Correio B

CIRURGIA LIBERADA

Transexuais travam batalha para trocar 'nome oficial'

Transexuais travam batalha para trocar 'nome oficial'

G1

23/01/2011 - 04h30
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A cirurgia para trocar de sexo é apenas parte da mudança que os transexuais enfrentam para criarem uma nova identidade. Além da operação – que leva pelo menos 24 meses de preparação quando é feita no Sistema Único de Saúde (SUS) – muitos deles passam anos 'brigando' com a justiça para trocar de nome.

Foi o que ocorreu com Cristyane Oliveira, 37, que vive em Porto Alegre. Ela esperou dois anos para fazer a cirurgia pelo Sistema Único de Saúde (SUS), em 2002. “Depois, ainda levou cinco anos para conseguir retificar meus documentos. Eu tinha um direito conquistado e outro negado. Nos meus documentos, ainda era outra pessoa”, conta.

Casos como esse ganharam destaque após a participação da cabeleireira Ariadna, de 26 anos, no "Big Brother Brasil 11". Ela evitou declarar publicamente aos colegas que era transexual, e deixou para contar o segredo quando foi eliminada do programa, na última terça-feira (18).

A intimidade sobre a condição sexual, contudo, fica evidente quando o transexual não muda o nome. Com aparência e personalidade de mulher, tem que usar documentos de homem – ou o contrário – e contar ou não contar deixa de ser uma escolha.

“Antes da cirurgia eu havia feito um curso de cabeleireira, mas não pendurava o diploma na parede porque o nome [escrito nele] não era o que eu tinha. É um sofrimento, é uma coisa que traz muitos incômodos”, relata Cristyane, que montou um blog onde conta os desafios que tem que enfrentar como transexual.

Barrada no restaurante
O constrangimento vai além de ter documentos que mostram um sexo diferente. Paula (nome fictício), 29, fez a cirurgia de readequação sexual há quatro meses, e conta que teve problemas ao entrar no restaurante da universidade onde estuda, em São Paulo. “A mulher que cuidava da entrada achou que eu estava usando a carteirinha de outra pessoa. Ela falou alto, gritou comigo”, relata.

A estudante conta que, antes da cirurgia, chegou a entrar na Justiça pedindo que o nome e o sexo em seus documentos fossem mudados, mas não obteve parecer favorável. Agora, com o sexo fisicamente mudado, pretende enfrentar uma nova batalha judicial. “Não quero perder oportunidades por causa do meu nome.”

Oficialmente mulher
Carla Amaral, 38, de Curitiba, vive o problema oposto. Há três anos, ela entrou ná Justiça e mudou o nome e o sexo em seus documentos, mas ainda não conseguiu fazer a cirurgia pelo SUS. “Eu estou há cinco meses esperando a primeira consulta”, conta ela, que é diretora-presidente de uma ONG que luta pelos direitos de travestis e transexuais.

Apesar de não ter operado, Carla é oficialmente uma mulher, e em seus documentos não há indícios de que ela nasceu com corpo masculino. Ela poderá se aposentar antes dos homens, pagar menos no seguro do carro e se casar de forma comum – sua união com um homem não é considerada um relacionamento homossexual.Segundo a advogada Maria Berenice Dias, especialista em Direito Homoafetivo, casos como esse têm sido cada vez mais comuns, e representam um avanço na Justiça brasileira. “Nem sempre as pessoas querem fazer a cirurgia. A mudança do feminino para o masculino, por exemplo, não é uma cirurgia bem-sucedida. Além disso, o exercício da sexualidade não tem muito a ver com a genitália”, defende.

Para a advogada, é necessária uma lei que permita aos transexuais trocar de nome e de sexo nos documentos sem a necessidade de entrar na Justiça. Ela admite, porém, que isso poderia trazer problemas inusitados.

“Se a pessoa tiver filhos, quem era pai deixa de ser, passa a ser mãe. Tem gente que sustenta que quem tem filhos não pode trocar de nome. Na minha opinião, tem que trocar, mas o filho tem que ter acesso a essa informação.”

Cirurgias gratuitas
Na área da saúde, os transexuais encontram menos problemas. Sua condição é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como transtorno da personalidade. “Trata-se de um desejo de viver e ser aceito enquanto pessoa do sexo oposto”, define o documento internacional que classifica problemas de saúde.


