Cidades

Mudanças climáticas

Super El Niño e aquecimento global são eventos comprovados, ao contrário do que diz meteorologista

Cientista que deu a declaração é apontado por outros profissionais da categoria como um dos principais nomes responsáveis pela desinformação e negacionismo climático no Brasil

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Ao contrário do que afirma um meteorologista em uma entrevista para um canal no YouTube, o aquecimento global e o fenômeno conhecido como Super El Niño possuem fundamentação científica consolidada e sofrem influência direta da ação humana. No conteúdo investigado, o profissional minimiza a ação antrópica no clima e atribui o aquecimento anormal do Oceano Pacífico a um terremoto ocorrido no Japão.

Em sua fala, Luiz Carlos Molion argumenta que a humanidade é incapaz de alterar as temperaturas da Terra porque manipula ativamente apenas 6% da superfície do planeta, em contraste com os 71% cobertos por oceanos. Ele também alega que a principal influência climática vem do espaço – prevendo um resfriamento global entre 2030 e 2040 devido à baixa atividade solar – e que o recente deslocamento de águas quentes até o Polo Sul foi um evento sísmico aleatório, sem relação com a formação normal do El Niño.

Para checar as afirmações de Molion, o Comprova entrevistou Higo José Dalmagro, professor da Unic/Uniderp e doutor em Física Tropical pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Ele explica que a ciência aponta para um El Niño muito forte, com sinais de resposta atmosférica ao aquecimento do Pacífico. “O Molion é bastante crítico em relação às mudanças climáticas e costuma questionar modelos e interpretações que hoje têm amplo respaldo na comunidade científica”, acrescenta. Dalmagro reflete ainda que não se deve usar a explicação de Molion para colocar em dúvida todo o conjunto de evidências científicas que temos hoje.

Ainda em contraste com o que é dito no vídeo, especialistas entrevistadas pelo Estadão Verifica elucidam que a interferência humana não se limita à porcentagem de área territorial ocupada. A explicação foi dada por Sonaira Silva, doutora em Ciências de Florestas Tropicais pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e afiliada à Academia Brasileira de Ciências, e Eliana Fonseca, pesquisadora do Centro Polar e Climático e da iniciativa MapBiomas. Elas sustentam que o desmatamento e a queima contínua de combustíveis fósseis liberam grandes quantidades de gases de efeito estufa. O excesso de dióxido de carbono (CO) retém calor na atmosfera e contribui para o aumento da temperatura do planeta.

Esse acúmulo de calor também afeta os oceanos e pode intensificar fenômenos naturais e cíclicos, como o Super El Niño, que é monitorado internacionalmente e registrado há séculos. A classificação é usada quando o aquecimento das águas do Pacífico equatorial ultrapassa 2 °C em relação à média histórica. Temperaturas dos oceanos e dos continentes são monitoradas continuamente por satélites e medições são feitas em diferentes locais por agências meteorológicas nacionais e internacionais. Esses dados mostram uma elevação das temperaturas e sustentam a conclusão científica de que as atividades humanas alteram a dinâmica de troca de energia da Terra.

Quem criou o conteúdo investigado pelo Comprova 

Luiz Carlos Molion é graduado pela Universidade de São Paulo (USP), com doutorado em Meteorologia pela University of Wisconsin e pós-doutorado em Hidrologia de Florestas pelo Instituto de Hidrologia do Reino Unido, além de ter sido bolsista em uma instituição na Alemanha. Também atua como pesquisador e professor, dentro e fora do Brasil.

Esta não é a primeira vez que suas afirmações são verificadas. Molion é apontado por pesquisadores e jornais como um dos principais nomes da desinformação e do negacionismo climático no Brasil. De acordo com investigações detalhadas em uma reportagem da BBC News Brasil, o meteorologista mantém uma agenda ativa de cerca de 50 palestras anuais, e cerca de 85% dessas apresentações são financiadas por entidades, sindicatos e cooperativas do agronegócio. 

