Os ciganos têm um profundo respeito à natureza e aos quatro elementos – ar, terra, fogo e água –, e isso é também evidenciado por meio dos movimentos das danças ciganas. Quem afirma é a dançarina Yordana.
Ao lado de Brunno Guimarães, seu parceiro de tablado, ela está à frente da Rosa de Fogo Cia de Dança, que completa hoje dois anos de atividades – com perdão pelo trocadilho – mantendo acesa a chama de propagar as belezas, os encantos e as técnicas de diferentes estilos da dança cigana. Apesar da curta trajetória, a companhia vem colecionando uma série de bons momentos, a exemplo dos saraus dançantes que realiza, como no que ocorreu no dia 5, no Espaço SAE, próximo à sede do grupo, no Bairro Cabreúva.
Das dançarinas mais experientes às que se iniciaram há pouco tempo, dá gosto de ver como elas se esmeram nos detalhes de movimentos, desde a expressão dos olhos aos ângulos dos pés. Detalhe talvez seja uma palavra-chave tanto para quem dança quanto para quem aprecia a miríade de estilos que fazem da dança cigana uma espécie de metaverso dentro da arte do corpo e do movimento. E o público, meio que hipnotizado, parece dançar junto ao olhar.
É com você, Yordana: “Os movimentos podem ser realizados com diversos elementos, como, por exemplo, o leque, a rosa, o xale, o punhal, o pandeiro, entre outros. Esses elementos têm significados diversos, que são expressos por meio da dança”, afirma a graduada em Direito de 37 anos, que tem formação técnica em teatro e percorreu várias modalidades – dança flamenca, do ventre, de salão, etc. – antes de se especializar no estilo brasileiro da dança cigana.
“A dança cigana é muito rica e diversificada, por isso é difícil apontar as características predominantes em todos os estilos, pois ela vai desde uma expressão mais forte, com uma rumba cigana espanhola, até uma dança mais alegre e descontraída, como a rumba cigana brasileira. Mas existem algumas características em comum, como as saias das bailarinas, o colorido das roupas e os floreios das mãos, assim como a presença das flores no cabelo, por exemplo, que nos saltam aos olhos e que fazem da dança cigana tão encantadora”, ensina.
Como a história dos povos ciganos tem uma forte característica nômade, a dança cigana, segundo Yordana, é também bastante diversificada.
“Por isso, encontramos diversos estilos, como a Ruska Roma [dança cigana russa],
a Manele [da Romênia], a Kawleeya [do Iraque], a Kalbeliya [do Rajastão e da Índia], entre outros. Cada um desses estilos tem um contexto cultural diferente, além do próprio contexto geográfico. Então, são expressões distintas, com movimentações diferenciadas, ainda que sejam danças ciganas”, explica.
Assim sendo, conforme Yordana pontua, é importante que os bailarinos e as bailarinas de dança cigana procurem estudar sobre cada estilo, “para que possamos dançar e transmitir com mais precisão e de forma mais fidedigna a cultura dos povos ciganos”.
E OS HOMENS?
O que mais encanta a dançarina e professora é a possibilidade de explorar diversos estilos e ritmos.
“Apuramos a nossa sensibilidade e a nossa musicalidade. Podemos dançar com as cores que amamos, com os elementos que mais nos identificamos, expressar as nossas emoções de uma forma mais completa. A dança cigana, para mim, representa um povo, que apesar de tudo sempre teve muita paixão pela vida”, descreve. E como se dá a presença do homem?
“O homem representa a energia masculina na dança cigana. Então, ele vai apresentar e desenvolver aspectos como a altivez, a virilidade e a força. Mas é importante dizer que, cada homem tem a sua personalidade, assim como a própria dança cigana é bastante diversa. Então, é importante não engessar conceitos e dar ao bailarino a liberdade de se expressar e de expressar a arte a que ele se propõe”, diz Yordana.
“Por exemplo, a dança com pandeiro pode ter um viés mais festivo e descontraído, então, nessa dança, o homem vai desenvolver uma apresentação mais leve e divertida. Já em uma dança em casal, o homem pode demonstrar mais força por meio da postura, do sapateado, etc. Ou seja, a energia masculina mais em evidência. São muitas possibilidades para o homem também na dança cigana”, afirma a dançarina.
“A presença do homem na dança cigana ainda é escassa. Aparentemente, existem mais homens até mesmo na dança do ventre do que na dança cigana atualmente. Busco desenvolver a dança cigana masculina de forma artística, coreografada, trabalhada como um número artístico mesmo, pois algumas vezes percebo que a presença masculina na dança cigana acaba sendo muito reduzida e, dessa forma, empobrecida”, analisa Brunno Guimarães.
“Acredito também que as próprias bailarinas podem sentir falta de um par em sua dança, porque a paixão, o romance e o amor também fazem parte da cultura cigana em suas músicas, poesias e outras expressões culturais”, comenta o par de Yordana.
“Então, enquanto bailarino de dança cigana, espero ser um incentivo para que outros homens também a dancem e possam descobrir a dança cigana não somente enquanto arte, mas como uma forma de autoconhecimento e desenvolvimento pessoal”, almeja.
“É possível encontrar bailarinos mais ‘aflamencados’, ou seja, que tenham uma base da dança flamenca mais forte em sua dança, outros com características mais leves, etc. A dança é um processo de autoconhecimento, e isso também inclui os bailarinos. Independente disso, é interessante que o homem possa desenvolver a elegância e o cavalheirismo, assim como também a sensibilidade, na dança cigana”, retoma Yordana.
MARCANTE
A professora considera natural que os leigos confundam essa arte com as danças árabes. “As danças ciganas geralmente estão próximas das danças árabes em diversos eventos e grandes festivais. Então, pode ser que alguém confunda pensando se tratar de uma mesma dança. Mas quando passam a conhecê-la melhor, logo vão perceber que são culturas diferentes. Com algumas semelhanças, mas ainda sim, diferentes”, revela. E o que mais marcou nesses dois anos de Rosa de Fogo?
Brunno responde: “A maior alegria foi receber o primeiro lugar com nosso duo ‘Paixão Cigana’ no Festival Internacional Arabesk, porque foi um grande reconhecimento do nosso trabalho e um incentivo para que continuemos trabalhando e desenvolvendo nossa arte”.
Formado em Turismo e pós-graduado em Libras, Brunno tem 36 anos e atua como bailarino desde os 20 anos. “Cada trabalho coreográfico é um desafio. Exige criatividade, pesquisa, ensaios, refinamento, esforço, dedicação. Uma coreografia é também uma obra de arte”, afirma o também coreógrafo e professor de dança do ventre.
Já Yordana faz coro com o parceiro quanto ao primeiro lugar no Festival Arabesk de Danças, em junho de 2022, e acrescenta mais um: “O terceiro lugar na categoria Duo/Danças Étnicas, no Festival Internacional Marília em Danças 2023”. Que venham mais prêmios. E mais danças.


Bruno Rezende/Divulgação UEMS
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