Cristyane Oliveira fez cirurgia em 2002 e levou 5
anos para trocar o nome. (Foto: Arquivo pessoal)A cirurgia de mudança de sexo do masculino para o feminino é feita gratuitamente pelo SUS em hospitais universitários de São Paulo, Porto Alegre, Rio de Janeiro em Goiânia. Segundo o Ministério da Saúde, 60 pessoas já fizeram a operação, que foi liberada no sistema público em 2008.

Como a modificação dos órgãos sexuais é irreversível, é exigido que os candidatos passem por um tratamento psicológico ou psiquiátrico de dois anos, para ter certeza da escolha.

Feminino para masculino
No início deste ano, o governo de São Paulo anunciou que começará a realizar gratuitamente a retirada de órgãos femininos de transexuais que se consideram homens. As cirurgias liberadas serão a da retirada de útero e a de mama. A operação de construção do pênis não foi liberada porque só é permitida pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) em caráter experimental.

“As técnicas para essa cirurgia não são boas ainda. Se alguém quiser fazer, vai ter que ser como pesquisa”, relata o médico Edvar Araujo, relator da resolução do CFM que liberou a operação de retirada do útero, ovário e mama em transexuais.

Contar ou não contar?
Depois da modificação do corpo e dos documentos reconhecidos, os transexuais ganham a opção de manter segredo sobre terem nascido com um sexo diferente.

“Não tenho nenhum problema de falar, mas não acho que seja uma obrigação. Não vou chegar em um coquetel e falar ‘Sou Cristyane Oliveira, uma transexual’.” Paula, que fez a cirurgia há poucos meses, concorda. “Se for uma pessoa importante, eu conto, mas na universidade, não falo. Quem sabe, é por causa dos meus documentos.”

Carla, de Curitiba, diz que durante a adolescência tentou esconder, mas hoje não se preocupa mais com isso. “Se as pessoas querem ser minhas amigas, meu amor, têm que saber quem eu sou, qual é a minha identidade, minha história.”

FELPUDA

Com as definições do cenário eleitoral, a exemplo do que ocorre... Leia na coluna de hoje

Confira a coluna Diálogo desta segunda-feira (13)

13/04/2026 00h02

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Davi Roballo - escritor brasileiro

"Se fôssemos educados a valorizar os detalhes
e a simplicidade, não seríamos engolidos
pela ambição do mundo".

Felpuda

Com as definições do cenário eleitoral, a exemplo do que ocorre em todos pleitos, surge a figura do "pagador de promessas", aquele que reúne um aparato de "assessores informais" prometendo cargos e outras mordomias. Todo o staff anda de "salto alto" e nariz empinado e reage prontamente a qualquer tipo de insinuação sobre a possibilidade do "homem dos votos" não ser eleito. Após a eleição, começa o drama. Em caso de derrota do candidato, a galera vai viver "um dia de fúria", enquanto o "senhor das promessas" estará vivendo seu momento de "E o Vento Levou".

Em alta

O endividamento chegou a 70,1% no mês de março em Campo Grande, com leve alta mensal e avanço de 6,7% em um ano. Entram na conta dívidas como cartão, carnês, empréstimos e financiamentos. A pesquisa é da Confederação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

Mais

Também cresceu o atraso, atingindo 28% dos consumidores, com maior peso entre famílias até 10 salários mínimos (31,4%). O cartão de crédito lidera como principal fonte de dívida (67,6%), segundo a pesquisa da CNC, que foi divulgada pela Fecomércio-MS.

Jornalistas Maria Carolina Rossi e Beatriz Destefani
Leide Laura Meneses, que está trocando de idade hoje

Sonho meu...

Nos projetos da senadora Tereza Cristina Corrêa da Costa Dias (PP) não está ser vice do colega Flávio Bolsonaro (PL). Quando questionada sobre o assunto, ela se diz honrada em ser lembrada, porém, não cogita essa possibilidade. Como ministra, a parlamentar teve grande destaque por sua atuação e afirma que quer continuar um bom trabalho para o agronegócio. Enquanto isso, Flávio Bolsonaro tem dito por aí que ter Tereza Cristina como vice é seu "sonho de consumo"

Nova cadeira

Dos 29 vereadores, 18 são pré-candidatíssimos a outras Casas, seja a Assembleia Legislativa de MS, seja a Câmara dos Deputados. Pelo número de pretendentes, dá para se ter uma ideia de que essa galera está movida pela vontade de sentar em nova cadeira, pulando fora daquelas em que estão atualmente. Para "especialista" em políticos que pensam mais em si do que no povo, essa é a maior prova de que os votos que essa turma recebeu em 2024 não estão sendo levados em conta. E põe máscaras caindo nisso...