As alegações de Molion também têm sido contestadas pelo consenso científico. Conforme registrado pela Academia Brasileira de Ciências (ABC), o Estadão Verifica submeteu as declarações do meteorologista feitas em uma entrevista de 2010 à análise do climatologista Carlos Nobre e do glaciologista Jefferson Cardia Simões, que apontaram sérios erros conceituais e distorções nas declarações de Molion. 

Ainda, conforme exposto em reportagens da Agência Pública e do portal ClimaInfo, Molion é um nome em destaque no cenário negacionista brasileiro. Ele também foi checado em 2024 pelo Estadão Verifica, quando uma de suas postagens, que utilizava um gráfico desatualizado para negar o aquecimento global, foi classificada como falsa. Molion foi procurado pelo Comprova, mas não respondeu até a publicação deste texto

Cortes da entrevista foram publicados no Instagram e já alcançaram, até 11 de setembro, mais de 10 mil curtidas e 120 mil visualizações. No YouTube, a entrevista completa teve 23 mil visualizações. O canal onde ela foi veiculada possui mais de 2 mil inscritos no YouTube e 11,2 mil em seu perfil no Instagram.

Por que as pessoas podem ter acreditado

A declaração combina a autoridade atribuída a um meteorologista com termos técnicos, dados históricos e informações verdadeiras sobre fenômenos climáticos. O discurso também apresenta explicações com relações de causa e efeito aparentemente simples, o que pode facilitar a compreensão de um tema complexo.

Por exemplo, ao mencionar enchentes e secas registradas antes da urbanização em massa, ele usa dados reais para chegar a conclusões que precisam ser analisadas separadamente. A ocorrência desses eventos no passado não é, por si só, suficiente para determinar quais fatores influenciam nos eventos atuais. A presença de números e conceitos científicos pode dar ao argumento uma aparência de precisão.

Para climatologista, há, sim, bases científicas que apontam para Super El Niño
O Projeto Comprova entrevistou o climatologista Higo José Dalmagro, professor da Unic/Uniderp e doutor em Física Tropical pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Ele reforça que há evidências científicas e dados de modelos meteorológicos que indicam um Super El Niño neste fim de 2026.

Na avaliação do especialista, a publicação com a fala de Molion é enganosa porque tira de contexto sua análise. “Parece que o professor Molion está simplesmente dizendo que ‘não existe El Niño’, sem mostrar o restante da explicação dele.”

Segundo Dalmagro, na entrevista completa, disponível no YouTube, Molion acerta ao dizer que é preciso haver um acoplamento entre o aquecimento das águas do Pacífico e a atmosfera para que o El Niño se estabeleça e produza seus efeitos. Contudo, o climatologista analisa que “o aquecimento da água, sozinho, não explica tudo; é preciso haver também uma resposta da atmosfera”.

Dalmagro também discorda das conclusões de Molion, que questiona modelos e interpretações com amplo respaldo na comunidade científica. Segundo ele, o conjunto de evidências aponta para um El Niño muito forte, com sinais de resposta atmosférica ao aquecimento do Oceano Pacífico.

Fontes que consultamos: O Comprova analisou o vídeo original da entrevista e os cortes publicados no Instagram para entender quais alegações foram feitas. Com o Google, foi realizada uma busca sobre a biografia do meteorologista, notícias e outras checagens sobre o tema. Especialistas foram procurados para analisarem as afirmações e darem seu parecer científico sobre o tema.

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações sobre aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: Como afirmado acima, o Estadão Verifica também checou que o Super El Niño não é invenção; fenômeno pode ser medido e sofre influência de atividades humanas. O Comprova já explicou que  é consenso científico que ação humana causa mudanças climáticas e checou que o aquecimento global é uma realidade e tem impacto severo, diferentemente do que alega Donald Trump.

Educação

Questões trabalhistas estão entre possíveis temas da redação do Enem

No domingo, mais de 62 mil sul-mato-grossenses participarão do exame e concorrerão a vagas no Ensino Superior público

03/11/2026 09h30

O estudante Jorge Luís Longo Mendonça, que sonha cursar Medicina, prepara-se para o Enem

O estudante Jorge Luís Longo Mendonça, que sonha cursar Medicina, prepara-se para o Enem Foto: Gerson Oliveira / Correio do Estado

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O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), uma das etapas mais importantes para os estudantes que desejam ingressar no Ensino Superior público, começa neste domingo, com aplicação de 90 questões de Humanas e a tão temida redação. A aposta de especialista ouvido pela reportagem é que o tema possa abranger as questões trabalhistas, que estão em alta no País.

