Política

Mato Grosso do Sul

A fraude que derrubou o último clã do jogo do bicho

Neno Razuk ficou sem o mandato que o blindava ha quase tres anos. Sem essa proteção, o GAECO pôde finalmente pedir a prisão do último herdeiro de um negócio que a polícia ja dava por controlado

Continue lendo...

Na manhã de 22 de maio, uma equipe do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) do Ministério Público Estadual (MPMS) abriu o Diário Oficial da Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul à procura de uma única publicação.

Encontrou o Ato nº 09/2026 da Mesa Diretora, três parágrafos burocráticos que declaravam aberta a vaga do deputado estadual Roberto Razuk Filho, o "Neno Razuk", do PL, e convocavam o suplente João César Matto Grosso Pereira, do PSDB, para assumir a cadeira.

Aquele ato administrativo não era apenas uma formalidade. Era o ponto chave para reabrir, depois de quase três anos de investigação, a possibilidade de pedir a prisão do homem que promotores já tratavam havia tempo como líder do último clã do jogo do bicho ainda em atividade plena no estado, blindagem que ele detinha apenas por causa do mandato que acabara de perder.

Trapalhada

A origem da vacância nada tinha a ver com o jogo do bicho. Vinha de outro escândalo, bem distante do prédio da Alems: o de Loester Carlos Gomes de Souza, o "Tio Trutis", e da então mulher dele, Raquelle Lisboa Alves Souza, ambos do mesmo PL de Neno Razuk.

Trutis chegara à política em 2018, eleito deputado federal por Mato Grosso do Sul na onda que levou Jair Bolsonaro à presidência. Autoproclamado "tio da moralidade", o dono de lanchonete colecionou escândalos ao longo do mandato, o mais notório em 2020, quando disse ter sofrido um atentado a tiros numa estrada vicinal entre Sidrolândia e Campo Grande. A perícia da Polícia Federal concluiu que o ataque fora encenado com o carro parado, e o Supremo Tribunal Federal o tornou réu por comunicação falsa de crime.

Não foi reeleito em 2022. Ele e Raquelle, sua ex-assessora em Brasília e que se tornara sua esposa e depois candidata a deputada estadual pelo PL, receberam juntos R$ 2,026 milhões do fundo eleitoral do partido, quase o triplo do que recebiam outros candidatos da sigla.

A Procuradoria Regional Eleitoral identificou que R$ 776 mil desse total foram repassados a duas empresas de fachada, sem sede, sem funcionários e sem capacidade de prestar qualquer serviço de comunicação eleitoral, atividade registrada no CNPJ do empreendimento. Em março deste ano, o Tribunal Superior Eleitoral confirmou, por unanimidade, a condenação do casal por lavagem de dinheiro do fundão eleitoral.

Foi essa condenação, e não qualquer fato ligado a Razuk, que obrigou o Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso do Sul a anular os votos de Raquelle e refazer o cálculo proporcional das cadeiras de 2022 da Alems. No novo resultado, o PL perdeu uma vaga na Casa. E a vaga que caiu foi a de Neno Razuk, colega de partido do casal, mas sem qualquer relação com o esquema de desvio do fundo eleitoral.

O último chefão

Para entender por que a perda dessa cadeira importava tanto ao GAECO, é preciso voltar à história do jogo do bicho em Campo Grande. Até 2019, a contravenção na capital era dominada pela família Name havia mais de três décadas, desde os anos 1990. Os Razuk, apesar de aliados, arriscavam algumas operações aqui e ali, sempre com o aval dos Name e pontos arrendados. Mesmo assim, não se entendiam.

O jogo do bicho no Estado, aliás, em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, foi instalado, bancado e gerido pelo senhor da fronteira, Fahd Jamil, no final dos anos 1970. Após se estruturar, ele vendeu e dividiu os territórios com aliados: os Razuk, no Conesul, os Name, na capital, e João Arcanjo ficou com a operação no Mato Grosso.

