Cidades

CAMPO GRANDE

Audiência que tenta derrubar aumento na taxa do lixo será à noite

Após uma sessão extraordinária durante recesso e dos vereadores deixarem a decisão para semana que vem, encontro aberto à sociedade e instituições acontecerá amanhã (05) no período noturno

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Ainda ontem (03), durante a 1.ª Sessão Ordinária de 2025 na Câmara Municipal, os vereadores de Campo Grande assinaram um edital convocando a realização de uma audiência pública, ainda na tentativa de impedir o aumento da Taxa de Coleta, Remoção e Destinação de Resíduos Sólidos Domiciliares para este ano, encontro esse que deve acontecer no período noturno amanhã (05). 

Conforme o documento, assinado pelo presidente da Casa de Leis, Epaminondas "Papy" Vicente Silva Neto (PSDB), e pelo 1° secretário Carlos Augusto Borges (PSB), o "Carlão", a audiência pública que deve discutir o veto da prefeita Adriane Lopes (PP) ao Projeto de Lei Complementar 1.016/26 está prevista para acontecer na quinta-feira (05), a partir de 18h. 

Além disso, atendendo à vereadora Luiza Ribeiro, que fez inclusive oficialmente o pedido, o presidente da Casa de Leis determinou que, além da dita audiência pública marcada para a quinta-feira (05), a votação em si ao veto ficou para a semana que vem, na próxima terça (10). 

"A Câmara iria deliberar hoje sobre essa matéria, mas a pedido dos vereadores e convencionados com a maioria dos colegas presentes vamos dar mais uma oportunidade para uma audiência pública, em que as instituições possam estar presentes, mais o Executivo, e vou retirar de pauta esse projeto no dia de hoje e, em respeito e harmonia com os pares", recuou Papy após indicar que o veto estava pautado para ser deliberado entre os parlamentares ontem (03). 

Antes do horário ser cravado em plenário nesta última terça (04), a própria vereadora petista já havia indicado nos bastidores algumas datas para que a audiência pudesse ser realizada, que poderiam ser: hoje (04) e quinta-feira (05) no período da tarde, ou na sexta-feira (06) pela manhã. 

Acontece que, se lançado o olhar sobre as audiências realizadas mais recentemente na Câmara de Campo Grande, apenas um dos nove últimos debates  abertos na Casa de Leis nos últimos três meses foi realizado no período noturno.  

Enquanto assuntos como a regularização das favelas; direitos dos povos de matriz africana; enfrentamento à violência obstétrica; moradia indígena; impacto social e ambiental do lixo na Capital e até debates sobre a vida noturna em Campo Grande e prestação de contas das ações de castração e bem-estar animal, tiveram audiências públicas no período da manhã, o último encontro nesta modalidade feito à noite foi a discussão a respeito da valorização dos esportes e cultura universitária "atléticas em ação", às 19h do dia 11 de novembro. 

Entenda

Prefeita por Campo Grande, Adriane Lopes (PP) esteve presente na Sessão Solene Inaugural na Câmara Municipal, de abertura dos trabalhos legislativos de 2026 na segunda-feira (02) e - sem descartar ainda recorrer à Justiça se necessário - disse esperar que os vereadores mantenham o seu veto, já que em 2025 cerca de 90% dos projetos do Executivo foram aprovados pela Câmara Municipal. 

Adriane Lopes reforçou que os dados para as mudanças foram apresentados na Câmara Municipal em 2025, com "alguns vereadores se interessando mais que outros", segundo a prefeita. 

"Mas os dados foram apresentados das finanças do município, tanto da taxa de lixo como do reajuste do IPTU. E a gente vem num convencimento da necessidade de se arrecadar para bancar os serviços públicos em Campo Grande", disse ela em complemento.

Segundo a prefeita, Campo Grande hoje tem 98% de cobertura dos serviços, com escolas e unidades de saúde a cada três quilômetros na Capital, então "você tem que ter condições de bancá-los".

Antes mesmo da definição se o veto seria analisado em plenário ou deixado para semana que vem, Papy reforçou que irá defender a lei elaborada pela Câmara Municipal caso a prefeitura judicialize a questão diante de uma possível derrubada do veto. 