Com uma nota que pode variar de 0 a 1.000, o tema da redação só é descoberto na hora que o participante tem a prova em mãos e geralmente é relacionado a um assunto que está em pauta e que tenha relevância social. 

Por exemplo, na última edição, o tema foi “Perspectivas acerca do Envelhecimento na Sociedade Brasileira”, na qual apenas 10 candidatos alcançaram a nota máxima, nenhum em Mato Grosso do Sul.

Especialista na área, o professor de redação Ale Jamil explica que o Enem costuma escolher o tema com base em oito eixos temáticos básicos: Direito Civil e Cidadania; Saúde; Educação; Meio Ambiente; Tecnologia; Violência; Cultura e Diversidade; e Mobilidade Urbana. Porém, ele disse que nos últimos anos esses eixos têm se misturado em um mesmo tema, exigindo mais dos participantes.

“Nos últimos anos, o Enem vem trabalhando de dois a três eixos temáticos juntos. Com isso, vai do aluno trabalhar com várias áreas do conhecimento. E, voltando à ansiedade, adivinhar um tema é uma questão de sorte para trabalhar com a ansiedade. O interessante é o aluno ter condições de escrever sobre qualquer tema”, explica.

Mesmo assim, o professor decidiu arriscar três palpites de tema. O primeiro ele diz que pode envolver a sustentabilidade no meio ambiente, como mudanças climáticas, desmatamento, agronegócio e Justiça e racismo ambiental. Em seguida, o aumento do uso da inteligência artificial (IA) no cotidiano da população.

Por fim, ele destacou a relação econômica da saída de muitos trabalhadores da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e sua opção pelo modelo de pessoas jurídicas (PJs), tornando-se autônomos.

Vale lembrar que, há menos de um mês, houve a aprovação da proposta de emenda à Constituição (PEC) que deu fim à escala 6x1 no Brasil, que também pode ser um balizador do eixo temático sugerido pelo professor.

COMO FUNCIONA?

O estudante Jorge Luís Longo Mendonça, que sonha cursar Medicina, prepara-se para o Enem

Dividida em cinco competências, das quais cada uma vale até 200 pontos, a redação é corrigida por dois corretores que, obrigatoriamente, são graduados em Letras, Língua Portuguesa ou Linguística e são selecionados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).

Durante a correção, eles não conversam entre si e dão notas para cada uma das competências. Caso as avaliações tenham mais de 80 pontos de diferença, um terceiro corretor é chamado para que seja “um voto de minerva”.

Cláudia Silva, professora de redação há 37 anos, disse que há três fatores que podem fazer o participante zerar a redação: caso seja escrita com menos de sete linhas, com marcas de identificação ou com fuga total do tema ou do tipo de texto (no caso do Enem, é dissertativo-argumentativo).

Quanto às competências, ela explica que são divididas em norma culta da língua portuguesa, compreensão do tema, projeto de texto e argumentação, coesão e proposta de intervenção, que finaliza a redação com uma solução ao problema. 

Vale destacar que, junto ao tema, o Inep coloca dois textos de apoio que abordam o problema, para auxiliar o aluno no pensamento crítico e na escrita.

“Mais importante é o candidato ter em mente que, seja qual for a proposta, ele deverá identificar o problema a ser discutido na redação, e isso exige muito cuidado, pois o problema pode não estar explícito. Nesse caso, é preciso problematizar”, diz a professora.

RELATO

Segundo dados do Ministério da Educação (MEC), mais de 5 milhões de participantes confirmaram sua inscrição ao redor do País, dos quais 62.233 são de Mato Grosso do Sul.

O Estado obteve uma alta de 7,41% no número de candidatos em comparação com o ano passado, quando 57.941 sul-mato-grossenses participaram da prova.

