande possua cerca de 110 quilômetros de infraestrutura cicloviária, entre ciclovias, ciclofaixas e vias compartilhadas, a extensão da malha ainda não se traduz, necessariamente, em uma rede integrada e funcional para quem depende da bicicleta ou, agora, dos patinetes elétricos para se locomover.
Na prática, usuários convivem com trechos interrompidos, ciclovias que terminam abruptamente, falta de conexão entre bairros e áreas centrais, além de problemas de conservação que comprometem a segurança.
A discussão ganha força justamente no momento em que a administração municipal aposta na chamada micromobilidade urbana como ferramenta para reduzir congestionamentos, estimular meios de transporte sustentáveis e oferecer novas opções de deslocamento para a população.
Cidade extensa, rede ainda desconectada
Campo Grande possui uma das maiores extensões territoriais entre as capitais brasileiras e uma população estimada em aproximadamente 962 mil habitantes. Nesse cenário, especialistas em mobilidade urbana defendem que a simples existência de quilômetros de ciclovias não é suficiente.
O fator considerado mais importante é a continuidade da rede. Quando os trajetos são interrompidos ou não permitem que o usuário percorra grandes distâncias de forma segura, a bicicleta deixa de ser uma alternativa real ao automóvel e ao transporte coletivo. O mesmo raciocínio vale para os patinetes elétricos.
O contraste fica evidente quando Campo Grande é comparada a outras cidades. Em Mato Grosso do Sul, Três Lagoas, apesar de ter pouco mais de 143 mil habitantes, consolidou nos últimos anos uma rede cicloviária integrada em importantes corredores urbanos e é frequentemente apontada como referência estadual em infraestrutura para ciclistas.
No cenário nacional, capitais como São Paulo, que possui mais de 710 quilômetros de ciclovias e ciclofaixas, Brasília, com cerca de 550 quilômetros, Fortaleza, com mais de 400 quilômetros, além de Curitiba e Belém, figuram entre as cidades que mais investiram em mobilidade por bicicleta.
Embora Campo Grande tenha avançado e alcance aproximadamente 110 quilômetros de malha cicloviária, vale resaltar que o principal desafio da Capital não está apenas em ampliar essa extensão, mas em conectar os trechos existentes para formar uma rede contínua, segura e eficiente para bicicletas e, agora, também para os patinetes elétricos compartilhados
Hoje, diversos trechos da malha cicloviária da Capital funcionam de maneira isolada, obrigando ciclistas e usuários de equipamentos de micromobilidade a dividir espaço com veículos em vias de grande fluxo.
Patinetes ampliam desafio da infraestrutura
O sistema anunciado pela Prefeitura permitirá que moradores utilizem patinetes elétricos compartilhados em deslocamentos urbanos por meio de aplicativo.
A proposta segue uma tendência observada em grandes cidades brasileiras e do exterior, onde os equipamentos passaram a integrar o chamado "primeiro e último quilômetro" das viagens, o percurso entre a residência e o ponto de ônibus, terminal ou destino final.
No entanto, para que esse modelo funcione de forma segura, especialistas apontam que a infraestrutura cicloviária precisa acompanhar o crescimento da demanda.
Sem corredores contínuos, usuários acabam disputando espaço com carros, motocicletas, ônibus e caminhões, aumentando o risco de acidentes.
Expansão existe, mas avança lentamente
Nos últimos anos, Campo Grande ampliou gradualmente sua malha cicloviária.
Em 2026, a Prefeitura anunciou a implantação de aproximadamente 11,4 quilômetros de novas ciclovias e ciclofaixas para conectar trechos já existentes, contemplando vias como as avenidas Tamandaré, Euler de Azevedo e Gabriel Spipe Calarge, além das ruas Antônio Rahe e Carandá.
Também foram contratadas obras de requalificação em diversos corredores cicloviários da cidade.
Apesar disso, o ritmo ainda é insuficiente diante da dimensão da Campo Grande e da necessidade de formar uma rede verdadeiramente integrada.
O desafio deixa de ser apenas construir novos quilômetros e passa a ser conectar estruturas já existentes, eliminar interrupções e garantir manutenção permanente.
Segurança é fator decisivo
A qualidade da infraestrutura influencia diretamente na escolha do meio de transporte.
Quando ciclovias apresentam buracos, sinalização desgastada, obstáculos ou desaparecem em cruzamentos movimentados, muitos usuários preferem abandonar a bicicleta ou o patinete.
Esse cenário reduz justamente um dos principais objetivos da política de micromobilidade: diminuir a dependência do automóvel em deslocamentos curtos.
Além da infraestrutura física, especialistas defendem investimentos em educação para o trânsito, fiscalização e campanhas de conscientização voltadas tanto para motoristas quanto para ciclistas e usuários de patinetes.
Mobilidade do futuro depende do planejamento
A chegada dos patinetes representa um avanço na diversificação dos meios de transporte disponíveis em Campo Grande. No entanto, o sucesso da iniciativa dependerá menos da tecnologia e mais da capacidade da cidade de oferecer uma infraestrutura segura e conectada.
Sem uma rede cicloviária contínua, a micromobilidade corre o risco de atender apenas áreas específicas e perder o potencial de transformar a forma como milhares de moradores se deslocam diariamente.
Mais do que aumentar a quantidade de ciclovias, o desafio para a Capital passa a ser construir um sistema integrado, capaz de ligar bairros, centros comerciais, parques, escolas e terminais de transporte coletivo.
Só assim bicicletas e patinetes poderão cumprir o papel para o qual foram pensados: tornar Campo Grande uma cidade mais sustentável, menos congestionada e mais segura para quem escolhe se deslocar sobre duas rodas.