Em 2019, com o terremoto causado pela Operação Omertá, iniciada após investigação de diversos assassinatos em todo o Estado, que teve um início obscuro, com a morte do filho primogênito de Jamil, Danielito Georges, em 2011.

Um parênteses. A Omertá envolveu mortes e vinganças com o núcleo da família Name e outras ameaças que ficaram no ar. Uma mensagem enviada por Jamil Name Filho daria o tom: “vai morrer de picolezeiro a governador". Morreram desafetos pessoais de Jamilzinho, como o Playboy da Mansão, supostos envolvidos na morte de Danielito, como o famoso Betão “Anjo da Morte", e até ex-seguranças de Jorge Rafaat, que havia assumido o controle da fronteira após aposentadoria forçada de Fahd no fim dos anos 2000.

A desarticulação do grupo pela Operação Omertà abriu uma disputa entre organizações criminosas pelo controle da jogatina em Campo Grande. O clã Name abriu mão, vendendo ou se desfazendo de sua operação na capital, e isso abriu espaço para novos jogadores, incluindo “os paulistas”. O clã Razuk, que já era liderado desde 2010, pelo menos, por Neno Razuk, se organizou para tomar a Capital para si, tentando expulsar os paulistas.

Pelo menos três assaltos a mão armada realizados no mesmo dia, em outubro de 2023, foram atribuídos à organização de Razuk Filho, que desde 2018 é deputado estadual, como seu pai foi e como o filho de Jamil Name também é. A mãe de Neno também foi prefeita de Dourados por um mandato.

Sucessione

Os assaltos desencadearam a Operação Successione, em 2023, que prendeu boa parte dos operadores do esquema e, em dezembro de 2025, resultou na condenação de Razuk a mais de 15 anos de reclusão por integrar organização criminosa, roubo e exploração do jogo do bicho.

O Ministério Público reconhece que a sentença não bastou: enquanto outros clãs da jogatina foram desarticulados um a um pelas operações policiais dos últimos anos, o grupo comandado pela família Razuk seguiu funcionando, agora com foco em Dourados, após o revés em Campo Grande.

O que mantinha esse clã de pé, na avaliação de promotores do caso, era menos a sorte do que a blindagem institucional do mandato. Segundo a sentença que condenou Razuk em primeira instância, ele usava a própria estrutura da Assembleia Legislativa, impressoras, gabinete e assessores remunerados com dinheiro público para dar suporte à organização.

Ele chegou a presidir o Conselho de Ética da Casa justamente quando a primeira fase da Successione foi deflagrada, e seguiu como membro do colegiado depois disso, o que tornava praticamente impossível qualquer punição interna vinda dos próprios colegas.


Sem mandato, sem escudo

A perda da cadeira não bastava, por si só, para justificar uma prisão, a condenação de dezembro de 2025 já garantia a Razuk o direito de recorrer em liberdade, e a execução da pena dependia do esgotamento dos recursos.

O que a saída da Alems realmente derrubou foi a discussão sobre foro por prerrogativa de função, que blindava o político de medidas mais duras enquanto ele estivesse no exercício do mandato.

Livre dessa barreira, o Gaeco reuniu as peças que já estava apurando havia meses: indícios de que Razuk usava intermediários e uma rede de PIX para movimentar dinheiro do jogo do bicho sem que os valores fossem vinculados ao seu nome; o uso de uma empresa do pai, um posto de combustíveis em Dourados, para receber depósitos em espécie de outros integrantes da organização; e sinais de que o grupo seguia ativo, com bancas de apostas flagradas em pleno funcionamento em Dourados em março de 2025.

Somava-se a isso o interesse do clã na disputa pela concessão da nova loteria estadual, a Lotesul. O pai de Neno pagou custas processuais de uma empresa que questionava a licitação. Os procuradores da empresa esqueceram que o pix foi feito por uma conta de Razuk pai e anexaram o comprovante no processo.