Jorge Luís Longo Mendonça, de 21 anos, faz o Enem desde o segundo ano do Ensino Médio, quando começou como treineiro.

O sonho dele é passar em Medicina. Até por isso, também vai prestar outros vestibulares, como os da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS) e da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD).

“Mesmo que eu já tenha feito muitas vezes, às vezes é difícil lidar com ansiedade e essas coisas, mas o negócio é o preparo. Quanto mais tempo você fica no cursinho, você acaba se preparando mais, se acostumando a fazer provas, ao modelo de questões, e isso ajuda a ficar mais calmo, você vai pegando o jeito de fazer a coisa”, comenta.

Comparado aos outros vestibulares, Jorge disse achar o Enem o mais complicado, justamente por exigir um esforço do participante por quase cinco horas em dois domingos seguidos.

“Eu considero mais complicado, principalmente o primeiro dia, porque o primeiro dia é redação. Você tem a primeira parte de redação e depois mais 45 questões de Linguagem, mais 45 questões de Humanas, e é muito cansativo, te deixa completamente destruído. Mas o negócio é ganhar resistência com o tempo, fazendo prova e se acostumando”, finaliza.

Vale lembrar que, depois do primeiro dia de provas, ainda há o segundo, no dia 15, com 45 questões de matemática e outras 45 de biologia, física e química (Ciências da Natureza e suas Tecnologias).

RECURSOS FEDERAIS

União autoriza repasse de R$ 204 mil para Campo Grande após temporal

Portaria publicada nesta terça-feira (3) prevê recursos para ações de Defesa Civil

03/11/2026 09h15

Governo Federal autorizou mais R$ 204 mil para ações de Defesa Civil em Campo Grande após danos provocados por temporal

Governo Federal autorizou mais R$ 204 mil para ações de Defesa Civil em Campo Grande após danos provocados por temporal Marcelo Victor

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O Governo Federal autorizou um novo repasse de R$ 204.680,00 para Campo Grande, destinado à execução de ações de resposta a desastres. A medida consta na Portaria n° 3.719, publicada nesta terça-feira (3), no Diário Oficial da União (DOU), pelo Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR).

O recurso será destinado à Prefeitura de Campo Grande para a realização de ações de Proteção e Defesa Civil, conforme solicitação registrada no Sistema Integrado de Informações sobre Desastres.

De acordo com a publicação, o valor será transferido em parcela única, por meio de transferência legal, e deverá ser utilizado exclusivamente nas ações previstas no pedido apresentado pelo município.

A portaria também estabelece prazo de 180 dias, contados a partir da publicação, para a execução das medidas. Após o encerramento desse período, ou do último pagamento realizado antecipadamente, a administração municipal terá até 30 dias para apresentar a prestação de contas final.

Apesar da autorização, a publicação não confirma que o dinheiro já tenha sido efetivamente depositado nos cofres municipais, tampouco informa se houve início da execução das ações previstas.

Outros repasses

Este é o terceiro repasse autorizado pelo Governo Federal para Campo Grande nas últimas semanas, após os estragos provocados pelo temporal que atingiu a Capital em setembro.  

O primeiro, no valor de R$ 496.456,89, foi autorizado pela Portaria nº 3.565, publicada em 19 de outubro, para atender ações emergenciais de resposta e Defesa Civil relacionadas aos danos causados pelas fortes chuvas.

Já o segundo repasse, de R$ 759.500,00, foi autorizado em 26 de outubro e destinado a medidas de assistência às famílias atingidas, incluindo a aquisição de materiais como telhas e kits de fixação para reparos em imóveis danificados.

Com a nova autorização publicada nesta terça-feira, os recursos federais destinados ao município por meio das três medidas ultrapassam R$ 1,3 milhão.

Entretando, os valores correspondem a autorizações de repasse, o que não significa, necessariamente, que todos os recursos já tenham sido transferidos ou utilizados pela Prefeitura.

A nova portaria, assinada pelo secretário nacional de Proteção e Defesa Civil, Wolnei Wolff Barreiros, determina ainda que a aplicação dos recursos fique restrita às finalidades autorizadas, com posterior prestação de contas à União.

    

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