Campanha

Coordenada pelo juiz Alysson Kneip Duque, da 1ª Vara da Comarca de Miranda, acontecerá a 4ª Semana Nacional de Registro Civil Registre-se! 2026. A ação será realizada entre hoje e sexta-feira naquela cidade, com foco na população indígena, distribuída em diversas aldeias. Entre os serviços prioritários definidos estão o registro de nascimento tardio, a inclusão da etnia terena nas certidões de nascimento e a emissão de certidões para pessoas transgênero.

Aniversariantes

  • Leide Laura Meneses,
  • Dra. Jaceguara Dantas da Silva,
  • Miguel Palacios Rodrigues,
  • Rita de Cascia Locci Ferreira Queiroz,
  • Carlos Scardini Neto,
  • Ana Maria Colombo Peralta,
  • Sônia Regina Avedikian,
  • Rudenio Gonçalves Ferreira,
  • Mirtes Pinto Centurião,
  • Enio Taira,
  • João Flávio Ribeiro Prado,
  • Dr. Salomão Francisco Amaral,
  • Luiz Fernando Weber,
  • Mário Boiarenco,
  • Solene Tomikawa,
  • Renilson Cleber Caldeira,
  • Vangivaldo Oliveira Miranda,
  • Priscilla de Souza Oshiro,
  • Maria Celina Fiori Grance,
  • Lairtes Chaves Rodrigues Filho,
  • Waldete Franco Bogamil Quirino,
  • Dra. Selma Guimarães Ferreira,
  • Dr. Bruno Higa Nakao,
  • Dr. Antônio Graciliano Arguello Filho,
  • Dr. Heraldo Marques Figueiredo,
  • Dr. Francisco Aurélio Cevallos Rebelo,
  • Edimilson Volpe,
  • Rita Abussafi Figueiró,
  • Agamenon Rodrigues do Prado,
  • Louise Isabelita Lima de Brites,
  • Leidyuise Anniela Lima de Brites,
  • Sabrina Bertholi de Santana,
  • Elísio Curvo,
  • Zilda Ribeiro Batistoti,
  • Marcos Barbosa Ojeda,
  • Gilberto Alves Neto,
  • Antônio Carlos Braz,
  • Dilson Casarotto,
  • José Ailton de Souza Nunes,
  • José Carlos Alves da Rosa,
  • Arlete Soares,
  • Ana Lúcia Mendes Brito,
  • Joel Cavalcante,
  • Dr. José Eduardo Neder Meneghelli,
  • Dra. Roseny Maria Russi da Silva,
  • Anne Francis Malulei,
  • Sodek Afif Hanna,
  • Aredes Severino de Mendonça,
  • lsmael Almeida Júnior,
  • Arlete Freitas de Oliveira,
  • Ligia Mejia,
  • Caetano Pereira Quirino,
  • Sônia Barbosa,
  • Denise Ramos,
  • Zulma Siman Carvalho,
  • José Domingues Ramos,
  • Reginaldo Vilanova,
  • Carlos Roberto Santana,
  • Silvani Mohr,
  • Evaristo Camargo Filho,
  • Fernando Carlos Sigarini da Silva,
  • Gerfison Luis Silveira dos Santos,
  • Mabel Rezende Guerra Aguiar,
  • Iane Geny da Silva Simões,
  • Suzete Simioli Guerreiro,
  • Robson Motizuki,
  • Dra. Eusa Maria Figueiredo de Oliveira,
  • Patrícia Michelle Teijó Zigart,
  • Karla Coquemala Guerreiro,
  • Francisca Soares da Conceição,
  • Valdeci Batista Barbosa Mendes,
  • Anelise Brasil Prado Martins,
  • Adeir Massena da Silva,
  • Sandra Regina Vidal Bravalhieri,
  • Odete Soares de Oliveira,
  • Maria José Schwarz,
  • Helen de Souza Amorim,
  • Waldir Siqueira Pinto,
  • Gilberto Felipe,
  • Sueli Luzia Nogueira,
  • Leonardo Paim de Moraes,
  • Geraldo Gonçalves de Lima,
  • Eliney Miranda Magalhães,
  • Sônia Cardoso Martins,
  • Dr. Júlio Massanori Hiane,
  • Ana Claudia Mello Vasconcelos,
  • Plinio de Sampaio Leite Santos,
  • Maristela Correa Lopes,
  • Tatiana Pimentel Kivel,
  • Patricia Bueno Silveira,
  • Dr. Ailton Diogo Morilhas Rodrigues,
  • Cilmara Miranda Camargo,
  • Moacir Francisco Rodrigues,
  • Renan Cesco de Campos,
  • Gustavo Correa Bezerra de Araújo,
  • Rovanes Vilela,
  • Grhegory Paiva Pires Moreira Maia,
  • Marcondes Flores Bello,
  • Mariza Rivarola Rocha,
  • Nilda Maria Mendes Coutinho Avila,
  • Matheus Malvino Rossi,
  • Doralice Camparim Facundo,
  • Zélia Barbosa Braga,
  • Fernando Bonfim Duque Estrada,
  • Katiuscia Gomes Mendonça Ishikawa,
  • Jaime Correa de Oliveira.