Em 8 de junho, sob sigilo absoluto, os promotores protocolaram o pedido de prisão preventiva. O juiz José Henrique Kaster Franco decretou a prisão em 2 de julho, com base na Lei 15.272/2025, que passou a considerar a participação em organização criminosa e o risco de reiteração delitiva como critérios objetivos de periculosidade.

Casa vazia

Foi só na manhã de 7 de julho, dia que acontecia outra operação do Gaeco em vários locais de MS (Operação Gutenberg) que equipes do grupo tentaram cumprir o mandado. O primeiro endereço foi a casa de Délia Razuk, no Jardim América, em Dourados. A ex-prefeita recebeu os agentes acompanhada de um ex-secretário de sua gestão na prefeitura e disse não saber informar o paradeiro do filho.

No dia seguinte, os agentes foram ao segundo endereço, o mais visitado pela PF e Gaeco: o condomínio Damha, na capital. O imóvel estava vazio e Razuk teria vendido a casa há três meses, antes mesmo do ato que deu fim a seu mandato de deputado.

O casal Loester e Raquelle se separou, com acusações de agressão por parte da ex-esposa e quase deputada estadual. Sua passagem relâmpago pela política sul-mato-grossense trouxe, além de confusão eleitoral, um epílogo moroso para a troca de comando do jogo do bicho, hoje já em vias de ter como concorrente uma loteria estadual.

 

ASSEMBLEIA LEGISLATIVA

Deputados aprovam LDO de R$ 27,9 bilhões com uma emenda em 2ª votação

A partir de agora, a matéria vai para redação final

14/07/2026 15h15

Sessão plenária de 14 de julho . FOTO: LUCIANA NASSAR

Sessão plenária de 14 de julho . FOTO: LUCIANA NASSAR

Continue Lendo...

Deputados estaduais de Mato Grosso do Sul aprovaram, em segunda votação, a proposta de Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO 2027) - Projeto de Lei 77/2026, durante a sessão plenária, realizada nesta terça-feira (14), na Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul (ALEMS).

A proposta está estimada em R$ 27,9 bilhões para o próximo exercício financeiro – 2027 e define as metas, prioridades e regras que orientarão a aplicação dos recursos públicos estaduais.

Desse total, as receitas primárias são estimadas em R$ 24,492 bilhões. As despesas primárias correntes deverão alcançar R$ 19,860 bilhões, sendo que R$ 10,226 bilhões serão destinados ao pagamento de pessoal e encargos sociais.

A LDO, encaminhada pelo Poder Executivo, passou pela segunda discussão e sofreu uma emenda. A partir de agora, a matéria vai para redação final.

A emenda incorporada estabelece que os percentuais do duodécimo destinados aos Poderes e órgãos autônomos serão definidos pela Lei Orçamentária Anual (LOA).

Art. 1º O §3º do art. 12 do Projeto de Lei n. 077/2026, passa a vigorar com a seguinte redação, suprimidos os seus incisos I a V:

"§3º Na elaboração de suas propostas, os Poderes e as instituições de que trata o caput deste artigo terão como limite de suas despesas de pessoal o estabelecido nos arts. 19 e 20 da Lei Complementar Federal nº 101, de 2000, bem como o total orçamentário de que trata o art. 168 da Constituição Federal de 1988. Os repasses dos duodécimos destinados aos Poderes e às instituições de que trata o caput deste artigo serão aqueles estabelecidos na LOA".

A presente emenda substitutiva tem por finalidade aperfeiçoar o texto da Lei de Diretrizes Orçamentárias, a fim de assegurar que a Lei Orçamentária Anual seja elaborada com observância ao regular processo de consolidação, apreciação e deliberação das propostas orçamentárias dos Poderes e dos órgãos constitucionalmente autônomos, preservando-se a função própria da LDO como instrumento de orientação da elaboração orçamentária, sem substituir a etapa específica de definição dos montantes na Lei Orçamentária Anual.