"Se eles judicializarem, eu de ofício preciso defender qualquer tipo de ação direta de inconstitucionalidade que a prefeita impetrar no judiciário. E sim, se eles perderem a votação hoje, não tem outro caminho a não ser judicializar. Ela me disse que a judicialização não seria algo de disputa política, mas seria uma questão de sobrevivência financeira", afirmou Papy. 

A própria prefeita destacou nesse início de semana da atual arrecadação de 40 milhões, diante dos 136 que são pagos dos serviços custeados pela taxa do lixo, dizendo que é necessário regularizar essa situação, para que o recurso que deveria ir para obras e outras situações não seja empregado neste pagamento. 

Relembre

Entre os assuntos mais polêmicos na Capital neste 2026 está justamente o IPTU, o qual os carnês, pelos valores de correção, deveriam vir com reajuste de 5,32% em relação ao aplicado no último pagamento, o que corresponde à variação da inflação no período, baseada pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo Especial (IPCA-E) calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 

Por não ser diferente da inflação do período, esse percentual já havia sido divulgado pela secretária Municipal de Fazenda, Márcia Helena Hokama, e pela prefeita Adriane Lopes, em suplemento que data de 24 de outubro de 2025 no Diogrande, sem a necessidade de passar pela Câmara de Campo Grande.

Ainda em meados de novembro - como bem acompanha o Correio do Estado - a Prefeitura de Campo Grande reduziu pela metade (de 20 para 10%) o desconto de quem paga o IPTU à vista, mas as alterações que incidem sobre os valores desse imposto não iriam parar aí. 

Além disso, o novo Perfil Socioeconômico Imobiliário (PSEI) foi atualizado após quase uma década, subindo valores da taxa de lixo para 44% dos moradores, aprovado inclusive na Câmara Municipal no segundo semestre do ano passado.

Como se não bastasse, o titular Municipal de Governo e Relações Institucionais (Segov), Ulysses da Silva Rocha, pontuou no meio dessa polêmica a cobrança extra que, segundo ele, já estaria prevista nos códigos municipal e nacional por meio da qual, por parâmetro municipal a Prefeitura pode e aplicou a cobrança de 3,5%, o máximo que estaria previsto no Código Tributário Nacional.  

Nesse caso, cabe explicar, essa alíquota seria para imóveis territoriais em bairros com mais de três equipamentos públicos (iluminação pública, escola, água, luz, etc.). 

Justamente esse "tarifaço sobre os terrenos baldios", como bem abordado no Correio do Estado, é o que ajuda a explicar a "chiadeira" sobre o IPTU neste começo de 2026.

Em outras palavras, até o ano passado os proprietários de boa parcela destes terrenos pagavam 1% de imposto, até essa mudança para 3,5% que sozinha já representa um aumento de 250% no valor do carnê e, se estes terrenos estão na lista dos 45% dos imóveis que sofreram majoração desta taxa por conta da reclassificação feita este ano, acabaram sofrendo tarifaço duplamente.

"Então, se o cara tinha um imóvel de 100 mil reais e pagava mil, ele pode, dependendo do caso, estar pagando 3.500 reais, mas sem uma alteração do valor venal do imóvel, mas dentro de acordo com o que o Código Tributário Municipal estabelece em consonância com o Código Tributário Nacional", disse o próprio secretário de relação há exatamente uma semana (07). 

Alegando que ficou de fora dos debates referentes ao aumento do IPTU, a Câmara Municipal de Campo Grande indicou a constituição de uma equipe técnica especializada para estudar, discutir e avaliar os critérios utilizados na elaboração. 

Instituída a Comissão Técnica que tem atuado em cima das mudanças anunciadas sobre o IPTU, foram necessários alguns posicionamentos da Câmara e demais entidades, como a Ordem dos Advogados do Brasil do Mato Grosso do Sul (OAB-MS) para que os prazos do IPTU fossem alterados.

Durante o recesso parlamentar os vereadores convocaram uma sessão extraordinária e, por unanimidade, chegaram a derrubar o projeto do Executivo municipal que aumentava o IPTU em Campo Grande, que foi vetado, porém, pela própria prefeita um dia após a votação. 