Capa da semana Correio B+

Entrevista exclusiva com o ator Velson D'Souza que se prepara para fazer "Oleanna", de David Mamet

"A gente tende a buscar um culpado e um inocente, mas Oleanna desmonta essa lógica. As certezas vão se deslocando o tempo todo, e isso me interessa como ator, porque são personagens contraditórios, tridimensionais".

12/04/2026 15h30

Entrevista exclusiva com o ator Velson D'Souza que se prepara para fazer

Entrevista exclusiva com o ator Velson D'Souza que se prepara para fazer "Oleanna", de David Mamet Foto: Joaquim Araújo

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Depois de dar vida a Silvio Santos no musical biográfico “Silvio Santos Vem Aí” — trabalho que marcou seu retorno ao Brasil, em 2021, após uma década nos Estados Unidos — Velson D’Souza vive um novo momento na carreira. O ator se prepara para estrear “Oleanna”, de David Mamet, com direção de Daniela Stirbulov, em temporada no Teatro Vivo, em São Paulo, em um movimento que marca sua volta ao teatro de prosa.

O projeto retoma um interesse antigo. Velson teve o primeiro contato com o texto durante o mestrado em Acting, em Nova Iorque, entre 2011 e 2014, e desde então carregava o desejo de montá-lo.

“Foi um texto que me marcou profundamente, pela complexidade dos temas e pela precisão da escrita. Durante muito tempo eu quis montar essa peça, mas ainda não tinha a idade do personagem. Agora senti que era o momento certo”, afirma.

A peça coloca em cena o embate entre um professor universitário e sua aluna, em uma relação atravessada por disputas de poder, linguagem e interpretação. A encenação evidencia o quanto essas dinâmicas podem ser instáveis, especialmente quando intenção e percepção não caminham juntas, revelando tensões que se desdobram a partir de pequenas ações e leituras divergentes.

Oleanna também ganhou adaptação para o cinema em 1994, com roteiro e direção do próprio David Mamet, baseada na peça original escrita dois anos antes. Na versão, o personagem John foi interpretado por William H. Macy — referência que atravessa diferentes leituras da obra ao longo do tempo e dialoga com a construção do personagem no palco.

É nesse território de incerteza que Velson ancora sua investigação. “A gente tende a buscar um culpado e um inocente, mas Oleanna desmonta essa lógica. As certezas vão se deslocando o tempo todo, e isso me interessa como ator, porque são personagens contraditórios, tridimensionais”, diz.

Além de estar em cena, Velson também assina a produção do espetáculo. O trabalho ao lado da diretora Daniela Stirbulov e do diretor de produção Fabio Camara estrutura um processo que equilibra criação e gestão, permitindo ao ator manter o foco na construção do personagem sem perder a visão do todo.

O projeto marca também um retorno ao teatro de prosa, linguagem que sempre esteve na base de sua formação. Após anos dedicados ao teatro musical, ele volta a esse território em busca de novos desafios.

“Depois de um tempo longe, senti vontade de voltar e me provocar. É um texto extremamente exigente, com uma estrutura muito precisa e um personagem cheio de contradições. Sem dúvida, é um dos trabalhos mais desafiadores que já enfrentei”, afirma.