Veja como cada deputado votou:

Sessão plenária de 14 de julho . FOTO: LUCIANA NASSAR

LDO

A Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) é o instrumento que estabelece as metas, prioridades e regras para a elaboração do orçamento público do ano seguinte.

Ela funciona como uma ponte entre o Plano Plurianual (PPA), que define os objetivos do governo para um período de quatro anos, e a Lei Orçamentária Anual (LOA), que detalha quanto será destinado a cada área da administração pública.

Na prática, a LDO orienta a distribuição dos recursos, fixa metas fiscais e estabelece critérios para o controle dos gastos públicos.

@@NOTICIAS_RELACIONADAS@

REVIRAVOLTA

Vander anuncia desistência de Soraya e que ela será sua 1ª suplente ao Senado

Deputado afirma que proposta foi apresentada pela própria senadora e que agora aguardam aval do presidente Lula

14/07/2026 08h42

A senadora Soraya Thronicke (PSB) com o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e com o deputado federal Vander Loubet (PT) durante evento público em Campo Grande (MS)

A senadora Soraya Thronicke (PSB) com o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e com o deputado federal Vander Loubet (PT) durante evento público em Campo Grande (MS) Arquivo

Continue Lendo...

Os pré-candidatos ao Senado por Mato Grosso do Sul, deputado federal Vander Loubet (PT) e senadora Soraya Thronicke (PSB), decidiram que o grupo de apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) terá apenas um candidato na disputa pelas duas vagas ao Senado nas eleições de outubro. 
 
Em entrevista ao Correio do Estado, Vander Loubet confirmou que a definição, no entanto, ainda depende de uma reunião com o presidente da República. “Ela decidiu ontem abrir mão da candidatura à reeleição para compor a chapa como minha primeira suplente. A ideia partiu da própria senadora”, afirmou.
 
Ainda segundo o parlamentar, a proposta foi bem recebida por fortalecer eleitoralmente a aliança, pois, de acordo com ele, Soraya relatou que enfrenta problemas de ordem particular e, por esse motivo, manifestou a intenção de não disputar um novo mandato no Senado, optando por integrar a chapa apenas na condição de primeira suplente. 
 
"Foi uma ideia da própria Soraya. Eu considero uma composição muito boa, porque nos torna mais competitivos", afirmou o deputado, acrescentando que a composição já está acertada entre os dois pré-candidatos e que resta apenas o aval do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para que a chapa seja oficializada.
 
A possibilidade de composição entre os dois ganhou força após avaliações internas indicarem que a divisão de candidaturas poderia reduzir as chances do campo governista conquistar uma das vagas ao Senado. Vander e Soraya chegaram ao consenso de que haverá apenas uma candidatura da coligação, faltando apenas a conversa com Lula para o anúncio oficial.
 
Soraya Thronicke deixou o Podemos e se filiou ao PSB com o objetivo de integrar o projeto político alinhado ao governo federal em Mato Grosso do Sul. Inicialmente, a estratégia previa o lançamento de duas candidaturas ao Senado, uma pelo PT e outra pelo PSB, mas o cenário eleitoral levou os partidos a reavaliarem a estratégia.
 
Levantamentos divulgados neste mês mostram Vander e Soraya em posições próximas nas intenções de voto. A avaliação do grupo é que a unificação da candidatura permitirá concentrar recursos, estrutura de campanha e o apoio político do presidente Lula, que deverá participar da campanha em Mato Grosso do Sul durante o período eleitoral.

Caso a composição seja avalizada pelo presidente Lula, Vander Loubet disputará uma das duas vagas ao Senado tendo Soraya Thronicke como primeira-suplente, consolidando uma chapa única do campo da esquerda no Estado.

NEWSLETTER

Fique sempre bem informado com as notícias mais importantes do MS, do Brasil e do mundo.

Fique Ligado

Para evitar que a nossa resposta seja recebida como SPAM, adicione endereço de

e-mail [email protected] na lista de remetentes confiáveis do seu e-mail (whitelist).