Entretanto também - como abordo no Correio do Estado -, desde esse ponto pelo menos sete vereadores que foram contra a tarifa agora estão "indecisos", ou seja, propensos a serem favoráveis ao veto do Executivo mesmo tendo participado da polêmica aprovação do projeto de lei complementar.

 

  

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requerimento

CPI do Tapa-Buraco avança na Câmara de Campo Grande com sete assinaturas

Dentre os fatos determinados da investigação estão ausência de ações e respostas do Executivo diante das reclamações da população, prejuízos causados, redução dos investimentos, dentre outros

13/10/2026 18h14

Câmara quer CPI para investigar contratos do tapa-buraco

Câmara quer CPI para investigar contratos do tapa-buraco Foto: Marcelo Victor / Correio do Estado

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A articulação para abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) avançou na Câmara Municipal de Campo Grande, com sete vereadores assinando o requerimento. A proposta é investigar possíveis irregularidades nos contratos e na execução dos serviços de tapa-buracos na Capital.

O requerimento para a criação da CPI foi apresentado pela vereadora Luiza Ribeiro (PT), na sessão do dia 13 de agosto deste ano. 

Nesta terça-feira (13), dois meses depois, ela afirmou que o documento já reúne sete assinaturas, dos vereadores Jean Ferreira (PT), Landmark (PT),  Marquinhos Trad (PV), Maicon Nogueira (PP), André Salineiro (PL) e Vererinário Francisco (União Brasil), além dela.

O requerimento estabelece como fatos determinados da investigação a ausência de ações e respostas do Executivo diante das reclamações da população, os prejuízos causados pela falta de manutenção adequada, a redução dos investimentos, os casos de possíveis irregularidades e a ausência de resposta ao requerimento aprovado pelo Plenário.

Um dado apresentado no requerimento é que, das 24.673 indicações encaminhadas pela Câmara ao Executivo no primeiro semestre de 2026, quase 9 mil foram destinadas à realização de serviços de tapa-buraco em diferentes regiões do Município.

Outro ponto destacado no documento é a redução da dotação destinada ao projeto de Modernização e Requalificação das Vias Urbanas, cujos investimentos previstos passaram de mais de R$ 132 milhões em 2025 para pouco mais de R$ 40 milhões em 2026, uma redução de quase 70%.

O requerimento também aponta que o Ministério Público de Mato Grosso do Sul investiga ações relacionadas ao serviço de tapa-buracos em Campo Grande e cita a Operação “Buraco Sem Fim”, que apurou suspeitas de fraudes em contratos, incluindo possíveis irregularidades em medições de serviços e pagamentos por obras parcialmente executadas ou não realizadas.

Por fim, é mencionado o acompanhamento do tema pelo Tribunal de Contas de Mato Grosso do Sul (TCE-MS).

“Não estamos falando apenas de buracos nas ruas. Estamos falando de dinheiro público, de qualidade dos serviços prestados à população e da necessidade de saber por que Campo Grande chegou a essa situação. A Câmara precisa cumprir seu papel de fiscalização e investigar”, defende Luiza Ribeiro.

A proposta solicita a criação da CPI pelo prazo inicial de 120 dias, com a definição dos fatos a serem investigados, composição da comissão e prazo para conclusão dos trabalhos após a adoção das providências regimentais.

Para que a CPI seja aberta, é necessário o apoio de no mínimo um terço dos vereadores. Como a Câmara de Campo Grande tem um total de 29 vereadores, o cálculo resulta na necessidade de, no mínimo, 10 assinaturas.

Para Luiza Ribeiro, a questão central é garantir transparência. “A população de Campo Grande precisa saber quanto está sendo gasto, como os serviços são executados e por que os problemas persistem. Afinal, a manutenção das ruas é um serviço público essencial, e a população tem o direito de saber como seu dinheiro está sendo aplicado ", argumenta. 

O vereador André Salineiro, que assinou o requerimento, defendeu a abertura da CPI e cobrou cobrou transparência e fiscalização sobre os novos contratos anunciados pela Prefeitura, que somam R$ 46,3 milhões, e a promessa de ampliar os serviços para até 3 mil buracos tapados por dia, com várias frentes de trabalho, a partir desta terça-feira (13).