Nos últimos anos, Velson esteve em produções de grande escala no teatro musical, como o protagonismo em “Silvio Santos Vem Aí” e mais recentemente em “Jersey Boys”, no papel de Tommy DeVito. Pelo trabalho, foi indicado ao Prêmio Destaque Imprensa Digital (DID) na categoria Destaque Ator Coadjuvante. Sua interpretação de Silvio Santos também foi reconhecida pela premiação, com indicação na categoria Destaque Ator.

Na televisão, Velson também construiu uma trajetória consistente, com passagens por diferentes emissoras e momentos distintos da carreira. Ainda na década de 2000, integrou produções do SBT como “Cristal”, “Revelação” e “Vende-se Um Véu de Noiva”.

Mais recentemente, voltou à emissora no elenco adulto de “A Infância de Romeu e Julieta”. Já na Record, esteve na série bíblica “Paulo, o Apóstolo”, onde interpretou Tito, personagem ligado à expansão do cristianismo nas primeiras comunidades. Os trabalhos no audiovisual ampliam seu repertório e evidenciam sua circulação entre diferentes linguagens e formatos.

Atualmente, Velson se dedica também à formação de atores no Espaço Colab, onde ministra o Curso de Técnicas Americanas de Interpretação para TV e Cinema, dando continuidade à pesquisa que desenvolveu ao longo de sua trajetória internacional. Em paralelo, prepara a estreia de “True West”, de Sam Shepard, que irá produzir e protagonizar ao lado de Fernando Belo, com previsão de estreia em novembro no Teatro do Núcleo Experimental.

“Tenho direcionado bastante minha energia para o Espaço Colab e para esse momento de aprofundamento no teatro e no trabalho de formação”, finaliza.

Velson é a Capa do Correio B+ desta semana, e em entrevista ao Caderno ele fala sobre seu retorno dos EUA, trabalhos, desafios e novas estreias.
 

Entrevista exclusiva com o ator Velson DO ator Velson D’Souza éa Capa exclusiva do Correio B+ desta semana - Foto: Joaquim Araújo - Diagramação: Denis Felipe Por: Flávia Viana

CE - Você morou por 10 anos nos EUA. Ao retornar ao país, em 2021, com o musical “Silvio Santos Vem Aí”, que momento aquele trabalho representou na sua carreira?
VS -
 Foi um momento de retorno, mas não de recomeço do zero. Eu estava voltando com uma bagagem construída lá fora, com outra relação com o trabalho, e uma outra pessoa. E já voltar com um protagonista de um musical desse tamanho foi muito significativo. Era um desafio grande, num contexto novo pra mim de novo… então tinha uma mistura de risco e afirmação. Acho que marcou esse lugar de “estou de volta, mas diferente”

CE - O que ficou, como aprendizado ou marca, da experiência de interpretar uma figura real tão conhecida como Silvio Santos?
VS - 
O Silvio sempre esteve muito presente na minha trajetória, de certa forma. O SBT foi onde fiz muitos trabalhos na televisão, então já existia uma relação, uma proximidade com esse universo. E aí, de repente, eu estava interpretando justamente essa figura tão icônica. O maior desafio foi fugir da caricatura.

Porque o Silvio é um dos personagens mais imitados do Brasil — todo mundo tem uma referência muito marcada. Então o trabalho foi tentar humanizar esse personagem. Entender o que está por trás daquilo, o pensamento, o tempo, a lógica dele… e não só reproduzir os trejeitos. E isso me fez evoluir muito como ator. Foi um exercício de precisão e de escolha — de entender o que realmente comunica, em vez de tentar fazer tudo.

CE - Depois, você integra o elenco de Jersey Boys, vivendo Tommy DeVito. O que esse trabalho acrescentou ao seu repertório?
VS -
Foi, até então, o maior desafio da minha carreira. É um espetáculo muito exigente em todos os sentidos. Tem a questão do canto, principalmente em quarteto, que pede muita precisão.

Tem a dança, o ritmo… e, ao mesmo tempo, o personagem também conduz a narrativa. Eu abro o espetáculo falando diretamente com a plateia, faço essa ponte o tempo todo, e preciso trazer o público pra dentro da história logo de cara.