“Sou favorável à abertura de uma CPI do Tapa-Buraco. A população espera uma posição dos vereadores. Nós vamos investigar o que aconteceu ou deixar esse assunto passar sem que esta Casa cumpra o seu papel? Não estou aqui para condenar ninguém antes da conclusão das investigações. Investigar não é condenar”, afirmou Salineiro.

O vereador Veterinário Francisco cobrou, independentemente da abertura da CPI, providências do Executivo municipal para a realização da operação tapa-buracos no bairro  Coophasul e em outras regiões de Campo Grande, cujas solicitações já foram apresentadas várias vezes, mas sem solução do problema.

“Desde o início do meu mandato, tenho cobrado a operação tapa-buracos na nossa Capital.  Foram várias vezes o mesmo pedido para o Coophasul, mas até agora nada foi feito”, afirmou, acrescentando que  a operação tapa-buracos precisa chegar aos bairros que aguardam atendimento.

Ação Policial

Polícia barra festa infantil atribuída ao Comando Vermelho em MS

Duas mulheres foram presas em Pedro Gomes durante operação que impediu evento de Dia das Crianças supostamente financiado pela facção; investigação aponta ações semelhantes em outras cidades do Estado.

13/10/2026 18h01

Polícia Militar acompanha abordagem durante operação que impediu festa de Dia das Crianças supostamente financiada pelo Comando Vermelho, em Pedro Gomes, no norte de Mato Grosso do Sul.

Polícia Militar acompanha abordagem durante operação que impediu festa de Dia das Crianças supostamente financiada pelo Comando Vermelho, em Pedro Gomes, no norte de Mato Grosso do Sul.

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Uma festa de Dia das Crianças que, segundo a Polícia Civil, seria utilizada pelo Comando Vermelho para conquistar a simpatia de moradores e ampliar sua influência em comunidades de Mato Grosso do Sul foi impedida pelas forças de segurança na segunda-feira (12), em Pedro Gomes, município da região norte do Estado.

A operação terminou com duas mulheres presas e revelou uma suposta estratégia da organização criminosa para utilizar a distribuição de alimentos, doces e brinquedos como forma de aproximação com a população.

As investigações apontam que a iniciativa não seria isolada. Informações obtidas pelos setores de inteligência das polícias Civil e Militar indicaram que a facção planejava promover eventos semelhantes em pelo menos três municípios sul-mato-grossenses: Pedro Gomes, Sonora e Coxim.

A suspeita é de que as comemorações, apresentadas como iniciativas comunitárias, fossem financiadas por integrantes do Comando Vermelho com o objetivo de fortalecer a presença do grupo nas localidades, estabelecer vínculos com moradores e construir uma imagem de proteção e assistência social, especialmente entre famílias em situação de vulnerabilidade.

Em Pedro Gomes, os policiais identificaram antecipadamente o local e o horário da festa, além de pessoas que estariam envolvidas na organização do evento. O encontro estava previsto para as 15h, no campo de futebol do Bairro São Luís.

Segundo o levantamento policial, também foi identificada uma pessoa apontada como liderança externa da organização criminosa, que mantinha contato direto com as responsáveis locais e com fornecedores contratados para a realização da festa.

Polícia identificou pagamentos e organização da festa

As investigações começaram dias antes da data prevista para as comemorações. A partir do compartilhamento de informações entre os setores de inteligência, as forças de segurança passaram a acompanhar os preparativos dos eventos e os possíveis vínculos dos organizadores com a facção criminosa.

Um dos elementos que chamaram a atenção dos investigadores foi a forma de pagamento dos serviços contratados.

Conforme as informações levantadas, os brinquedos infláveis que seriam disponibilizados às crianças deveriam ser pagos em dinheiro, diretamente no local da festa. Para a polícia, a utilização de valores em espécie poderia dificultar o rastreamento dos recursos empregados na organização do evento.

Além disso, foram identificadas pessoas responsáveis pelos preparativos e contatos que, segundo os investigadores, indicariam a participação de integrantes da organização criminosa no planejamento das atividades.

A partir desses indícios, as equipes intensificaram o acompanhamento da movimentação no Bairro São Luís, com o objetivo de impedir a realização do evento caso fosse confirmada a ligação com a facção.

Duas mulheres foram presas em Pedro Gomes

Durante a intervenção policial, duas mulheres foram encontradas no campo de futebol enquanto montavam uma estrutura destinada à distribuição de alimentos para as crianças da comunidade.

Polícia Militar acompanha abordagem durante operação que impediu festa de Dia das Crianças supostamente financiada pelo Comando Vermelho, em Pedro Gomes, no norte de Mato Grosso do Sul.Policiais abordaram organizadoras de festa infantil que, segundo a investigação, seria financiada pelo Comando Vermelho em Pedro Gomes. Foto: Divulgação Policia Civil.

Ao serem questionadas pelos agentes, uma delas afirmou que estava organizando uma comemoração infantil, mas não apresentou autorização para a realização do evento.

Segundo a polícia, a jovem já era conhecida das forças de segurança e havia sido mencionada em um registro anterior por supostamente ameaçar moradores da vizinhança em nome de uma organização criminosa.

A investigação apontou ainda que a estrutura preparada para a festa estaria sendo financiada por integrantes do Comando Vermelho, com movimentações financeiras realizadas principalmente por meio de contas bancárias de uma das investigadas.

As duas mulheres foram presas em flagrante, sob suspeita de envolvimento com a organização criminosa e de participação em atividades destinadas a favorecer sua atuação na comunidade.

A polícia também apreendeu aparelhos eletrônicos que, conforme o relatório investigativo, continham informações consideradas relevantes para a identificação dos responsáveis pelo planejamento e financiamento da festa.

Mensagens e transferências via Pix são investigadas

A análise preliminar dos aparelhos apreendidos revelou, segundo a Polícia Civil, conversas que mencionavam diretamente o Comando Vermelho e indicavam a existência de grupos de mensagens utilizados para organizar as atividades.

Entre os registros identificados estaria um grupo destinado especificamente às finanças do chamado "projeto Dia das Crianças", expressão utilizada nas comunicações analisadas pelos investigadores.

Também foram encontradas referências a transferências bancárias realizadas por meio do Pix entre as mulheres investigadas, o que reforçou as suspeitas sobre a existência de uma estrutura financeira por trás da organização dos eventos.

Para os policiais, os elementos reunidos indicam que a comemoração não seria apenas uma iniciativa espontânea das organizadoras, mas parte de uma atividade articulada e financiada por pessoas ligadas à facção.

A investigação busca identificar a origem dos valores movimentados, a participação de outros envolvidos e a extensão da estrutura responsável pelas comemorações planejadas no norte do Estado.

Operação semelhante ocorreu em Sonora

A atuação em Pedro Gomes aconteceu após uma intervenção policial realizada em Sonora, onde as forças de segurança já haviam interrompido um evento semelhante, também relacionado às comemorações do Dia das Crianças.

Na ocasião, duas mulheres foram presas e aproximadamente 200 brinquedos, além de doces, foram apreendidos.

Segundo os investigadores, as características do evento em Sonora apresentavam semelhanças com a iniciativa planejada em Pedro Gomes, o que fortaleceu a suspeita de uma atuação coordenada entre pessoas vinculadas ao Comando Vermelho.

A identificação desse padrão levou os policiais a concentrar esforços na segunda cidade, onde já haviam sido identificados o horário, o local e parte dos responsáveis pelos preparativos.

Coxim também apareceu nas informações de inteligência como um dos municípios onde a facção pretendia promover atividades voltadas ao público infantil. Entretanto, o material divulgado não detalha se houve intervenção policial ou realização de evento semelhante na cidade.

Alimentos foram descartados por falta de garantia sanitária

Além das suspeitas relacionadas ao financiamento da comemoração, a operação levantou questionamentos sobre as condições de preparo e armazenamento dos alimentos que seriam distribuídos às crianças.

A pedido da autoridade policial, a Vigilância Sanitária municipal foi acionada para avaliar os produtos encontrados no local.

Segundo as informações repassadas pelo órgão, não foi possível atestar a segurança dos alimentos, uma vez que as condições de higiene empregadas durante o preparo eram desconhecidas.

Diante da impossibilidade de garantir que os produtos estavam próprios para consumo, o material foi considerado inadequado para distribuição e acabou descartado.