E tudo isso intercalando com as músicas. Então é um trabalho de muita resistência também — são quase três horas unindo canto, dança e interpretação sem perder a energia. Isso me acrescentou muito nesse lugar de precisão e de controle. De sustentar um personagem complexo dentro de uma estrutura muito rigorosa.

CE - Ao revisitar sua trajetória, você identifica algum ponto de virada que te trouxe até este momento?
VS - Acho que estudar fora foi o maior ponto de virada. Me trouxe método, técnica, e mudou minha relação com o trabalho. Eu evoluí não só como ator, mas como pessoa também.

Isso me trouxe mais consciência de processo, de construção. E a produção sempre fez parte do meu caminho. Eu comecei minha carreira nos anos 2000 produzindo meus próprios projetos. Então hoje é quase um retorno a isso, mas com outra maturidade, outra bagagem. Acho que tudo isso foi me trazendo até esse momento com mais clareza do que eu quero fazer.

Entrevista exclusiva com o ator Velson DO ator Velson D’Souza éa Capa exclusiva do Correio B+ desta semana - Foto: Caio Gallucci - Diagramação: Denis Felipe Por: Flávia Viana

CE - O que te levou a escolher Oleanna, de David Mamet, neste momento da sua carreira?
VS -
 Eu conheci esse texto durante o mestrado em Nova Iorque e ele nunca saiu de mim. Sempre quis fazer. Na época eu não tinha a idade do personagem. Agora tenho essa maturidade como ator — e senti que era o momento.

E também porque é um texto que continua muito atual. A gente acha que avançou, mas ainda está lidando com as mesmas questões de poder, de comunicação, de interpretação. E é uma peça que não te dá resposta. Ela te coloca num lugar desconfortável. Isso me interessa muito hoje como artista.

CE - Além de atuar, você também assume a produção do espetáculo. Como isso impacta seu olhar sobre o trabalho?
VS -
 Amplia meu olhar. Eu passo a pensar mais no todo, na estrutura do espetáculo, em como tudo está funcionando. Mas eu só consigo fazer isso porque tenho uma equipe que sustenta a produção. Então isso me dá tranquilidade pra, como ator, conseguir me concentrar no que preciso fazer em cena. No fim, aumenta a responsabilidade, mas também me dá mais liberdade e consciência do que estamos fazendo.

CE - Como foi, para você, o desafio de transitar entre uma novela voltada ao público infantil no SBT e uma produção bíblica na Record, com linguagens e públicos tão distintos?
VS -
 É muito desafiador porque muda bastante o estilo e o tom. No SBT eu estava numa novela infantil, num núcleo cômico, fazendo comédia na TV pela primeira vez. Já a novela bíblica tem outro registro, outro tempo, outra escala.

Eu amo muito a versatilidade e a possibilidade de fazer trabalhos muito distintos, personagens complexos e diferentes. O desafio é entender a linguagem de cada projeto sem perder a verdade. Porque, no fim, o trabalho é o mesmo: construir uma relação viva com aquilo que você está fazendo.

CE - Você também se dedica à formação de atores no Espaço Colab. Como esse trabalho dialoga com sua atuação no teatro e no audiovisual?
VS -
 Dialoga totalmente. Dar aula me obriga a organizar o pensamento, a entender o processo com mais clareza. E isso volta pra mim como ator. Eu fico mais consciente do que estou fazendo, mas sem tentar controlar demais. É um lugar de troca. Não é só ensino — é investigação. E eu aprendo muito ali também. Muito com os alunos. Tem muita troca real.

CE - A futura montagem de True West, de Sam Shepard, aponta para que tipo de caminho dentro da sua trajetória?
VS -
 Acho que aponta para um aprofundamento. Eu tenho me interessado cada vez mais por textos que lidam com relações humanas de forma mais direta, mais exposta, mas também muito instável. O Shepard tem isso, assim como o Mamet. Então vejo como uma continuidade de pesquisa mesmo. Um caminho mais focado nesse tipo de material e nessa linguagem.

CE - O que você busca explorar como artista nos próximos projetos?
VS -
 Eu tenho buscado projetos que realmente me desafiem. Que me tirem de um lugar confortável. Tenho me interessado por trabalhos mais diretos, mais expostos, onde a relação está muito em primeiro plano — sem muita coisa pra “esconder” o ator. E também quero continuar participando mais da construção dos projetos, não só como ator, mas também produzindo. No fundo, o que eu busco é continuar investigando. Não repetir fórmula.





 

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