A medida também impediu o reaproveitamento dos alimentos apreendidos, já que não havia garantias suficientes sobre a procedência e as condições sanitárias.

O episódio acrescentou uma preocupação à ocorrência: além da suspeita de utilização da festa para favorecer uma organização criminosa, os produtos seriam destinados a crianças sem que sua segurança sanitária pudesse ser comprovada.

Facção tentaria conquistar apoio da população

Para a Polícia Civil, o caso revela uma estratégia que ultrapassa a atuação tradicional das organizações criminosas no tráfico de drogas e em outros delitos.

Segundo a investigação, as chamadas "ações sociais" funcionariam como instrumentos de aproximação entre integrantes das facções e moradores de comunidades onde esses grupos pretendem ampliar sua influência.

A distribuição de alimentos, brinquedos e outros benefícios permitiria que a organização se apresentasse como uma espécie de protetora da população, criando vínculos e buscando reconhecimento social.

Essa atuação, conforme a avaliação policial, pode contribuir para estabelecer relações de dependência e gratidão, especialmente em localidades marcadas por dificuldades econômicas e acesso limitado a determinados serviços.

Ao mesmo tempo, os investigadores apontam que a estratégia pode prejudicar a relação entre moradores e autoridades, uma vez que a presença das forças de segurança passa a ser apresentada pela organização criminosa como um obstáculo à realização de atividades comunitárias.

De acordo com a Polícia Civil, esse comportamento está associado à chamada narcocultura, fenômeno caracterizado pela normalização e valorização de símbolos, práticas e lideranças de organizações criminosas ligadas ao tráfico de drogas.

Nesse contexto, eventos aparentemente beneficentes poderiam funcionar como ferramentas para fortalecer a imagem das facções, ampliar sua influência territorial e reduzir a disposição de moradores para colaborar com investigações policiais.

Para as autoridades, a utilização de comemorações destinadas a crianças é particularmente preocupante, porque pode aproximar o público infantil de ambientes influenciados por organizações criminosas e contribuir para a naturalização de sua presença na comunidade.

Nova legislação prevê até 20 anos de prisão

As prisões realizadas em Pedro Gomes também estão relacionadas à aplicação da Lei Federal nº 15.358/2026, que instituiu o Marco Legal do Combate ao Crime Organizado no Brasil.

A legislação passou a tipificar, entre outras condutas, o crime de favorecimento ao domínio social estruturado, que abrange determinadas formas de apoio e colaboração com organizações criminosas ultraviolentas, grupos paramilitares e milícias privadas.

A pena prevista para esse crime varia de 12 a 20 anos de reclusão, além de multa.

Segundo a Polícia Civil, os elementos identificados durante a investigação fundamentaram a prisão em flagrante das suspeitas e o enquadramento das condutas na nova legislação.

As investigadas também são apontadas como suspeitas de envolvimento com organização criminosa. A responsabilização penal dependerá da análise das provas reunidas e dos desdobramentos do procedimento judicial.

A autoridade policial solicitou ao Poder Judiciário a manutenção das prisões, com a decretação da prisão preventiva, medida que permite manter investigados presos durante o andamento das investigações quando estão presentes os requisitos previstos em lei.

Investigações continuam no norte de MS

Mesmo com a interrupção das comemorações em Pedro Gomes e Sonora, as investigações continuam para identificar outras pessoas que possam ter participado da organização ou do financiamento dos eventos.

Segundo a Polícia Civil, outras pessoas também são investigadas por suspeita de envolvimento na organização e no financiamento dos eventos, incluindo indivíduos que teriam contribuído financeiramente ou mantido contato com as organizadoras locais.

Os investigadores também buscam esclarecer a extensão do planejamento das chamadas ações sociais e identificar eventuais vínculos entre os envolvidos nos diferentes municípios.

O caso chama atenção para uma possível mudança na estratégia de atuação das facções em Mato Grosso do Sul, que, além de disputarem influência por meio de atividades criminosas, também estariam tentando conquistar espaço nas comunidades mediante iniciativas apresentadas como beneficentes.

Para as forças de segurança, impedir a utilização dessas atividades por organizações criminosas é uma forma de enfrentar não apenas os delitos atribuídos às facções, mas também as tentativas de ampliar sua influência sobre a população.

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